Maya
O sinal tocou, o som estridente ecoando pelo corredor, mas eu não me mexi. Meus pulmões pareciam ter esquecido como funcionavam. Machado de Assis? Seria possível que esse homem fosse tão suicida assim?
Observei os outros alunos saindo. Letícia passou por mim, me lançando um olhar de "você vai deixar?", mas eu a ignorei. Algumas pessoas parecem que não percebem o risco que correm. Esse cara passou a aula toda querendo me desafiar. Esse não é um bom jogo. Meus olhos estavam fixos nas mãos do professor Gabriel, que guardava os papéis na pasta com uma calma que me dava vontade de gritar.
Todos no morro abaixavam a cabeça para mim. Não porque me amavam, mas porque sabiam que um fio de cabelo meu tocado significava o fim da linha para eles. E ali estava ele, um mauricinho com cheiro de livro e passado misterioso, me desafiando na frente de todo mundo.
Levantei-me, o barulho da cadeira arrastando no chão parecendo um tiro no silêncio da sala. Caminhei até a mesa dele.
— Você tem muita coragem, professor — falei, parando na frente da mesa e cruzando os braços. — Ou é muito burro. Qual das duas opções você prefere?
Ele parou o que estava fazendo e levantou o olhar. De perto, os olhos dele eram ainda mais profundos. Não eram os olhos de um acadêmico entediado; eram olhos de quem já tinha visto o abismo. Eu gelei, mas mantive meu corpo firme em sua frente.
— Eu prefiro a terceira opção, Maya — ele disse, a voz calma, mas firme. — A de que eu sou apenas um homem que não se impressiona com sombras.
— Sombra? — Eu ri, uma risada sem humor, inclinando-me sobre a mesa dele. — Você sabe quem é meu irmão? Você sabe que, se eu estalar os dedos, você não desce essa ladeira hoje?
Gabriel não recuou. Pelo contrário, ele se inclinou para frente, diminuindo a distância entre nós. O cheiro dele — madeira e algo que eu não conseguia identificar, mas que me deixava tonta — me atingiu em cheio.
— Eu sei exatamente quem é o seu irmão, Maya Albuquerque. Mas também sei que, se você fosse realmente a dona desse jogo, não estaria tão desesperada para que eu tivesse medo de você. Desculpe desapontala, mas eu não tenho de mais nada nessa vida. Nem você e nem do seu irmão.
Senti meu rosto esquentar. A fragilidade que eu tentava esconder a sete chaves parecia estar exposta sob uma luz de interrogatório.
— Eu não estou desesperada — sibilei.
— Está. Você quer que eu abaixe a cabeça como todos os outros, porque se eu não abaixar, você vai ser obrigada a me ver como um igual. E isso te assusta, não é? Ver que existe um mundo fora dessa bolha de fuzis onde você é apenas uma garota de dezassete ou dezoito anos que gosta de poesia?
Eu dei um passo para trás, como se ele tivesse me dado um tapa.
— Eu não gosto de poesia.
Gabriel se esticou, antes que eu pudesse me afastar o suficiente e tirou de cima dos meus cadernos o menor dele. O que ue segurava por cima de tudo. Preto e, gasto nas pontas. Antes que eu tivesse a chance de fazer qualquer coisa, ele o abriu e leu.
— "Onde o asfalto termina, o meu grito começa". — leu em voz alta — Não parece o verso de alguém que odeia poesia.
Meu coração disparou. Aquele era meu caderno secreto. Senti uma mistura de fúria e uma curiosidade avassaladora. Ninguém nunca tinha lido aquilo. Ninguém nunca tinha ousado olhar para dentro da Maya que morava atrás da "Irmã do DG".
— Você não tinha o direito — murmurei, arrancando o caderno da mão dele.
— Eu disse que sou atrevido, lembra? — Ele deu um sorriso de canto, e por um segundo, o ar de mistério dele se tornou algo... humano. Atraente. — Amanhã, às dez. Não se atrase. Temos muito o que discutir sobre Machado de Assis... e sobre os seus próprios versos.
Saí da sala sem olhar para trás, meus passos rápidos ecoando pelo corredor vazio. Meu peito subia e descia. Eu deveria contar para o DG. Deveria dizer que o novo professor era desrespeitoso, que ele precisava de um "corretivo".
Mas, enquanto eu descia a ladeira da escola, sentindo o sol bater no rosto, uma sensação estranha e vibrante começou a crescer dentro de mim. Não era medo. Era... descoberta.
Pela primeira vez na vida, alguém não tinha olhado para o meu irmão. Tinha olhado para mim. E, por mais perigoso que fosse, eu m*l podia esperar para voltar amanhã e descobrir o que mais aquele homem de mãos firmes e palavras afiadas conseguia ler nas minhas entrelinhas.
Ele me viu, e parecia nem ligar para quem era DG e o que ele significava aqui.