Gabriel
O silêncio que se instalou na sala 4-B era pesado, quase tátil. Eu sentia os olhares dos cerca de trinta alunos cravados em mim, como se eu fosse uma espécie exótica em exibição. No fundo da sala, a garota da moto permanecia com o rosto virado para a janela, mas sua postura rígida gritava que ela estava ouvindo cada respiração minha.
— Sou o professor Gabriel — comecei, minha voz projetada com a autoridade que anos de academia me deram. — Vamos estar juntos durante este período letivo. Antes de abrirmos os livros, preciso saber com quem estou falando.
Peguei a caneta e encostei a ponta no papel do diário.
— Alisson... — chamei.
— Euuu! — Um garoto nos fundos levantou a mão, rindo com os amigos.
— Beatriz...
— Aqui.
Fui descendo a lista. A cada nome, eu sentia o campo magnético da sala me puxar para o fundo, para aquela última carteira. Notei que alguns alunos cochichavam e olhavam para ela, depois para mim, como se esperassem uma explosão. Uma garota na segunda fila, que mascava chiclete ruidosamente, me lançou um olhar sugestivo.
— Professor, o senhor é de onde? — ela interrompeu, enrolando uma mecha de cabelo no dedo. — Tem cara de quem nunca pisou numa poça de lama na vida.
A classe riu. Sorri de canto, sem tirar os olhos da lista.
— O endereço de um homem importa menos do que o que ele carrega na cabeça, Letícia. Mas, respondendo sua pergunta, vim de um lugar onde o silêncio é bem mais caro que aqui.
O riso cessou. Eles não entenderam a profundidade da frase, mas sentiram o peso. Voltei aos nomes. Meu coração deu um solavanco quando cheguei à letra M.
— Maya Albuquerque.
O nome saiu da minha boca como uma prece proibida.
Ela não respondeu de imediato. Lentamente, ela virou o rosto. A luz da manhã entrava pela janela, iluminando os fios escuros do seu cabelo e destacando a palidez da sua pele. Aquela fragilidade que eu vira no dia anterior estava lá, mas seus olhos... seus olhos eram duas brasas prontas para queimar quem chegasse perto demais.
— Presente — ela disse. A voz era baixa, mas cortou o ar como uma lâmina.
— Maya — repeti, apenas para sentir o gosto do nome. — Um nome de origem sânscrita. Significa "ilusão" ou "magia".
Um murmúrio correu pela sala. Alguém soltou um "Ih, olha o professor!". Maya estreitou os olhos. Ela não esperava por aquilo. Seus dedos apertaram a borda da carteira, e eu notei o leve tremor que ela tentava esconder. As palavras só escaparm de mim. Eu nem deveria ter dito nada, mas não consegui. Assim como não conseguia tirar os olhos dela.
— Eu prefiro ser a pessoa que você não deve provocar, professor — ela rebateu, com uma arrogância que soava como um escudo de vidro. — Aqui no morro, nomes não significam nada. O que importa é quem você conhece.
— Na minha aula, Maya — dei dois passos em direção ao centro da sala, mantendo o contato visual que ela tentava quebrar — o que importa é o que você pensa. E eu tenho a impressão de que você pensa muito mais do que demonstra.
Ela soltou uma risada seca, mas vi quando ela engoliu em seco.
— Você é mie maluco para alguém que acabou de chegar. Deveria ter mais receio com o que fala. Sabe quem é o irmão dela? — Um garoto alto, sentado perto dela, perguntou com um tom de ameaça velada.
— Eu estou dando aula para a Maya, não para o irmão dela — respondi, sem desviar os olhos dos dela. — A menos que o irmão dela queira aprender sobre Machado de Assis, ele não faz parte dessa conversa.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Maya me encarava com uma mistura de ódio e algo que parecia... admiração assustada. Parecia que ela gostou do que ouviu, mesmo que jamais assumiria.
— Não sei se DG gostaria de ouvir o senhor falando isso — o garoto retrucou.
DG? Então, Maya era irmã do dono do morro? Muita coisa está explicada agora.
— Meu irmão não esta aqui e nem faz parte desta conversa — Maya disse o encarando e vi o garoto baixar a cabeça.
Resolvi seguir com a chamada, ignorando por completo o incomodo que sentia cada vez que meus olhos caiam sobre ela.
— Abram o livro na página dez — ordenei suavemente, voltando para a minha mesa assim que a chamada cavou. — Maya, pode ler? Vamos ver se você é tão boa em interpretar textos quanto é em dar ordens na barreira.
Tá, eu deveria me manter as sombras e não sair dela desafiando a irmã do dono da favela.
Ela abriu o livro com uma força desnecessária, as folhas gemendo sob seus dedos. Durante o resto da aula, eu sentia o olhar dela queimando o meu perfil. Eu estava jogando um jogo perigoso. Eu era um homem com as mãos manchadas de sangue, dando aula para a irmã de um traficante, em um lugar onde a vida valia menos que um par de tênis.
Mas, enquanto eu explicava sobre as ironias de Capitu, a única ironia que me importava era aquela: a garota que todos temiam era a única que parecia estar gritando por socorro em silêncio.
E eu, o assassino disfarçado de mestre, estava ficando perigosamente atento a aquele grito.