Projeto?

928 Words
Gabriel. O ar na salinha estava tão denso que parecia que poderíamos cortá-lo com uma faca. O som da nossa respiração pesada era o único ruído que preenchia o espaço entre as pilhas de livros e mapas empoeirados. Eu sentia o suor esfriar no meu peito, a adrenalina começando a baixar e dando lugar ao Capitão, aquele que sempre precisa estar um passo à frente do perigo. A fastei-me devagar, sentindo o peso de Maya deslizar pelos meus braços até que seus pés tocassem o chão. Meus dedos, ainda trêmulos pela descarga de prazer, foram direto para o rosto dela, limpando uma gota de suor que escorria pela sua têmpora. — Precisamos nos recompor — murmurei, a voz ainda mais grave que o normal. Eu queria mais dela, assumo. Desde a noite no meu barraco, tudo o que eu queria era ter mais de Maya. Mas não posso vacilar e colocá-la mais em perigo do que eu já estou a colocando. A saída de Tico do morro pelo menos ajuda em algo: menos vigilância. Esse moleque já está começando a dar nos nervos e olha que depois do dia que sai da casa de Maya e DG não tevemos mais embate direto. Eu a ajudei a se ajeitar. Por sorte tinha uma camiseta estar na minha mochila, o que foi de importância para poder limpar a nós dois. Esse morro é um infern@ de quente então peguei o abeto de trazer uma camiseta extra comigo. Passei as mãos pelas costas dela, ajeitando a blusa de mangas compridas que eu tinha amarrotado contra a porta. Recuperei a mochila dela do chão e conferi cada detalhe: o cabelo, a gola, o corretivo que eu sabia que ela tinha usado para esconder as marcas de sábado. Só depois de garantir que ela parecia a "irmã do patrão" novamente, é que cuidei de mim, me limpando, fechando o zíper e ajeitando a postura. Maya me olhava com um brilho divertido nos olhos, encostada na mesa, observando minha eficiência quase mecânica. — O que foi? — questionei sorrindo. — Você é muito bom nisso, não é? — ela disse, um sorriso de canto provocando o que restava do meu autocontrole. — No que especificamente? — Puxei-a pela cintura uma última vez, trazendo-a para o meu peito. — Na verdade, em tudo. — sorri — Você sabe como me desarmar e depois, nos ajeita como se não tivesse acontecido nada. Não respondo, apenas sorrio. Nossos lábios se encontraram de novo, mas desta vez foi um beijo lento, possessivo, que dizia tudo o que eu não podia gritar no pátio da escola. — De onde veio aquela ideia do projeto social, Gabriel? — ela perguntou, a voz suave, enquanto descansava a cabeça no meu ombro. — Você foi rápido na frente do Douglas. Soltei um riso baixo, beijando o topo da cabeça dela. — Foi o que consegui pensar na hora para me manter por perto sem que ele mandasse me apagar. Eu precisava de um pretexto legítimo para passar horas com você sem que os vapores ficassem de olho em cada suspiro nosso. Ela se afastou um pouco, me encarando com curiosidade. — E você já tem ideia do que vai fazer de verdade? Porque agora que ele aprovou e me colocou como sua "supervisora", não tem como voltar atrás. Se o projeto não existir, ele vai saber que foi armação. — Eu já tenho o esqueleto de tudo aqui — apontei para a cabeça, soltando-a para começar a organizar a mesa de verdade. — Vai ser um programa de reforço escolar misturado com oficinas de esporte e arte para os menores. Algo que precise de muito planejamento, muitas reuniões de diretoria... e que, claro, levará um tempo considerável para começar a fluir de verdade. Maya riu, entendendo a jogada. — Reuniões intermináveis de planejamento... entendi. Você é perigoso, Professor. — Eu sou um homem determinado, Maya. E se o preço para ter você nessa sala algumas vezes por semana é alfabetizar metade do morro e organizar campeonatos de futebol, eu vou ser o melhor coordenador que essa favela já viu. — Tem um bom plano — ela assume. — Vou anotar tudo o que me passou... — Não... eu já deixei tudo anotado aqui — digo entregando um folha impressa — Passei na coordenação antes e fiz a impressão. Tenho um computador velho em casa, mas que cumpre bem seu papel. A intenção é otimizar o máximo de tempo para que possamos ficar juntos. — Você pensou em tudo mesmo. — Tive bastante tempo esse final de semana — falo a puxando para mim de novo — Enquanto eu pensava em você. Tá, sejamos sinceros. Essa garota já me têm entre os dedos. — Preciso ir agora. Já estamos a algum tempo nessa sala e a primeira reunião seria só para a apresentação do projeto. — Vamos precisar de mais tempo nas outras vezes — digo, apertando com força meus dedos na sua cintura — Sabe, para desenvolver bem o projeto e deixar tudo perfeito — meus lábios já estão próximo ao seu pescoço e depósitos beijos ali. — Estou de acordo — diz rindo e logo se afasta — Preciso ir. Vou levar isso comigo — avisa erguendo as anotações em seus dedos. — Vou mostrar ao Douglas. Ela pegou a mochila, pronta para sair primeiro e garantir que o caminho estivesse livre. O jogo tinha começado, e agora tínhamos a cobertura perfeita. O professor e a patroa tinham um escritório oficial, e o DG tinha acabado de nos dar a chave.
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