Gabriel.
Quando terminei minha taça, percebi que era hora de me retirar. O jogo estava ganho por hoje, mas a sorte é uma amante caprichosa no morro.
— Agradeço o convite, o jantar estava mesmo ótimo. Agora preciso ir. Já está tarde e imagino que todos tenham que descansar. — levantei-me, recolhendo minha pasta. — Nos vemos amanhã na escola para seguirmos com o projeto. De qualquer forma, obrigado por ter me recebido hoje. — digo olhando Maya por alguns segundos, mas logo desviando minha atenção dela.
— Tudo bem — ela da de ombros.
— Tico te leva até a metade do caminho — Douglas avisou, levantando a mão para um dos rádios. — Ele acabou de chegar da missão da serra. Tá de mau humor, mas é o melhor olho que eu tenho.
Meu estômago deu um nó. Tico estava de volta. E se havia alguém naquele morro que podia farejar a mentira no meu hálito, era ele.
Caminhei até a saída sob o olhar atento de Maya. Ao abrir a porta da frente, dei de cara com a figura atarracada e carrancuda do braço direito do DG. Tico estava encostado na caminhonete, os olhos pequenos e injetados de quem não dormia há dias, fixos em mim com um desprezo que nenhuma "hospitalidade" de jantar conseguiria apagar. Me aproximei dele e escutei a porta batendo atrás de nós.
— Então o Professor agora come na mesa do patrão? — Tico cuspiu um rastro de fumo no chão, descendo da caminhonete devagar. — Vamos, "mestre". O caminho é longo e eu não gosto de conversa fiada.
O ar lá fora estava muito mais denso do que o clima controlado da sala de jantar. Tico deu um passo à frente, a luz amarelada do poste da rua refletindo na cicatriz que ele carregava no supercílio. O cheiro de pólvora e suor vindo dele era um lembrete físico de que, enquanto eu jantava com o DG, o trabalho sujo do morro não parava.
— O que foi, Professor? Perdeu a língua na sobremesa? — Tico cuspiu as palavras, encostando-se na lateral da caminhonete com uma mão descansando casualmente perto do coldre. — Acho engraçado... o cara chega ontem, abre uma escolinha e hoje já tá sentado na cabeceira, bebendo o vinho do patrão.
Mantive a pasta de couro firme debaixo do braço. Meus ombros estavam relaxados, mas meu centro de gravidade estava baixo, pronto para uma reação que ele nunca veria chegar.
— É apenas trabalho, Tico — respondi, a voz neutra, desprovida de qualquer emoção ou desafio. — O DG tem pressa com o projeto, e a senhorita Maya é a ponte para que tudo funcione legalmente. Se ele me convida para a mesa, eu aceito por respeito à hierarquia dele. Nada mais.
Tico soltou uma risada curta, seca, sem um pingo de humor. Ele deu um passo para dentro do meu espaço pessoal, invadindo o perímetro de segurança que eu costumo manter. O hálito dele fedia a cigarro barato.
— "Hierarquia", é? Você usa umas palavras bonitas, mestre... mas eu sinto cheiro de malandragem de longe. E o meu nariz nunca falha — ele sibilou, os olhos pequenos e injetados fixos nos meus. — Eu não sei o que você tá tramando, se é x9, se é infiltrado ou se só tá querendo montar no dinheiro do DG. Mas escuta bem o que eu tô te falando...
Ele estendeu o dedo indicador, batendo de leve no meu peito, bem em cima do coração.
— Eu tô de olho em você. Em cada passo, em cada aula, em cada vez que você olhar torto para o lado errado. No primeiro deslize, na primeira vírgula que você colocar fora do lugar... eu pego você. E garanto que não vai ter Professor nem "estudo" que te livre do que eu vou fazer.
Sustentei o olhar dele sem piscar. O Capitão dentro de mim queria quebrar aquele dedo e finalizar o serviço ali mesmo, mas o Professor apenas assentiu com uma sobriedade irritante.
— Compreendido, Tico. Fico feliz que o projeto tenha uma segurança tão atenta. Isso garante que as crianças e a equipe fiquem protegidas de ameaças externas — falei, devolvendo a ameaça com uma cortesia que eu sabia que o deixaria possesso. — Podemos ir? Tenho muitos planos de aula para organizar ainda hoje.
Ele rosnou algo ininteligível, chutou um pneu da caminhonete e abriu a porta do motorista com violência.
— Entra logo nessa p***a antes que eu desista de te levar vivo.
Entrei no veículo sentindo o peso daquela escolta. O trajeto até a metade do morro seria curto, mas o silêncio dentro da cabine seria uma declaração de guerra. O cerco estava fechando: Douglas me queria como conselheiro, Maya me queria na cama, e Tico me queria em um buraco.