Achado

548 Words
Gabriel. O trajeto na caminhonete do Tico foi um exercício de paciência. O silêncio era interrompido apenas pelo chiado do rádio e pelo som metálico do fuzil batendo no console central a cada buraco da estrada. Tico não disse mais nada, mas a energia que emanava dele era de um animal pronto para dar o bote. Quando ele freou bruscamente na entrada da viela que levava à minha kitnet, sequer olhou para o lado. — Desce logo, Professor. Tenta não sonhar muito alto com o vinho do patrão. O tombo aqui de cima costuma ser feio — ele sibilou, acelerando antes mesmo de eu fechar a porta. Caminhei pelas sombras, sentindo o peso da pasta de couro e a adrenalina residual do jantar. O morro estava vivo, o som de funk distante misturado ao latido de cães, mas meus sentidos estavam voltados para outro lugar. Subi a escada de ferro que rangia e parei diante da minha porta de madeira compensada. Antes de tocar na maçaneta, meus olhos baixaram. O fio de cabelo que eu deixava preso entre o batente e a porta, a exatos dez centímetros do chão, não estava lá. Ele tinha caído. Meu corpo entrou em modo de combate instantaneamente. A fadiga do dia desapareceu, substituída por um alerta frio e calculista. Lentamente, levei a mão à base das costas, sentindo o cabo frio da minha 9mm escondida sob o cós da calça. Girei a chave com uma mão, enquanto a outra mantinha a arma pronta. Abri a porta de um só golpe e entrei baixo, varrendo o cômodo escuro com o cano da pistola. Silêncio. A kitnet cheirava a mofo e ao café frio da manhã. Não havia ninguém ali agora, mas o ambiente estava diferente. Fechei a porta e passei a tranca, mantendo as luzes apagadas. Usei a lanterna tática em modo estroboscópico rápido para checar os cantos. Nada fora do lugar à primeira vista, mas um olho treinado não se engana. A gaveta da mesa, onde eu guardava os manuais de pedagogia e alguns mapas do morro, estava fechada, mas o puxador estava um milímetro para a esquerda de onde eu o deixara. Caminhei até a mesa. Em cima do meu caderno de anotações, havia algo que não deveria estar ali. Um pequeno projétil de fuzil 5.56, impecavelmente limpo, brilhando sob o feixe da lanterna. Não era um recado do tráfico. O DG ou o Tico teriam mandado dez homens arrombarem a porta se quisessem me dar um susto. Aquilo era uma assinatura militar. Era uma marca de quem opera nas sombras, de quem conhece a minha linguagem. A milícia do pai da Clara? Ou fantasmas da minha própria unidade que finalmente me rastrearam até esse buraco? Aproximei-me da janela e afastei a cortina apenas o suficiente para olhar a rua. Nada suspeito, apenas o movimento habitual do morro. Mas agora, o santuário tinha sido violado. Sentei-me no chão, encostado na parede lateral à janela, a arma descansando no joelho. Eu não ia pregar o olho. Cada estalo da madeira, cada passo no corredor externo agora era uma ameaça em potencial. Se eles sabiam onde eu morava, sabiam quem eu era. E se sabiam quem eu era, a Maya era o próximo alvo para chegar até mim — ou para me destruir.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD