Gabriel
O sol de sete da manhã já começava a arder nas telhas, mas o frio que eu sentia no estômago era de puro instinto de combate. Eu não dormi. Cada sombra que passava pela minha janela parecia o DG vindo cobrar o preço por eu ter tocado na sua "joia". Eu precisava ver se Maya tinha chegado bem. Precisava saber se a máscara dela tinha caído.
Eu podia estar me jogando de cara no perigo, mas eu não ia me esconder enquanto ela corria o risco sozinha. Maya é só uma garota. E eu? Eu sou o filho da put@ que vai corrompe-la por completo.
Sai de casa porque precisa fazer algo. E principalmente, precisava saber se ela estava be,
Subi a ladeira da mansão com a pasta de couro debaixo do braço. Os vapores no portão me olharam com desconfiança, as mãos nos fuzis, mas eu mantive a coluna ereta e o rosto inexpressivo de quem pertence aos livros, não às armas.
— O DG está? — perguntei a um deles, que apenas cuspiu no chão e apontou para dentro.
— Ele sabe que você ia vir? — o rapaz me perguntou.
— Não. — digo sendo sincero — Mas tenho assuntos para falar com o chefe. — mantive a voz neutra e calma.
Fui guiado até a varanda onde o café estava servido. O cheiro de café fresco e pão na chapa se misturava ao cheiro de poder que emanava daquele lugar. DG estava sentado à cabeceira, relaxado. E ao lado dele, Maya.
Meu coração deu um solavanco que eu reprimi com anos de treinamento. Ela estava de mangas compridas. Calça folgada. O cabelo estrategicamente caído sobre o pescoço. Merda, Maya. Eu sabia exatamente o que ela estava escondendo sob aquele pano.
Eu tinha que ter mantido melhor o meu controle. Agora era ela quem estava lidando com as consequências mesmo que em silêncio.
— Professor? — DG arqueou uma sobrancelha, surpreso pela visita matinal. — A que devo a honra? A escola não abre hoje.
— Peço desculpas pela hora, DG. — disse e percebi que Maya se tencionou e tentou ignorar a minha presença. Mas eu já conhecia aquele corpo e ele era o único que a denunciava.
— Se veio até minha casa é porque precisa de algo — DG me olha com os olhos espremidos. — Senta.
Caminhei sentando-me na cadeira que ele indicou com um aceno.
— Depois da invasão, não consegui tirar uma ideia da cabeça. A escola precisa ser mais do que quatro paredes de aula. Pensei em um projeto de atividades extras para as crianças menores... esportes, leitura, talvez música. Manter os pequenos ocupados e longe do fogo cruzado enquanto os pais trabalham.
Douglas me encarou por um longo tempo. Ele tinha olhos de quem já viu muita traição, mas eu sustentei o olhar com a calma de quem não tem nada a perder — o que era a maior mentira da minha vida. Mas eu era treinado e se tinha alguém que podia passar uma falsa calmaria era eu.
— Atividades extras, é? — Ele pareceu ponderar, um sorriso de canto surgindo. — Gostei da ideia, Professor. Tudo o que possa melhorar a vida dos moradores é bem-vindo. Esse morro é minha casa, e eu cuido da minha casa.
— Fico feliz que concorde — respondi, abrindo a pasta e fingindo ler algumas anotações que eu m*l tinha escrito. — Posso detalhar os custos e o cronograma. Se você preferir, pode até escolher alguém da sua total confiança para acompanhar tudo de perto. Alguém que conheça o ritmo do lugar.
Douglas desviou o olhar para Maya. Eu vi o momento em que a engrenagem na cabeça dele girou.
— Maya — ele disse, a voz cheia de uma autoridade carinhosa. — O que você acha? É uma boa oportunidade de você ficar menos tempo enfiada na boca e fazer algo diferente. Eu sei que, no fundo, você se preocupa com essa comunidade tanto quanto eu.
Maya tentou disfarçar, mas eu vi o brilho de pânico nos olhos dela. Ela pegou a xícara de café com as mãos que eu sabia que estavam trêmulas.
— Ah, DG... não sei. Eu não quero assumir nenhum tipo de trabalho agora. Tenho minhas coisas pra resolver. eu ja ajudo a comunidade da minha forma. Os crias precisam dos meus comandos e não somente dos seus.
— Que coisas, Maya? — Douglas riu, dando um tapinha na mão dela.
— Para de me dar trabalho Douglas — vejo Maya revirar os olhos, e percebo que mais alguém aqui deve ter tido anos de treinamento de disfarce.
— Você vai ajudar o Professor. Vai ser bom pra você. Essa é nova vida. E eu fico tranquilo sabendo que você está de olho no que está sendo feito com o meu dinheiro. E em um lugar seguro.
Olhei para ela, mantendo a fachada de indiferença profissional. Por dentro, eu estava gritando. Agora, eu tinha o pretexto perfeito para estar perto dela todos os dias, com a bênção do próprio irmão. Mas o preço era alto: um erro, uma marca de batom ou um olhar mais demorado, e ambos estaríamos mortos antes do pôr do sol.
— Posso contar com você? Garanto total transparecia em tudo o que fizer. Teram todos os numeros.
— Tudo bem professor.
— Então está decidido — concluí, fechando a pasta. — Vou finalizar os detalhes e entrego tudo a vocês assim que possível.
— Entregue a Maya. Ela conhece essa comunidade tão bem quanto eu e vai saber o que é melhor. Minha irmã tem carta branca para as decisões e todas passam por ela.
Douglas acenou, satisfeito. Eu me levantei, mas antes de sair, meus olhos encontraram os de Maya por um milésimo de segundo. Foi um aviso silencioso: Prepare-se. O jogo agora é dentro de casa.