Confronto

700 Words
Gabriel. A descida da ladeira da mansão nunca pareceu tão leve e, ao mesmo tempo, tão carregada de eletricidade. Eu tinha acabado de dar um xeque-mate no tabuleiro do DG. O plano do projeto social era a cobertura perfeita: o professor zeloso cuidando do futuro da comunidade, enquanto o homem debaixo da pele contava os segundos para ter a irmã do dono entre os braços novamente. Eu sabia do risco. Cada passo dado naquele asfalto irregular era uma aposta com a morte, mas a verdade é que eu assinei meu atestado de óbito no momento em que a tomei para mim naquela kitnet. E eu faria de novo. Não me arrependo. Aquela garota já entrou em mim e agora ela me têm. Eu estava tentando me manter nas sombras, mas a diabinh@ veio para me tirar do eixo e assinar meu atestado de obtido mais cedo. Eu estava quase chegando na primeira curva, onde o caminho se estreita entre os barracos, quando uma sombra se destacou do reboco descascado. Tico. Ele estava encostado em um poste, os braços cruzados e o olhar de quem não tinha dormido esperando por uma presa. Parei, mantendo a pasta de couro firme sob o braço. — Café da manhã com o patrão, Professor? — A voz dele era ácida, carregada de um deboche que eu já conhecia, mas que agora soava como um alarme. — Você é mais liso do que eu pensava. — Projetos para a escola, Tico. O DG se preocupa com as crianças, e eu também — respondi, mantendo a voz no tom neutro que eu usava nos relatórios de campo. Tico deu um passo à frente, invadindo o meu espaço pessoal. Ele era mais baixo que eu, mas magro, mas com uma postura tão ou mais arrogante. Ele portava aquela postura de quem conhece cada palmo daquele chão. — Qual é a real, professor? Um cara como você, com aquele histórico que eu vi... você não está aqui por caridade. Ninguém com o seu treinamento vira "tio da escolinha" por amor à educação. Senti um músculo no meu maxilar travar. Ele não sabia sobre mim e Maya. Se soubesse, eu já estaria com um cano de fuzil na boca. Mas ele estava perto. Perto demais. E algumas informações se clarearam na minha cabeça. Alguém levou minhas informações até ela. Alguém se incumbiu de fazer a pesquisa. — O que você quer, Tico? — perguntei, meus olhos fixos nos dele, deixando um pouco da frieza do Capitão transparecer. — Eu quero que você fique longe da Maya — ele sibilou, e ali a máscara dele caiu. Não era apenas lealdade ao DG. Era posse. Era o ciúme de um homem que via a mulher que amava em segredo gravitando em torno de um estranho. Ouvir o nome dela saindo da boca dele daquela forma fez meu sangue ferver. Uma vontade primitiva de quebrar os dedos dele só por pensar nela me atingiu em cheio. — A Maya é uma mulher adulta. Ela decide com quem fala — rebati, a voz baixando para um tom perigoso. Tico soltou uma risada sem humor e apontou o dedo para o meu peito. — Não brinca comigo. Eu estou de olho em você porque eu sei o que ninguém mais aqui sabe. Eu vi a sua ficha, lembra? Se eu sentir um cheiro de que você está colocando a vida dela em risco, ou que está escondendo algo que possa trazer a polícia ou o exército para o nosso portão... eu mesmo te apago. — Você está perdendo seu tempo com fantasmas, garoto — respondi, passando por ele sem olhar para trás. — O problema dos fantasmas, Professor, é que eles deixam rastro! — ele gritou para minhas costas. — E eu sou ótimo em seguir pegadas. Segui descendo a ladeira, o coração acelerado. Tico era o elo fraco da minha estratégia. Ele não tinha provas de nada, mas tinha o instinto de um homem apaixonado e ferido. Agora, o jogo não era apenas contra o DG e o passado; era uma corrida contra o tempo antes que o ciúme do Tico se transformasse em uma denúncia que nenhum projeto social seria capaz de abafar.
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