Gabriel.
O relógio de pulso sobre a mesa de cabeceira marcava quatro e pouco da manhã. O azul profundo do céu começava a dar lugar a um cinza pálido no horizonte, o sinal silencioso de que a bolha de segurança da kitnet estava prestes a estourar.
Eu sentia o peso de Maya no meu braço, a pele dela ainda quente contra a minha, mas o instinto de sobrevivência falou mais alto.
— Maya... — sussurrei, depositando um beijo na têmpora dela. — Você precisa ir antes que a luz do dia surja.
Ela soltou um resmungo baixo, apertando o rosto contra o meu peito por mais alguns segundos, relutante em deixar o único lugar onde podia ser ela mesma. Mas, como a mulher forte que era, logo se sentou na cama, passando as mãos pelo rosto para espantar o sono.
— Você tinha razão aquela noite. Eu também odeio essa parte — ela admitiu, a voz rouca. — Odeio ter que sair escondida como se o que a gente viveu aqui fosse um erro.
— Não é um erro, é estratégia — respondi, levantando-me e começando a recolher as roupas dela espalhadas pelo chão. — O Douglas pode chegar a qualquer momento da noite dele, por mais que ele tenha dito que não voltaria para o café, a real é que não sabemos, e o Tico se bobear está a caminho do morro. Não quero que você tenha problemas. Não posso deixar que nada atrapalhe você ou te coloque em perigo.
Ajudei-a a se vestir com uma calma metódica. Abotoei o cardigã dela, garantindo que a gola estivesse alta o suficiente, e conferi as marcas nos pulsos. Estavam leves, mas ainda visíveis.
— Maquiagem assim que chegar em casa, Maya. Não vacila — instruí, segurando o rosto dela entre as mãos.
— Eu sei, Capitão. Eu sei o protocolo — ela sorriu de canto, tentando aliviar a tensão que já voltava a tomar conta do meu corpo.
Caminhamos até a porta. Abri apenas uma fresta, observando o movimento da viela. O morro estava naquele silêncio tenso de troca de turno; os vapores da noite estavam cansados e os do dia ainda não tinham assumido totalmente. Era o momento perfeito.
— Vai — ordenei baixo. — Não corre, anda como se estivesse apenas sem sono e tivesse ido buscar um ar. Se alguém te vir, você é a dona do lugar, lembra?
Maya me puxou para um último beijo rápido, mas carregado de uma promessa que me deixou arrepiado.
— Até a "reunião de planejamento" na escola, Professor.
Assisti a sombra dela se misturar à escuridão dos becos até sumir de vista. Fechei a porta e encostei a cabeça na madeira, o cheiro dela ainda impregnado na minha pele e nos meus lençóis. O dia estava começando, e com ele, a máscara voltaria a ser usada. Mas, por dentro, eu ainda sentia o calor do corpo dela amarrado ao meu, e essa era a única coisa que me dava forças para encarar o resto do mundo.