Algumas descobertas

638 Words
Gabriel. Entrar naquela mansão antes de receber uma autorização formal foi um risco calculado, mas a alternativa — ficar na escola imaginando se o DG ou o Tico tinham descoberto algo sobre a nossa noite — era insuportável. Não tinha como pensar de forma diferente. Fui atropelado por tantos pensamentos essa manhã que quase fiz uma loucura largando tudo na escola e vindo até antes. Eu precisava saber o que tinha acontecido e principalmente se ela estava bem. Me manter nas sombras se tornou uma arma para protegê-la, mas jamais ficaria escondido caso problemas surgissem. Meus olhos fizeram o escaneamento tático de praxe: saídas, pontos cegos, ameaças. Quando foquei em Maya, senti um peso saindo dos meus ombros. Ela estava inteira. A postura estava um pouco rígida, mas não era medo; era a tensão de quem equilibra pratos perigosos. Contudo, quando meu olhar derivou para a garota ao lado dela, algo em mim estalou. Clara. O nome não me dizia nada de imediato, mas as feições dela... havia uma simetria, um modo de carregar os ombros, uma aura de "vidro quebrado" que eu já tinha visto em dezenas de filhas de oficiais de alta patente. Ela tinha cara de passado. Cara de quem cresceu em vilas militares ou clubes de oficiais. Meus instintos de inteligência apitaram, mas mantive a máscara de professor impassível. — Com licença... eu vou me deitar um pouco. A gente se fala mais tarde, Maya — a garota murmurou, fugindo do meu escrutínio como se eu pudesse ler a alma dela. E eu quase podia. — Descansa, Clara. — Maya diz tranquila — Aproveita e tenta dormir um pouco. Assim que ela sumiu no andar de cima, Maya relaxou os ombros, mas o olhar continuava alerta. — Aceita uma água, Professor? — ela perguntou, a voz carregada de uma formalidade que escondia o desejo de me puxar para um canto e me contar tudo. — Aceito. Se não te atrapalhar, precisamos alinhar esses prazos, então, se puder uns minutos do seu tempo — respondi, seguindo-a até a cozinha. — Tudo bem — responde. Assim que cruzamos o arco e garantimos que estávamos fora do alcance de ouvidos curiosos, a fachada caiu. Maya se aproximou, a voz baixinha, rápida, despejando a informação como quem tira um fardo das costas. Ela me deu as informações de forma rápida, avisando que não tinha como passar todos os detalhes agora: a garota era uma protegida do Douglas, vinda do asfalto, fugindo de uma enrascada que envolvia o pai dela e gente pesada. — Eu não tive como te avisar. Foi tudo uma loucura nessa madrugada — ela disse, os olhos castanhos fixos nos meus, transbordando uma preocupação que me atingiu em cheio. — Estou assustada pelo que aconteceu com ela, mas estou mais preocupada com você. Tenho medo que essa história respingue aqui dentro... que respingue em você. Senti uma descarga de adrenalina gelada. Se a garota estava fugindo de milícia ou de queima de arquivo militar, o morro não era mais um refúgio, era um alvo. E eu, com meu rosto registrado nos arquivos do Exército, era o elo mais fraco e, ao mesmo tempo, o mais perigoso daquela corrente. — Quem é o pai dela, Maya? — perguntei, segurando o copo de água com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos. — Você disse que ele é do "meio". Qual o sobrenome dessa menina? Eu precisava saber se o fantasma que acabara de subir as escadas tinha um nome que eu conhecia das listas de chamada ou dos tribunais militares. Se a guerra estava batendo na porta da mansão, eu precisava decidir se ia lutar como professor ou se o Capitão teria que assumir o comando de vez para proteger a única coisa que importava naquele labirinto: a mulher parada na minha frente.
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