Gabriel.
— Eu ainda não consegui o sobrenome, mas vou descobrir. Clara tem se abrido comigo. Ela parece ser uma boa garota. Só te peço uma coisa, Gabriel: toma cuidado. Tenho certeza de que há muita gente está de olho nessa garota agora — Maya murmurou, a voz carregada de uma urgência que me deu um nó no estômago. — Podem ainda não saber que ela está escondida no morro, mas nunca sabemos quando tudo pode mudar.
Eu assenti, mas não estava pronto para ir embora. O cheiro da cozinha, a proximidade dela e o perigo iminente me faziam querer ficar, mesmo que fosse apenas para garantir que a porta estava trancada.
— Já que estou aqui, vamos adiantar os formulários de inscrição das oficinas — falei, num tom de voz mais alto, o "Professor" assumindo o controle novamente. — Se alguém entrar, estamos trabalhando.
— Tá bom — concordou e vi em seu rosto que ainda estava perdida.
Puxei a cadeira e me sentei à mesa, abrindo a pasta e espalhando papéis que, honestamente, eu m*l enxergava. Maya sentou-se à minha frente, os olhos brilhando com uma mistura de cansaço e aquela cumplicidade que tínhamos selado na noite anterior. O clima se tranquilizou por alguns minutos, o som do papel sendo manuseado criando uma bolha de falsa normalidade.
— Já estou com saudades de ontem — ela confessou, a voz num fio, quase imperceptível. — Só queria me jogar em cima de você.
— Amanhã, na escola — respondi, sem tirar os olhos do papel, mantendo o rosto impassível. — E não inventa de sair hoje à noite. Se o DG já ficou desconfiado de algo, ele vai fazer marcação em cima de você. Mesmo estando ocupado com a garota, ele ainda vai encontrar uma forma de te vigiar dobrado. Temos que deixar a poeira abaixar.
— Isso é muito injusto sabia?
— O que?
— Ele poder sair com bem entender e eu não poder pôs os pés para fora de casa sem levar uma bronca. Clara tem um alvo nas cotas e ainda assim ele a trouxe para cá. E eu não estou falando isso pelo fato dele a estar ajudando, pelo contrario, fico feliz que meu irmão tenha a ajudado. Ela parece mesmo ser uma boa pessoa. Mas eu sei a confusão que ele vai armar se descobrir que estou fazendo o mesmo.
— Maya...
— Vamos ver esses papéis. É o melhor que podemos por enquanto.
Passamos as próximas horas conversando e organizando documentos que seriam fundamentais ao projeto. Vez ou outra meus dedos tocavam os dela por cima da mesa e peguei sorrindo uma ou duas vezes. Precisei segurar a vontade de puxa-la para meu colo quando ela se levantou e foi até a geladeira pegar uma garrafa de suco.
Eu estava prestes a recolher o material quando o som da porta da frente batendo contra o batente ecoou pela casa. Passos pesados e decididos cortaram a sala.
— Professor? Me disseram que tinha subido até a minha casa. Ainda por aqui?
Douglas entrou na cozinha. Ele ainda vestia a roupa da rua, o semblante carregado de quem tinha passado as últimas horas lidando com problemas que o dinheiro não resolvia fácil.
Mantive a calma absoluta, a coluna ereta, agradecendo mentalmente por estar sentado a uma distância profissional de Maya. Minhas mãos estavam sobre os documentos, firmes, sem o menor traço de hesitação.
— Finalizando o cronograma das oficinas, DG, e aproveitamos os tempo para preencher alguns formulários — respondi, levantando-me devagar e fechando a pasta. — Como a senhorita Maya não pôde comparecer à escola hoje, achei melhor trazer as atualizações pessoalmente para não atrasarmos o início das aulas.
Olhei para o Douglas, sustentando o olhar dele. Ele me analisou de cima a baixo, o instinto de dono do morro lutando contra a exaustão. Por um segundo, o silêncio na cozinha foi denso o suficiente para faltar o ar, e eu soube que, a partir daquele momento, cada visita minha àquela casa seria um jogo de xadrez com a morte.