Maya
A tarde avançava com uma calmaria enganosa. Clara parecia um pouco mais centrada depois que consegui convencê-la a comer uma sopa leve e tomar um suco. As roupas que dei a ela lhe caíram bem. Por sorte temos praticamente o mesmo tamanho e desconfio até que idades parecidas.
— Obrigada por me fazer me sentir melhor. — Clara diz ao meu lado.
— Não precisa agradecer. —sorrio —Onde conheceu meu irmão?
— No afasto. Estava saindo de uma festa quando o vi. Ele estava com uma outra garota — ela diz revirando os olhos.
— Jura? — levanto as sobrancelhas, curiosa.
— Ele chamou minha atenção, mas ignorei. Nunca gostei de confusão e não ia me meter com homem que tem namorada.
— Mas e ai?
— Estava me despendido de umas amigas no final da festa. Tinha me obrigado a parar de olhar para ele, então —ela diz dando de ombros — Não estava esperando quando ele se aproximou.
— Nossa.
— Na hora disse que não estava disponível e tentei sair de fininho, mas ele me seguiu até o lado de fora da festa.
— Mas e a garota?
— Ele disse que tinha a conhecido na festa também, mas depois que me viu havia dispensado ela. Não acreditei muito na hora, mas o que posso fazer.
— Sairão naquela noite?
— Foi só beijos, mas... bom... depois... nos vimos outras vezes e acabamos ficando juntos.
— Fofos vocês.
Clara sorri e vejo ficar vermelha de vergonha. Sei que meu irmão não é nada fofo.
— Quantos anos você tem?
— Dezenove.
— É nova assim como eu. Fiz dezoito não tem muito tempo.
— E você? Tem alguém? — Clara questiona e eu sinto a saliva enroscar para descer pela garganta.
Não tive tempo de responder. Estávamos na sala, o rádio da cozinha chiando baixo com as comunicações da boca, quando um dos meninos da contenção bateu na porta, sem entrar, mantendo a voz alta o suficiente para eu ouvir.
— Patria? Tem um sujeito aí fora querendo falar com a senhora. Disse que é o Professor da escola.
Meu estômago deu um solavanco. O sangue subiu para o meu rosto e desceu logo em seguida, me deixando fria. Olhei para o relógio: passava da hora do almoço. Eu tinha faltado à reunião e à aula sem dar uma explicação oficial, e Gabriel, com aquele instinto de proteção possessiva disfarçado de dever, tinha subido até a toca do leão para me buscar.
Depois da nossa noite ontem, ele deve ter ficado maluco por eu não aparecido. Certeza que achou que algo tivesse acontecido.
— Eu... eu acho melhor eu subir — Clara disse, percebendo minha tensão súbita. Ela se levantou, ajeitando as roupas. — Não quero atrapalhar suas visitas.
— Não, Clara, espera... — comecei a dizer, mas não tive tempo de terminar.
A porta da frente não esperou por autorização. Gabriel entrou com a autoridade de quem não pede licença para invadir perímetros. Ele vestia a mesma camisa polo escura de mais cedo, a pasta de couro debaixo do braço, mas o olhar dele não era o de um educador. Era o olhar do Capitão em reconhecimento de terreno.
Seus olhos varreram a sala de estar com uma rapidez cirúrgica, mapeando as saídas, as sombras e, finalmente, pararam em mim. Vi o momento exato em que a mandíbula dele relaxou um milímetro ao constatar que eu estava inteira. A expressão dura e impaciente que ele trouxe da rua suavizou-se em algo que só eu sabia ler: alívio puro.
— Senhorita Albuquerque — ele disse, a voz profunda ecoando no pé direito alto da sala. — Desculpa vi até, mas como apareceu — fala calmo — E nem mandou notícias, achei prudente vir conferir se houve algum imprevisto com a documentação que deixei com você. Tem alguns fornecedores que estão esperando resposta. Não queria atrapalhar, mas precisa vir.
Ele deu dois passos para dentro, mas parou abruptamente. O olhar dele, antes focado em mim, desviou-se para o lado, encontrando a figura pálida e assustada de Clara.
O silêncio que se instalou na sala foi ensurdecedor. Senti um arrepio na espinha quando vi os olhos de Gabriel se estreitarem ao analisar a garota. Ele não estava apenas vendo uma hóspede; ele estava processando uma informação que eu ainda não sabia se ele já possuía.
— Gabriel... — minha voz saiu quase em um sussurro. — Essa é a Clara. Uma... amiga da família que vai passar uns dias conosco.
Clara fez um aceno tímido, mas Gabriel continuou estático por dois segundos longos demais, a expressão voltando a ficar indecifrável, como se estivesse diante de um fantasma do seu próprio passado.