Chegada

786 Words
Maya A tarde avançava com uma calmaria enganosa. Clara parecia um pouco mais centrada depois que consegui convencê-la a comer uma sopa leve e tomar um suco. As roupas que dei a ela lhe caíram bem. Por sorte temos praticamente o mesmo tamanho e desconfio até que idades parecidas. — Obrigada por me fazer me sentir melhor. — Clara diz ao meu lado. — Não precisa agradecer. —sorrio —Onde conheceu meu irmão? — No afasto. Estava saindo de uma festa quando o vi. Ele estava com uma outra garota — ela diz revirando os olhos. — Jura? — levanto as sobrancelhas, curiosa. — Ele chamou minha atenção, mas ignorei. Nunca gostei de confusão e não ia me meter com homem que tem namorada. — Mas e ai? — Estava me despendido de umas amigas no final da festa. Tinha me obrigado a parar de olhar para ele, então —ela diz dando de ombros — Não estava esperando quando ele se aproximou. — Nossa. — Na hora disse que não estava disponível e tentei sair de fininho, mas ele me seguiu até o lado de fora da festa. — Mas e a garota? — Ele disse que tinha a conhecido na festa também, mas depois que me viu havia dispensado ela. Não acreditei muito na hora, mas o que posso fazer. — Sairão naquela noite? — Foi só beijos, mas... bom... depois... nos vimos outras vezes e acabamos ficando juntos. — Fofos vocês. Clara sorri e vejo ficar vermelha de vergonha. Sei que meu irmão não é nada fofo. — Quantos anos você tem? — Dezenove. — É nova assim como eu. Fiz dezoito não tem muito tempo. — E você? Tem alguém? — Clara questiona e eu sinto a saliva enroscar para descer pela garganta. Não tive tempo de responder. Estávamos na sala, o rádio da cozinha chiando baixo com as comunicações da boca, quando um dos meninos da contenção bateu na porta, sem entrar, mantendo a voz alta o suficiente para eu ouvir. — Patria? Tem um sujeito aí fora querendo falar com a senhora. Disse que é o Professor da escola. Meu estômago deu um solavanco. O sangue subiu para o meu rosto e desceu logo em seguida, me deixando fria. Olhei para o relógio: passava da hora do almoço. Eu tinha faltado à reunião e à aula sem dar uma explicação oficial, e Gabriel, com aquele instinto de proteção possessiva disfarçado de dever, tinha subido até a toca do leão para me buscar. Depois da nossa noite ontem, ele deve ter ficado maluco por eu não aparecido. Certeza que achou que algo tivesse acontecido. — Eu... eu acho melhor eu subir — Clara disse, percebendo minha tensão súbita. Ela se levantou, ajeitando as roupas. — Não quero atrapalhar suas visitas. — Não, Clara, espera... — comecei a dizer, mas não tive tempo de terminar. A porta da frente não esperou por autorização. Gabriel entrou com a autoridade de quem não pede licença para invadir perímetros. Ele vestia a mesma camisa polo escura de mais cedo, a pasta de couro debaixo do braço, mas o olhar dele não era o de um educador. Era o olhar do Capitão em reconhecimento de terreno. Seus olhos varreram a sala de estar com uma rapidez cirúrgica, mapeando as saídas, as sombras e, finalmente, pararam em mim. Vi o momento exato em que a mandíbula dele relaxou um milímetro ao constatar que eu estava inteira. A expressão dura e impaciente que ele trouxe da rua suavizou-se em algo que só eu sabia ler: alívio puro. — Senhorita Albuquerque — ele disse, a voz profunda ecoando no pé direito alto da sala. — Desculpa vi até, mas como apareceu — fala calmo — E nem mandou notícias, achei prudente vir conferir se houve algum imprevisto com a documentação que deixei com você. Tem alguns fornecedores que estão esperando resposta. Não queria atrapalhar, mas precisa vir. Ele deu dois passos para dentro, mas parou abruptamente. O olhar dele, antes focado em mim, desviou-se para o lado, encontrando a figura pálida e assustada de Clara. O silêncio que se instalou na sala foi ensurdecedor. Senti um arrepio na espinha quando vi os olhos de Gabriel se estreitarem ao analisar a garota. Ele não estava apenas vendo uma hóspede; ele estava processando uma informação que eu ainda não sabia se ele já possuía. — Gabriel... — minha voz saiu quase em um sussurro. — Essa é a Clara. Uma... amiga da família que vai passar uns dias conosco. Clara fez um aceno tímido, mas Gabriel continuou estático por dois segundos longos demais, a expressão voltando a ficar indecifrável, como se estivesse diante de um fantasma do seu próprio passado.
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