Maya
O final de semana tinha sido uma tortura de silêncio e janelas fechadas. Eu sentia o peso do olhar de Tico em cada esquina do morro, uma sombra persistente que me obrigava a ser a "irmã perfeita" enquanto minha pele ainda gritava pelas mãos de Gabriel.
Mas se Tico acha que vou dar bandeira, está muito enganado. eu nasci e sei jogar o jogo. Ele pode passar sinais claros que esta de olho em mim, mas dei outros de que não estou nem ai para o que ele acha qu eeu estou fazendo.
Mas a sorte, ou o destino, resolveu jogar a meu favor naquela segunda-feira.
— Tico, você leva o n***o e o Alemão para escoltar a carga que está descendo pela Brasil — a voz de Douglas ecoou no corredor enquanto eu terminava de me arrumar. — Quero marcação nessa carga. Não tira o olho.
— Chefe, não dá pra mandar o Beto? Eu queria ficar por aqui hoje, dar uma geral na segurança da escola... — Tico tentou, a voz carregada daquela desconfiança que vinha me sufocando.
— O Beto não tem o seu braço, Tico. É carga pesada, investimento alto. Você vai e volta só amanhã. Sem conversa.
— Chefe...
— qual foi Tico? Deu para me contrariar agora? Sabe que confio no seu serviço e eu quero pessoas de confianças tomando conta desse carregamento. Você é meus olhos lá. E se alguma coisa sair de errado, vou cobrar de você.
— Desculpa, chefe. Pode deixar.
Um sorriso involuntário brotou nos meus lábios diante do espelho. Pelo menos por vinte e quatro horas, o cão de guarda estaria longe.
A manhã passou arrastada, cada minuto parecendo uma hora. Quando finalmente caminhei em direção à sala de aula, meu coração parecia um tambor. Entrei tentando manter a postura, a bolsa no ombro e o rosto neutro, mas meus olhos buscaram os dele no segundo em que cruzei o batente.
Gabriel já estava lá. De pé, o giz riscando o quadro com uma precisão quase militar. Ele usava uma camisa polo escura que marcava os ombros, e o cabelo estava perfeitamente penteado, a imagem exata do professor dedicado.
— Atrasada, senhorita Albuquerque — ele disse sem sequer se virar, o tom de voz seco, profissional, desprovido de qualquer calor.
— O sinal acabou de bater, professor. Não exagere — respondi, sentando-me na minha mesa habitual, soltando uma farpa só para manter as aparências diante dos outros alunos que entravam.
— Pontualidade é uma virtude que parece não constar no seu currículo — ele retrucou, finalmente virando-se, mas seu olhar passou por mim como se eu fosse apenas mais uma peça na mobília da sala.
— Tem outras coisas mais importantes do meu currículo — disse atrevida e a sala rio.
A aula começou e, por mais que eu soubesse que precisávamos desse teatro, a indiferença dele começou a me incomodar. Ele explicava sobre as revoluções industriais com uma frieza cortante, circulando pela sala sem nunca parar perto da minha mesa, sem nunca deixar um toque acidental ou um olhar prolongado.
Ele está fazendo o papel dele, eu repetia mentalmente. Ele sabe que estamos sob vigilância, mesmo que o Tico não esteja aqui. Mas, conforme os minutos passavam, aquela distância começou a queimar. Eu olhava para as mãos dele — as mesmas mãos que tinham me segurado com tanta força — e tentava encontrar qualquer rastro do homem que me chamou de "minha" na escuridão da kitnet.
Gabriel era um mestre do disfarce. O Capitão sabia como esconder o jogo, mas eu, que ainda sentia o corpo dolorido sob a roupa, estava começando a odiar o quão bem ele conseguia fingir que eu não significava absolutamente nada além de uma aluna petulante.
O sinal para o intervalo bateu, e a sala começou a esvaziar. Gabriel continuou concentrado em organizar seus papéis, de costas para mim, a postura rígida como uma estátua de gelo.