Maya
O clima na escada mudou instantaneamente. O ar fraterno e descontraído do jantar de ontem tinha sido substituído pela frieza do dono do morro. Douglas parou no degrau, a mão ainda no corrimão, e me fixou com aquele olhar que fazia os soldados dele tremerem. Eu até tremeria, mas isso entregaria a mentira, então precisa me manter firme e posturada.
— Me responde, Maya. Por que você está montada desse jeito se acabou de levantar para tomar um suco? — Ele desceu um degrau, a voz baixando para aquele tom perigoso. — O que está me escondendo?
— Nada — falo firme — Já disse...
— Você saiu? Onde você estava? Porque ninguém me avisou disso? — pergunta ja put@.
— Douglas, pelo amor de Deus... — tentei rir, mas minha garganta estava seca. — Você está paranoico.
— Paranoico? — Ele soltou o braço de Clara, que até então seguia os passos do meu irmão enquanto subia e descia a escada logo em seguida, e então caminhou na minha direção. — Eu conheço você. Essa roupa, esse perfume... você não acordou agora. Você estava na rua. Onde você foi? Com quem você estava? Começa a falar, antes que eu saia daqui e de um corretivo nos moleques que estavam fazendo a segurança.
O pânico começou a subir, mas eu canalizei a audácia que o Gabriel tinha despertado em mim na kitnet. Cruzei os braços, escondendo os pulsos sob o cardigã, e sustentei o olhar dele.
— Eu não estava com ninguém, Douglas! Eu saí para respirar. Fui até o mirante da quadra três. Satisfeito? — menti com uma convicção que me surpreendeu. — Eu não conseguia dormir. Fiquei pensando no peso que você me deu com esse projeto da escola, pensando na responsabilidade... e sim, eu me vesti porque não vou sair de pijama no meio dos seus homens. embora, eu assumo que tenha dado um jeito de sair sozinha. Não queria ninguém atrás de mim. Estava sufocada aqui dentro. Você quer o quê? Que eu peça autorização para ver o nascer do sol agora?
— Maya — a voz firme perde um pouco de força.
— Até onde eu sei não sou uma prisioneira dentro dessa casa. Esse morro também é meu. Não é isso que você vive dizendo?
Douglas estreitou os olhos, a centímetros do meu rosto. Ele farejou o ar, buscando o cheiro de outro homem, mas o perfume forte que eu tinha passado antes de sair da kitnet parecia estar cumprindo o seu papel.
— Se eu descobrir que você está se encontrando com algum desses moleques da contenção pelas minhas costas... — ele começou, o dedo apontado para mim.
— Ah, poupe-me, Douglas! — cortei, fingindo uma indignação legítima e batendo em seu dedo apontado da minh acara. — Você chega em casa com uma garota que ninguém nunca viu, fugindo de "problemas" que você nem explica, e quer me dar sermão porque eu fui dar uma volta para clarear a cabeça? Olha para você! Que moral tem para desconfiar de mim, quando é você quem sai, se diverte e ainda trás o problema para casa.
Ele abriu a boca para retrucar, a veia da testa saltada, mas um som interrompeu o confronto.
Um soluço baixo e engasgado veio do pé da escada.
Clara tinha desmoronado. Ela estava sentada no primeiro degrau, com o rosto escondido nas mãos, os ombros sacudindo violentamente. O pânico dela era tão tangível que o clima de guerra entre eu e meu irmão evaporou no mesmo segundo.
Douglas parou o interrogatório no meio. A raiva no rosto dele foi substituída por uma preocupação imediata e quase protetora. Ele esqueceu de mim e correu até ela.
— Clara... ei, olha para mim — ele disse, a voz subitamente doce, ajoelhando-se na frente dela. — Você está segura aqui. Ninguém vai te tocar.
Eu observei a cena, o coração ainda martelando no peito. O "problema" que o Douglas mencionou devia ser algo pesado para deixar uma garota naquele estado. Eu tinha conseguido escapar por um triz, mas a chegada de Clara mudaria tudo na dinâmica daquela casa.
— Leva ela para o quarto, Douglas — eu disse, recuperando o fôlego e tentando soar prestativa para encerrar qualquer suspeita. — Eu vou pegar um copo de água com açúcar e um calmante para ela.
Ele apenas assentiu, levantando a garota nos braços como se ela fosse feita de vidro. Eu segui para a cozinha, sentindo minhas pernas fraquejarem. Eu estava salva por agora, mas o cerco estava fechando. Tinha uma testemunha nova na casa, um irmão desconfiado e um Capitão me esperando na escola em poucas horas.