Proteção

554 Words
Maya. O trajeto até a mansão foi marcado por um silêncio pesado, quebrado apenas pelo ronco do motor da caminhonete. Tico mantinha os olhos na estrada, mas a tensão nos ombros dele entregava que a presença de Gabriel na escola ainda o incomodava profundamente. — Você não precisava ter ido me buscar, Tico. Eu sei o caminho de casa — comecei, mantendo a voz firme, sem esconder a irritação. — Ordens do teu irmão, Maya. O morro não tá pra brincadeira hoje — ele respondeu, sem desviar o olhar do para-brisa. — Algum problema em vista? — A sempre problemas aqui. Suspiro sabendo que não vou conseguir tirar muitas informações dele, ainda assim, não como da forma como me trata. — Não é só o Douglas, e nós dois sabemos disso. Você não está só cumprindo ordens, Tico. Você quer me vigiar. Acha que eu não percebo como você olha para o Professor? Como você me cerca? Sabe que nunca gostei de guarda-costas na minha cola. Tico apertou o volante com mais força, os nós dos dedos ficando brancos. Ele soltou um suspiro pesado e, por um momento, a máscara de soldado do tráfico pareceu trincar. — Eu me preocupo com você, Maya. Só isso. Quero garantir que você fique bem, que nada nem ninguém chegue perto de você com segundas intenções. O mundo lá fora é sujo, e esse cara... ele não cheira bem. Você sabe disso. — Eu estou bem, Tico. De verdade. Eu agradeço a preocupação, mas não preciso de toda essa proteção sufocante. Eu sei me cuidar. Percebi o ombro dele relaxar um pouco. A agressividade deu lugar a algo mais antigo, uma conexão que vinha da época em que éramos apenas crianças correndo pelas mesmas vielas, muito antes do fuzil e do poder mudarem as regras do jogo. — Eu sei que você é brava, pequena — ele disse, usando um apelido que não usava há anos, com a voz subitamente baixa. — Mas eu me preocupo porque a gente é amigo desde sempre. Desde que o Douglas não era nada, eu já tava lá cuidando de você. Não quero ver você se perdendo por causa de quem não vale o chão que pisa. Aquelas palavras me atingiram. Por trás da brutalidade do Tico, ainda existia o menino que me defendia na infância. Senti minha própria guarda baixar. — Eu sei, Tico. E eu te agradeço por isso. De verdade — respondi, tocando de leve no braço dele. — Vou maneirar. Só toma cuidado. — Eu sempre tomo — digo rindo. Me despeço dele e desço antes seguindo para abrir o portão da mansão. Ele apenas assentiu, um gesto curto de cabeça. Assim que a porta principal se fechou atrás de mim, o sentimento de gratidão foi substituído pela urgência. Eu precisava de informações. O Tico podia até estar me protegendo, mas ele também era o obstáculo entre mim e o Gabriel. Subi as escadas direto para o meu quarto, mas parei diante da porta do quarto de hóspedes. O silêncio na casa era absoluto, o que significava que o Douglas provavelmente estava na boca. Era a minha chance. Eu precisava saber o sobrenome da Clara, precisava saber quem era esse Coronel e por que um projétil de fuzil tinha ido parar na mesa do homem que eu amava.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD