Maya
Bati levemente na porta e entrei sem esperar muito. O quarto de hóspedes estava mergulhado em uma luz alaranjada de fim de tarde. Clara estava sentada na cama, com as costas apoiadas na cabeceira e o olhar perdido na janela. Ela parecia mais calma, mas a palidez ainda denunciava o trauma da noite anterior.
— Oi... — ela murmurou, forçando um sorriso pequeno. — Estava aqui deitada, tentando fazer o tempo passar. O Douglas deixou bem claro que eu não posso colocar os pés para fora desta mansão. É uma prisão dourada, eu sei, mas ainda parece uma prisão.
Aproximei-me e me sentei na beira da cama. Começamos a conversar sobre coisas banais — as roupas enormes do meu irmão que ela estava usando, o silêncio estranho da casa, e até algumas histórias engraçadas da minha infância com o Douglas. Entre uma risada e outra, o clima pesou menos, e eu senti que ela estava finalmente baixando a guarda comigo.
— Sabe, Clara... — comecei, mudando o tom de voz para algo mais suave, quase casual. — Se eu vou te ajudar a esconder esse alvo nas suas costas, eu preciso saber exatamente com quem estamos lidando. O Douglas me contou do seu pai, mas ele não me disse o nome completo. Qual o seu sobrenome?
Ela hesitou por um segundo, os dedos brincando com a barra do lençol. Depois, soltou um suspiro longo.
— Clara Menezes de Oliveira — respondeu, a voz quase sumindo.
Menezes de Oliveira. O nome ecoou na minha mente. Eu precisava guardar aquilo para o Gabriel. Mas, antes que eu pudesse processar a informação, Clara segurou a minha mão. A pele dela estava gelada.
— Maya, eu estou com tanto medo — ela confessou, e vi as lágrimas começarem a brotar. — Eu não sei o que fazer. Meu pai sempre foi minha base, e agora... ele está preso e eu estou aqui, escondida em um morro. Eu sinto que, a qualquer momento, eles vão descobrir que estou aqui. Tenho medo por mim, pelo Douglas que se arriscou tanto... e tenho medo por você e por todo mundo nesta casa. Eu trouxe a guerra para o seu quintal.
Senti um aperto no peito. O medo dela era legítimo e, agora que eu sabia que o perigo já tinha chegado até a mesa do Gabriel, o pânico dela se tornou o meu. Eu a abracei, sentindo-a tremer, enquanto minha mente trabalhava a mil por hora.
O sobrenome agora tinha um rosto e uma história. Eu precisava sair dali e, de alguma forma, fazer essa informação chegar ao Gabriel antes que a noite caísse totalmente sobre o morro.