Proteger.

663 Words
Maya A conversa sobre o passado de Clara tinha deixado o ar do quarto pesado. Ver o olhar de desespero dela me deixava com o coração apertado. A chamei para ir comigo até a sala. Eu precisava avisar o Gabriel, mas não tinha como sair agora. Tínhamos acabo de acomodar no sofá e estava pensando em assistir ao um filmes quando a porta da frente abriu com um estrondo controlado, e Douglas entrou, trazendo consigo o cheiro de asfalto quente e pólvora. Ele não trazia a postura habitual de dono do morro; seus ombros estavam tensos, as mãos, sujas de terra e óleo, roçavam o coldre com uma inquietação que eu nunca tinha visto nele. — Maya? — ele chamou, a voz rouca, e olhos divagando. Ele nem sequer nos cumprimentar. — Aqui. O que houve? — levantei-me, o coração batendo rápido demais. Ele jogou o rádio sobre a mesa de centro, o aparelho emitindo chiados estáticos que ele ignorou. — Não está normal lá embaixo — ele começou, andando de um lado para o outro. — Tem uma movimentação estranha na base do morro. Carros descaracterizados, gente que não é da contenção, nem da polícia comum. Estão cercando o perímetro como se estivessem caçando um alvo. Essa movimentação toda não pe boa. Clara se levantou, as mãos cobrindo a boca. O pavor era nítido em cada traço do rosto dela. — Eles estão aqui... eles me acharam — ela sussurrou, as pernas vacilando. Douglas parou imediatamente. O foco dele, que antes estava no problema tático, convergiu inteiramente para ela. Ele atravessou a sala em dois passos, encurtando a distância. Eu esperava que ele fosse dar uma ordem, pedir que ela se escondesse no porão ou algo do tipo, mas ele fez algo que me paralisou. Ele segurou o rosto de Clara entre as mãos, com uma delicadeza que poucas vezes tinha visto. Ele a puxou para um abraço firme, protetor, enterrando o rosto no pescoço dela. Então, com uma lentidão que parecia fora de tempo, ele beijou o topo da cabeça dela e depois, um beijo terno, demorado, na lateral do seu rosto. Eu fiquei imóvel, estática no canto da sala. Douglas, o homem que sempre foi o escudo frio e impenetrável da nossa família, estava sendo... vulnerável. Ele nunca tinha demonstrado carinho daquela forma, não com nenhuma das mulheres que já ficaram com ele. Esse carinho no geral eu só comigo e agora, olhando bem, acho que nem comigo foi tanto. Ali, diante dos meus olhos, ele não era o DG, o dono do morro. Ele era apenas um homem tentando proteger a única coisa que parecia importar para ele naquele momento. — Ninguém vai te tocar, Clara. Eu juro por tudo que é mais sagrado — ele sussurrou, a voz despida de qualquer autoridade, carregada de uma promessa real. Ele se afastou um pouco, mantendo as mãos na cintura dela, ainda focando apenas nela. Eu me senti um fantasma na minha própria. Aquele momento de i********e revelava que o que estava acontecendo entre eles não era apenas um "resgate". Havia um sentimento ali que mudava tudo o que eu achava que sabia sobre o meu irmão. — Maya — ele disse, finalmente lembrando da minha presença, sem desviar totalmente os olhos de Clara. — Tranca todas as janelas e não deixa ninguém, eu disse ninguém, entrar nessa sala. Vou subir para pegar o fuzil reserva. Se essa gente cruzar a linha, a guerra começa hoje. Ele saiu em direção ao andar de cima, deixando um silêncio pesado e revelador para trás. Eu olhei para Clara, que ainda estava tremendo, e, pela primeira vez, entendi a magnitude do problema em que estávamos metidos. O meu irmão estava disposto a queimar o morro inteiro para protegê-la. E eu, com a informação que tinha guardado na mente — Menezes de Oliveira — sentia que estava segurando o fósforo que acenderia esse incêndio. Mas eu também estava dispota a queimar o morro para proteger.
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