Maya
O silêncio da sala de aula, após o sinal, parecia carregar uma voltagem elétrica que eu não conseguia ignorar. Gabriel continuava de costas, organizando seus papéis com uma calma irritante, como se as últimas quarenta e oito horas tivessem sido apagadas por um decreto militar.
Mas que merda. eu já estava começando a entrar em colapso.
— Senhorita Albuquerque — ele disse, a voz seca, sem se virar. — Preciso passar os detalhes do cronograma do projeto para que você entregue ao seu irmão. Pode me acompanhar até a sala dos professores?
Aquele tom... era frio. Não era o gelo de quem está escondendo um segredo, parecia o gelo de quem já se esqueceu de que o segredo existiu. Senti um nó apertar minha garganta. Será que foi um delírio? Será que as marcas que eu ainda carregava sob a roupa eram apenas sombras da minha imaginação? A insegurança me atingiu como um soco. N]ão era possivél. Tive um enorme trabalho para esconder as marcas que as roupas não cobriam com a maquiagem.
— Estou com pressa, professor — respondi, tentando manter a voz de "patroa" que o morro esperava de mim, mas sentindo o chão oscilar sob meus pés. — Não vou ter muito tempo para os seus relatórios.
Gabriel não contestou. Ele apenas pegou sua pasta e saiu da sala junto com os últimos alunos, sem olhar para trás, num convite mudo que eu me vi obrigada a seguir. Caminhei pelo corredor sentindo o peso do mundo nos ombros. O Tico falou com ele? Ele se arrependeu? Ele percebeu que eu sou um problema grande demais?
Eu m*l percebi o trajeto. Meus pés seguiam o fluxo, mas minha mente estava em frangalhos. Quando entramos na pequena sala de coordenação ao final do corredor — um lugar que raramente era usado naquele horário —, m*l tive tempo de colocar minha mochila sobre a mesa de madeira velha.
O movimento foi um borrão.
Em um segundo, o mundo girou. Senti mãos grandes e firmes agarrarem meus braços com uma força que eu reconheceria em qualquer lugar do mundo. Antes que eu pudesse soltar um suspiro, minhas costas se chocaram contra a porta que acabara de ser trancada com um estalo seco e definitivo.
O impacto não doeu, mas o choque me deixou sem fôlego. Gabriel estava ali, a milímetros do meu rosto, a máscara de professor estilhaçada no chão. Seus olhos não eram mais indiferentes; eram labaredas escuras que pareciam querer me consumir inteira. Ele respirava pesado, o peito subindo e descendo contra o meu, e a mão dele subiu para a minha nuca, prendendo meus dedos no meu cabelo com uma possessividade que me fez tremer.
— Você está uma delicia — diz com a voz carregada — Uma deliciaa — repete de forma arrastada.
— Você notou? — pergunto ainda surpresa pelo impacto.
— Você achou mesmo que eu ia conseguir passar uma hora naquela sala sem querer te arrancar daquela cadeira? — ele sibilou, a voz baixa, vibrando contra os meus lábios.
— Você... você agiu como se eu fosse ninguém — sussurrei, sentindo meu coração disparar, o medo do arrependimento dele sumindo para dar lugar a um desejo que queimava mais que o sol do meio-dia.
— Porque se eu te olhasse por mais de dois segundos, Maya, todo mundo naquela sala saberia exatamente o que eu fiz com você — ele rosnou, aproximando o rosto, o nariz roçando no meu.
— Estava começando a achar que se arrependeu — minha voz sai tremula.
— De você? Só se for arrependido de não ter te segurado no meu cubículo para ter mais de você aquele noite — ele sorrindo.
— O Tico...
— O Tico está fora, mas o morro ainda tem olhos. Eu tive que ser um fantasma lá fora para poder ser o seu monstro aqui dentro.
Ele apertou minha cintura com a outra mão, exatamente onde as marcas estavam, e eu soltei um gemido baixo, a cabeça pendendo para trás contra a madeira da porta. A indiferença era o teatro; isso aqui, essa urgência violenta e faminta, era a nossa única verdade.