Batidas...

959 Words
Maya Assim como ontem, hoje eu e Gabriel passamos um bom tempo dentro da sala "planejando" tudo o que precisava. Assumo que queria que ele tivesse me jogado na parede como ontem, mas hoje, hora ou outra tivemos interrupções. Ele já sabia disso, a diretora havia avisado que estavam fazendo algumas mudanças naquela sala para que pudéssemos ficar mais "tranquilo" e por isso, objetos estavam sendo tirados do local e outros estavam chegando. O sorrisinho que Gabriel me lançava quase me tirava dos nervos. Ele sabia que eu estava doida para ficar com ele, mas segundo Gabriel "Agora teremos uma sala permanente e logo íamos aproveitar" O lado bom foi que no fim, usamos mesmo o tempo que tínhamos para organizar o inicio do projeto. Eram tantas listas que eu já estava começando a ficar maluca. O cheiro do frango assado e da polenta que os moleques trouxeram da padaria do Baiano preenchia a cozinha da mansão. Eu estava ali, organizando os pratos com uma leveza que não sentia há dias. Os roxos no meu pescoço e braços já estavam naquela fase amarelada, mais fáceis de camuflar com uma camada fina de base, o que me permitiu trocar o casaco pesado por uma regata de alcinha e um cardigã leve, só por precaução. Acho que tive sorte deles amenizarem mais rápido do que eu esperava. Escutei os passos pesados do meu irmão antes mesmo de ele aparecer na porta. — O cheiro tá melhor que a cara, espero — Douglas brincou, jogando o rádio sobre o balcão, vindo até mim e me dando um beijo rápido na testa, e então puxou uma cadeira. — Respeita o jantar que os seus soldados suaram para buscar, DG — rebati, rindo e servindo um prato generoso para ele. — Você ama polenta com frango. Então não reclama, pedi pensando em você... — rio — E aí? O morro tá calmo ou a carga do Tico ainda tá dando dor de cabeça? — Tá tudo sob controle. Tico é chato, mas é eficiente. Se tivermos sorte ele volta amanha a noite, embora ache que ele precisará de mais um dia mesmo. Tico está correndo atrás para resolver tudo o quanto antes. — Espero que ele consiga — digo dando de ombros, como se essa informação não fosse tão importante para mim. — Para mim o que importa é que ele traga a carga com segurança. Não podemos dar bandeira. Se demorar um ou dois dias a mais, que se fod@ — Douglas respondeu, atacando a comida. — Entendi... — E o Professor? Já te deu muito trabalho hoje ou vocês ficaram só no "planejamento"? Senti meu rosto esquentar por um milésimo de segundo, mas foquei em cortar meu frango. — Ele é um chato, Douglas. Quer fazer lista e anotação de tudo. até dos parafusos que temos que comprar. Segundo ele, se é você quem vai dar a grana, precisa saber cada detalhe de onde o dinheiro está indo. Eu já disse que não precisa de tanto, eu tô lá, sei bem para onde vai o dinheiro. Mas segundo o professor, é melhor perder tempo com isso agora, e deixar tudo o mais organizado possível. — Não pode negar que ele é esperto — Douglas ri da minha cara. — Pelo menos o projeto está andando. As crianças vão adorar. — No fim, é isso que importa, pequena. Nosso morro precisava disso. Comemos em uma descontração rara. Naqueles momentos, ele não era o dono do morro e eu não era a irmã fugindo para a kitnet de um ex-capitão. Éramos apenas dois irmãos dividindo o dia. Mas, logo depois de terminar, vi Douglas conferir o relógio e dar um sorriso que eu conhecia bem. — Bom, a janta estava ótima, mas eu vou dar uma saída. Não me espera pro café — ele disse, levantando-se e indo em direção ao quarto. — Vai sair do morro de novo? — perguntei, encostando-me na pia e cruzando os braços. — Onde você vai, Douglas? Ele parou no corredor e piscou para mim. — Vou ver aquela garota do asfalto de novo. O final de semana deixou um gosto de quero mais. — Toma cuidado, por favor — pedi, e a preocupação na minha voz era real. — Você sabe que não é bom ficar se expondo assim fora da sua área. Se a polícia ou algum rival sonha que você tá rodando por lá... Douglas voltou e me deu um beijo no topo da cabeça, um gesto carregado de uma confiança que às vezes me assustava. — Fica tranquila, pequena. Eu sei me cuidar. Ninguém pega o rastro do teu irmão quando ele não quer ser achado. Curte a casa vazia e descansa, você tá precisando. — Promete que se cuida? — Prometo. — Vou terminar de limpar aqui e trancar tudo quando você sair. — Tá bom, pequena. Assisti ele sair, todo perfumado e armado apenas com a pistola de uso pessoal escondida no cós da calça. Esperei o som do carro dele sumir na ladeira e o silêncio da mansão se tornar absoluto. Olhei para o relógio. Onze da noite. A escuridão lá fora era o meu manto. Troquei a regata por algo mais discreto, peguei a chave reserva e saí pelos fundos, evitando a guarita principal. Eu conhecia cada beco que não era iluminado, cada atalho que os vapores ignoravam durante a troca de turno. Caminhei apressada, sentindo a adrenalina de ser a "fugitiva" da minha própria vida. Quando finalmente cheguei à porta da kitnet, meu coração batia tão forte que parecia querer sair pelo peito. Não bati. Usei o código que tínhamos combinado: três toques curtos e um longo. A porta se abriu antes mesmo de eu terminar o último toque.
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