Gabriel.
Eu estava jogado naquela cama estreita, encarando as rachaduras no teto que pareciam formar o mapa de uma guerra que eu nunca terminava de lutar. Tinha jantado um resto de quentinha fria e o silêncio da kitnet estava começando a me dar nos nervos. No escuro, cada estalo da madeira parecia um passo, cada sombra um inimigo.
Era um saco estar sempre em alerta. Sempre vigilante. Talvez seja por isso que deixar Maya entrar foi fácil. Ela me devolver a vontade de estar aqui e vivo. O problema é que agora eu seguia a todo o momento procurando uma forma de deixa-la ainda mais perto. Era como se nada fosse suficiente. Mas essa merda de vida me permitia no máximo encontrar formas escondidas de ter a garota que baixou meus murros e tem se instalado em algum lugar dentro de mim.
Eu sei bem que deveria parar. O certo seria ir embora. Mas porr@, não dá. Eu preciso dela.
Minhas cabeça estava um emaranhado de pensamentos. Aquela noite voltou como uma lembrança que acerta a boca do estômago. Estava começando a me perder até que o som veio.
Três batidas curtas. Uma longa.
Eu não precisei de um segundo. Dei um salto da cama, o instinto de soldado e a urgência de homem colidindo dentro de mim. Antes que ela pudesse completar o último toque, eu já estava girando a chave.
A porta se abriu e lá estava ela. Maya, envolta pela escuridão do corredor, com o rosto iluminado apenas pela luz fraca do poste lá fora. Eu não disse "oi". Não perguntei se estava tudo bem. Simplesmente a lacei pela cintura e a puxei para dentro, chutando a porta para fechar enquanto selava meus lábios nos dela.
O gosto dela era a única coisa real naquele morro. E eu tinha urgencia de nós.
— Calma... — ela murmurou entre um beijo e outro, as mãos espalmadas no meu peito, tentando recuperar o fôlego enquanto eu a prensava contra a parede de entrada.
— Como você saiu? — perguntei, a voz saindo mais rouca do que eu pretendia, meu nariz roçando no dela. — Onde está o seu irmão? E o cão de guarda dele?
Maya soltou um risinho baixo, aquele som que me fazia esquecer de todos os meus protocolos de segurança.
— O Douglas saiu para ver a tal garota do asfalto. Disse que não volta para o café. E o Tico... bom, o Tico está preso em algum lugar da serra com um pneu furado e uma carga pesada. Temos a noite toda, Capitão.
Eu sorri. Um sorriso perigoso, carregado de todo o desejo que eu tive que engolir naquela sala de aula gelada hoje cedo.
— Você me conta os detalhes depois — sibilei, descendo meus beijos para a curva do pescoço dela, sentindo a pulsação frenética de Maya sob a minha língua. — Agora, a única coisa que me importa é que eu estava morrendo de saudade desse cheiro.
Minhas mãos, que antes estavam firmes na cintura dela, subiram para o seu rosto, segurando-a com uma possessividade que eu não tentava mais esconder. Retomei o beijo, mas desta vez não houve nada de contido. Era uma invasão. Minha mão desceu, buscando a barra do cardigã dela, sentindo a pele quente e macia que eu tanto desejei tocar enquanto fingia ler relatórios na escola.
O calor entre nós subiu instantaneamente, transformando o ar frio da kitnet em um incêndio. Maya arqueou as costas, gemendo baixo contra a minha boca, e eu soube que aquela seria a nossa primeira noite de paz... e a nossa noite mais selvagem até aqui.