A vaga mais disputada
Helena narrando
Eu sempre fui uma pessoa de regras, desde criança, desde que me entendo por gente. Meu pai dizia que eu já nasci organizada, minha mãe ria e completava: "chorava na hora certa, dormia na hora certa, até os primeiros passos foram na data prevista pelo pediatra".
Não é obsessão, é sobrevivência.
Quando você cresce num lar onde o caos é o visitante mais frequente, onde o dinheiro some antes do dia 10 e as discussões dos pais ecoam depois da meia-noite, você aprende rápido que controle é a única coisa que ninguém pode tirar de você. Foi assim que cheguei aos 22 anos virgem, formada com louvor e com uma vaga de estágio na empresa mais cobiçada do país.
A Valente Holdings.
Só de digitar o nome no meu currículo, minha mão tremia um pouco. Não por medo, por antecipação. Eu sabia que aquela vaga não era como as outras, não era apenas um trabalho, era um portal. Quem entrava na Valente não saía mais, ou saía transformado, para melhor ou para pior. As estatísticas eram claras: oito mil candidatos, quarenta e duas vagas, e apenas uma para a ala da presidência.
A minha vaga.
Ou pelo menos era o que eu repetia para mim mesma enquanto esperava na sala de vidro do 14º andar, no meu terno azul-marinho de loja de departamento, os sapatos sociais que me deixaram calos no segundo dia de uso, o cabelo preso num coque tão apertado que a minha testa já doía.
Eu não ia deixar nada ao acaso.
O Processo Seletivo tinha sido um inferno metódico: testes de perfil, dinâmicas de grupo com exatos quarenta e sete critérios de avaliação publicados no edital, entrevistas comportamentais com psicólogas que não sorriam, e um estudo de caso que eu refiz sete vezes, até decorar cada vírgula.
Quando o e-mail chegou:
— Parabéns, Helena Duarte, você foi selecionada. — Eu li dezoito vezes.
Não estava sonhando.
Letícia, minha melhor amiga e a única pessoa que realmente me conhecia, disse que eu estava parecendo uma condenada indo para o fuzilamento, não uma recém-contratada. Ela não entendia, ou entendia até demais. Ela sempre foi o meu oposto: leve, descomplicada, viva. Eu era a pesada, a calculista, a que planejava cada passo.
— Você vai brilhar. — ela disse, me abraçando de um jeito que só ela podia.
Eu acreditei.
Acreditei até o momento em que a porta de vidro do elevador se abriu no 25º andar, e o silêncio me atingiu como uma parede. Não era um silêncio comum, não era calma, era espera, era o silêncio de quem está sendo observado e não sabe por onde. A recepcionista, uma mulher de meia-idade com um coque perfeito e um sorriso que não chegava aos olhos, me indicou a sala de espera.
— O Sr. Valente está em uma reunião. Ele pediu que você aguardasse aqui.
Aqui.
Uma sala de espera que parecia mais uma galeria de arte minimalista: bancos de couro preto, uma escultura que eu não sabia se era uma mulher ou uma nuvem, e uma parede inteira de vidro que dava para o céu.
Eu sentei, coloquei a bolsa no colo, respirei fundo.
E esperei.
Dez minutos, quinze, trinta. Ninguém aparecia. Eu não ousei pegar o celular, não ousei ligar para Letícia, não ousei fazer nada além de manter a coluna reta e as mãos sobre a bolsa.
Controle.
Era o que eu fazia de melhor.
Quando a porta finalmente abriu, quarenta e três minutos depois, não era ele quem entrava. Era um homem de terno cinza, cabelos grisalhos nas têmporas, olhos de quem já viu de tudo. Ele me estendeu a mão:
— Ricardo Mendes, assistente do Sr. Valente. Ele pede desculpas pelo atraso, a reunião extrapolou.
Eu apertei a mão dele, firme, e notei que ele me observava com uma curiosidade que eu não soube interpretar.
— Ele pediu que eu a acompanhasse até a sala dele. Por favor, venha comigo.
Eu levantei, ajustei a saia do terno, e segui Ricardo por um corredor largo, envidraçado, onde cada porta de vidro revelava escritórios impecáveis e pessoas que trabalhavam em silêncio absoluto. No final do corredor, duas portas de madeira escura, pesadas, com uma placa de latão:
Arthur Valente – Presidente.
Ricardo bateu, três batidas secas.
— Entre.
A voz era grave, baixa, e não parecia vir de dentro da sala, parecia vir de dentro de mim, reverberar na minha coluna. Ricardo abriu a porta, fez um gesto para que eu entrasse, e desapareceu. A sala era enorme, provavelmente maior que o apartamento inteiro que eu dividia com Letícia. Uma parede de vidro do chão ao teto, uma mesa de madeira escura sem um único objeto em cima exceto um laptop e uma caneta, e atrás da mesa, de costas para mim, um homem olhando a cidade lá embaixo.
Eu parei a dois metros da mesa, não mexi um músculo.
Ele não se virou por alguns segundos, e eu senti cada um deles como uma pequena eternidade. Quando finalmente se virou, eu vi Arthur Valente pela primeira vez. E foi como levar um soco no peito. Não porque ele fosse bonito, embora fosse, de uma forma fria e simétrica que parecia esculpida. Era os olhos, eram os olhos que me desarmaram, porque quando ele me olhou, não foi como um chefe olha uma estagiária, não foi como um homem olha uma mulher. Ele me olhou como se estivesse lendo um contrato que eu ainda não sabia que tinha assinado.
— Helena Duarte.
Minha boca estava seca, mas minha voz saiu firme.
— Sim, senhor.
Ele se aproximou, não muito, o suficiente para que eu sentisse o perfume, algo amadeirado e frio.
— Sabe por que você está aqui?
Eu podia responder com o óbvio, "para estagiar", ou com o esperado, "para aprender". Mas algo naquele olhar me disse que o óbvio seria um erro, que aquele homem não queria respostas prontas, queria reações verdadeiras.
— Estou aqui porque alguém decidiu que eu merecia estar.
Ele inclinou a cabeça levemente, um movimento mínimo, e nos seus olhos escuros eu vi algo que não soube nomear, aprovação ou curiosidade, talvez os dois.
— Alguém decidiu, sim. E esse alguém fui eu.
O silêncio que veio depois foi tão pesado que eu quase pude tocá-lo.
— Eu li seu currículo, li sua redação, assisti às suas gravações. Você não foi a mais experiente, nem a mais indicada, nem a que tinha os melhores contatos.
Ele deu mais um passo, e agora estávamos a menos de um metro de distância.
— Você foi a única que não mentiu em nenhuma fase do processo. A única que disse 'não sei' quando não sabia. A única que não tentou me impressionar.
O coração batia tão alto que eu jurava que ele podia ouvir.
— Isso é raro. — ele continuou, a voz mais baixa agora. — Pessoas que não fingem. Pessoas que não tentam me manipular. Isso é... interessante.
Ele disse interessante do mesmo jeito que um engenheiro diria funcional ou um colecionador diria autêntico. Sem emoção aparente, mas com um peso que me fez arrepiar.
— Você vai trabalhar diretamente comigo, Helena. Vai me acompanhar em reuniões, vai organizar minha agenda, vai ter acesso a informações confidenciais. Erros não serão tolerados.
Ele se virou de volta para a janela, dando-me as costas novamente.
— E hesitação. — ele acrescentou, como se lembrasse de algo importante. — Hesitação é pior do que erro. Porque erro você corrige. Hesitação mostra que você não confia em si mesma. E se você não confia em si mesma, como eu vou confiar?
Eu engoli seco.
— Começa amanhã, 8h em ponto. Não se atrase. A recepcionista vai te dar seu crachá e seu manual. O manual você vai ler até decorar. Há um teste na sexta-feira.
Um teste. Isso era novo.
— Alguma pergunta?
Eu pensei em perguntar sobre salário, horário de almoço, benefícios. Todas as perguntas normais que uma pessoa normal faria. Mas algo me disse que aquele homem não queria perguntas normais.
— Nenhuma, senhor.
Ele não se virou. Apenas acenou com a cabeça.
— Então pode ir. E Helena?
Eu parei na porta, a mão na maçaneta fria.
— Bem-vinda à Valente. Não vou dizer que você vai gostar. Mas vou dizer que você nunca mais vai ser a mesma.
Eu saí. Andei pelo corredor, entrei no elevador, desci 25 andares em silêncio. Só quando coloquei os pés na calçada, o sol quente batendo no meu rosto, a cidade barulhenta e viva ao redor, eu percebi que estava segurando o ar desde que ele começou a falar.
Soltei tudo de uma vez.
E pensei: o que foi que eu fui fazer?
Mas no fundo, no fundo mais escuro e secreto de mim, onde eu guardava todas as perguntas que não ousava fazer, eu sabia a resposta. Eu fui voar muito perto do sol. E estava com medo de gostar do calor.