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UM HERDEIRO NO MORRO

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Dori não lembra do próprio nome.

Nem da família.

Nem de como apareceu sozinho em um morro do Rio de Janeiro aos dez anos, machucado e sem memória.

Criado por uma mulher humilde que se tornou tudo para ele, Dori cresceu entre becos, tiros e sobrevivência… até o dia em que uma operação do BOPE levou a única pessoa que já o amou de verdade.

Anos depois, ele se tornou o dono do morro.

Frio. Temido. Perigoso.

Tudo muda quando Mel sobe o morro durante uma noite impulsiva e cruza o caminho do homem que deveria temer. Entre mundos opostos nasce uma conexão intensa, impossível de ignorar.

Mas Mel carrega um segredo.

Ela é noiva justamente do homem que Dori jurou destruir.

Em meio à guerra, desejo e segredos enterrados, o passado começa a voltar… e algumas verdades podem ser mais perigosas que a própria morte.

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DORI - O MENINO SEM NOME
💌 Oi, minhas leitoras 💕 Pra quem ainda não me conhece, sou Cristiane — Crisfer. Sou casada, mãe de três e completamente apaixonada por escrever. Inclusive, já tenho outras obras aqui na plataforma 💖 Quero agradecer de coração por vocês estarem aqui lendo essa história. Isso significa muito pra mim. Antes de começarmos, preciso deixar alguns avisos importantes: ⚠️ Este livro é uma obra de ficção altamente fictícia. Escrevo no contexto de morro, facções, criminalidade e comunidades, porém nada aqui representa pessoas, organizações ou acontecimentos reais. Nomes de morros, facções, patentes, personagens e situações foram criados exclusivamente para o universo da história. Inclusive, eu nunca vivi essa realidade e nem sequer pisei em um morro. Tudo é fruto de pesquisa, imaginação e construção literária. ⚠️ A obra contém conteúdo sensível e adulto. Ao continuar a leitura, esteja ciente de que poderão existir: • violência explícita • assassinatos • tortura • abusos físicos e psicológicos • menções ao uso de drogas ilícitas • linguagem pesada • cenas de sexo explícito • situações que podem servir de gatilho para algumas pessoas Por isso, recomendo a leitura apenas para maiores de 18 anos e para leitores que se sintam confortáveis com esse tipo de conteúdo. ⚠️ Também preciso lembrar que a plataforma Dreame censura determinadas palavras e expressões. Infelizmente, devido à correria e à quantidade de capítulos, não consigo revisar. Então vocês podem encontrar palavras censuradas ao longo da leitura. Eu posto sempre que posso, quase diariamente… mas quando a inspiração não vem, eu respeito meu tempo pra entregar algo que vocês realmente merecem 💖 Obrigada por estarem comigo nessa história. Agora sim… vamos lá! ✨ — Crisfer — Acordo achando que morri. Tudo está escuro. Depois vem um barulho estranho, como rádio chiando. Aí a dor chega. Uma dor forte, latejando dentro da cabeça. Meu corpo inteiro queima. Até respirar dói. Estou sentado no chão. O chão é duro e molhado. Cheira a terra, lixo e cachorro. Quando consigo abrir os olhos, a luz arde como se fosse fogo. Tudo fica embaçado. Aos poucos enxergo: uma calçada quebrada, um poste com fio solto, um muro cheio de pichação. Lá embaixo, uma rua esburacada com carros velhos passando e buzinando. Eu estou aqui. Sozinho. Olho para mim. Minha camiseta branca está suja de sangue. Tem cortes nos braços, arranhões e roxos nas pernas. Meu cabelo está raspado. Eu não lembro de ter cortado. Não lembro de nada. Nem do meu nome. Nem da minha idade. Nem da minha mãe. Nada. Só um buraco grande dentro de mim. Meu coração bate rápido. Tento lembrar alguma coisa — um rosto, uma voz, a cor da minha casa. Qualquer coisa. Mas não vem nada. Só medo. Só pedaços confusos de gente gritando e alguém mandando eu ficar quieto. Começo a tremer. Um carro buzina alto. Eu me assusto. Tem muita gente gritando por todo lado. Uma senhora reclama do leite. Um menino corre atrás de bola. Uma moto sobe o morro fazendo muito barulho. Olho para cima e vejo barracos, escadas e fios de luz enrolados como teia de aranha. Eu estou numa favela. No Rio de Janeiro. Mas como vim parar aqui? Tento levantar. Minhas pernas estão fracas. Apoio no muro. Três pessoas passam e olham torto para mim. Uma senhora desvia como se eu fosse perigoso. Um senhor de camisa preta e vermelha para na minha frente. Ele me olha de cima a baixo. — Tá perdido, filho? Minha voz sai baixinha, estranha: — Eu… eu não sei onde moro. — Não sabe onde mora? Tá tonto? Bebeu alguma coisa? Se drogou? — Não. Eu não lembro de nada. Ele balança a cabeça e vai embora, resmungando sobre a molecada de hoje em dia. Ando sem rumo o dia inteiro. Meu corpo dói, minha cabeça lateja. Pergunto para todo mundo: — A senhora sabe onde fica minha casa? Ninguém sabe. Um menino mais velho, que vendia alguma coisa na esquina, riu de mim junto com os amigos: — Tá perdido igual o Nemo, é? Eles riram. Eu não entendi, mas o nome ficou grudado. Nemo. Chorei bastante naquele dia, sentado na escada grande do morro, vendo as pessoas subirem e descerem. Ninguém me conhecia. Ninguém estava me procurando. Quando a noite chegou, começou a chover forte. Eu me encolhi perto de um muro, molhado e com muito frio. Foi então que ela apareceu. Uma senhora com um guarda-chuva meio torto e duas sacolas de mercado na mão. Ela parou e me olhou com preocupação. — Menino… o que você está fazendo aí na chuva? Minha voz tremia: — Eu não sei… eu não lembro de nada. Ela largou as sacolas, segurou meu rosto com as mãos quentes e olhou meus machucados. — Cadê sua mãe, meu anjo? — Eu não sei… Ela não teve medo. Não teve nojo. Só disse, com voz firme e carinhosa: — Vem comigo. Segurei as sacolas dela e subi o beco de mãos dadas. A casa era pequena, de porta verde. Cheirava a comida e sabão. Ela limpou meus ferimentos, me deu banho com caneca, me vestiu com roupa limpa e fez sopa. Enquanto eu comia, perguntei baixinho, com medo na voz: — A senhora vai me bater? Seus olhos encheram de dor e raiva, mas não de mim. — Aqui ninguém vai bater em você. Nunca, querido. Entendeu? Assenti. Dormi no colchão no chão da sala, coberto com um cobertor que cheirava a casa limpa. Chorei escondido. Era a primeira vez que alguém era bom comigo sem pedir nada em troca. Os anos passaram rápido. Dona Zuleide conseguiu meus documentos: Dori Fernandes. Eu achava o nome feio. Preferia quando ela me chamava só de menino. Com o tempo, virou Dori, por causa do peixinho perdido do filme. Ela me ensinava tudo. A ler, a respeitar as pessoas, a estudar. Dizia sempre, com aquele sorriso dela: — Você não nasceu pra ficar preso aqui não, Dori. Você vai ser alguém na vida. Eu estudava muito. Matemática era minha matéria preferida. Os professores diziam que eu tinha futuro. Sonhava em me formar, arrumar um bom emprego e comprar uma casa melhor para ela. Queria cuidar dela como ela cuidou de mim. Mas o medo ainda morava dentro de mim. Grito me fazia tremer. Ver alguém batendo em criança ou mulher me dava ânsia de vômito. Eu achava que minha família verdadeira tinha me jogado fora como lixo. Mesmo assim, eu tentava ser bom. Fazia entregas, ajudava as vizinhas, nunca me metia com as coisas erradas do morro. Até os meus dezesseis anos. Foi numa terça-feira. Eu voltava da escola, mochila nas costas, sol quente. Ia comprar pão quando o inferno começou. Helicópteros. Vários. O chão tremia. Depois vieram os tiros. Muitos tiros. — É operação! Desce tudo! — gritavam pelo morro. Larguei a mochila e corri morro acima, coração na boca. — Dona Zuleide! Dona Zuleide! Os caveirões subiam. Homens do BOPE desciam com fuzil na mão. Vi um comandante alto, de óculos escuro, dando ordens com voz gelada. Alguém gritou: “Conrado! Conrado Damasceno!” Guardei o nome. Cheguei em casa ofegante. A porta verde estava entreaberta. Entrei. Dona Zuleide estava encostada na parede, pálida, mão no peito. — Entra, meu filho! Fecha a porta! Tranquei tudo. Ela me puxou para trás do guarda-roupa. Os tiros se aproximaram. Gritos. Portas sendo arrombadas. De repente, chutaram nossa porta. Conrado Damasceno entrou com o fuzil em punho. Dona Zuleide levantou as mãos e disse, com a voz trêmula mas firme: — Aqui não tem bandido. Ele se assustou com a voz dela. Apertou o gatilho sem pensar. O tiro atravessou a sala e acertou ela no peito. Dona Zuleide caiu nos meus braços. — Não… não… por favor… — implorei, apertando ela contra mim. Conrado olhou uma vez, virou as costas e saiu sem dizer uma palavra. Sem prestar socorro. Como se ela fosse nada. O sangue quente molhou minha camisa. Ela levantou a mão trêmula, tocou meu rosto e sussurrou, quase sem voz: — Você é meu filho… meu filho… Seus olhos perderam o brilho. Ela morreu ali. Nos meus braços. Na casinha de porta verde. Eu gritei. Um grito rouco, animal, que rasgou minha garganta. Balancei ela, chamei seu nome, implorei. Nada adiantou. Quando os tiros pararam, saí da casa como um fantasma. O morro estava em destroços. As pessoas choravam nas ruas. Vi Conrado Damasceno entrando num carro blindado, frio, como se tivesse acabado de fazer uma faxina. Guardei cada detalhe daquele rosto. Os traficantes do morro me procuraram. Pagaram o enterro, fizeram um velório digno. Pela primeira vez senti que eu pertencia a algum lugar. A raiva une mais rápido que o amor. Naquela noite, voltei para a casa vazia. Olhei a porta arrebentada, a parede furada, o chão onde ela caiu, a foto nossa no meu aniversário. Sentei no chão frio. Peguei a foto, passei o dedo no rosto dela e falei baixo, com a voz já diferente: — Eu vou acabar com ele. Naquela noite, o menino morreu de vez. Quem levantou dali foi Dori. 💌 Rede Social: @crisfer_autora

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