"Recua por favor. Eu tô no morro."
A frase dela entrou no meu ouvido como uma bala. Por alguns segundos, o mundo inteiro parou. O tiroteio ao meu redor, os gritos dos meus homens, a dor alucinante na coxa — tudo virou ruído de fundo. Só existia a voz dela. Tremendo. Desesperada. Pedindo para eu recuar.
Eu fiquei em silêncio, o celular apertado com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram ainda mais brancos. O sangue escorria pela minha perna, encharcando a bota, mas eu m*l sentia.
— Mel? Mel… — minha voz saiu rouca, quase irreconhecível. — O que você disse?
— Recua, Conrado. Por favor… — ela repetiu, a voz embargada de choro. — Eu tô no morro.
Fechei os olhos por um segundo. O impacto daquela informação me destruiu por dentro. Minha noiva. A minha Mel. No meio de uma zona de guerra. No morro que eu estava invadindo. Ela não pediu ajuda. Não pediu “me salva”. Não disse que estava escondida, com medo, esperando que eu a resgatasse como o herói que ela sempre me pintou ser.
Ela pediu para eu recuar.
Isso só podia significar uma coisa.
Traição.
— Onde você está exatamente? — perguntei, a voz baixa e perigosa. — Me fala a localização agora.
Silêncio do outro lado. Só a respiração dela, rápida e assustada.
— Mel… onde você está? — repeti, mais duro.
— Eu… eu não posso dizer.
Meu sangue ferveu. O ciúme, que já era uma brasa constante, virou um incêndio. Ela não estava escondida numa casa qualquer. Não estava perdida. Não estava sendo mantida refém. Ela estava protegendo alguém.
E só existia uma pessoa naquele morro inteiro que ela ou qualquer outra pessoa teria motivos para proteger.
Dori.
— Você voltou pro morro — falei, quase num sussurro. — Depois de tudo que eu te disse ontem. Depois de eu ter te alertado. Você voltou.
— Conrado, por favor… não é o que você tá pensando.
— Não é? — Eu ri. Um riso seco, sem nenhuma alegria. — Então me explica, Mel. Me explica por que a p***a da minha noiva, a p***a da mulher que eu vou casar, está no morro, no meio de uma operação do BOPE pedindo pra eu recuar em vez de pedir ajuda.
Ela ficou em silêncio novamente. Isso só confirmou tudo.
Eu comecei a ligar os pontos enquanto mancava para frente, ignorando a dor na perna. A saída escondida para o baile. As mensagens ignoradas. O desespero na voz agora.
Ela tinha ido atrás de quem passou a noite com ela ontem.
Atrás do Dori.
Pois eu duvido muito que a Mel ficaria com um mero vapô de morro.
O ódio que eu sentia por aquele marginal se misturou com um ciúme tão violento que minha visão ficou vermelha. Ele tinha tocado nela. Falado com ela. Feito ela se importar o suficiente para arriscar a vida e vir até aqui.
— Mel… — minha voz saiu gelada. — Se você estiver com ele… se você estiver com a p***a de outro homem, qualquer filho da p**a…
— Conrado, por favor… — ela implorou, chorando agora.
— Eu te dei tudo — continuei, andando mesmo com a perna sangrando. — Status. Segurança. Uma vida que qualquer mulher mataria pra ter. E você me trai assim? Com o pior tipo de escória que existe nesse morro?
Eu sentia meus homens me olhando. Almeida tentou se aproximar novamente.
— Comandante, o senhor…
— Cala a boca! — gritei, sem tirar o celular da orelha. — Continuem avançando! Eu quero aquela mansão cercada agora!
Voltei a falar com ela, a voz mais baixa e mortal:
— Você pediu pra eu recuar. Isso significa que você escolheu ele. Significa que você tá traindo não só a mim, mas tudo que eu represento. Tudo que eu sou.
— Não é isso… — ela soluçou.
— É exatamente isso.
Guardei o celular no colete sem desligar. Deixei a ligação aberta. Queria que ela ouvisse tudo. Queria que ela ouvisse o que eu ia fazer com o homem que ela foi proteger.
— Avancem! — gritei para os meus homens. — A mansão no topo. Quero todos os acessos cercados. Ninguém sai vivo de lá sem minha ordem!
A dor na perna era insuportável, mas eu andava como se não existisse dor. Cada passo era alimentado por ódio puro. O Dori não era mais só um alvo do tráfico. Era o homem que tinha colocado as mãos na minha mulher. Que tinha feito ela mentir. Que tinha feito ela vir até aqui.
Isso virou pessoal.
Não era mais uma operação policial.
Era uma caçada. Uma execução.
Enquanto subíamos, eu imaginava os dois juntos. Ela tremendo de medo nos braços dele. Ele sorrindo, achando que podia tirar o que era meu. A raiva me dava forças para ignorar o sangue que deixava no chão.
Avistei a mansão de longe. Imponente. Arrogante. Fora de lugar no meio da favela. Exatamente como o dono dela.
Parei por um segundo, respirando pesado, o fuzil na mão.
Se ela estava lá dentro com ele…
Então os dois iam me explicar muita coisa.
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