CONRADO - O RASTRO DE SANGUE

987 Words
A dor na coxa era como fogo líquido correndo pela minha perna, mas eu continuava subindo. Cada degrau era uma vitória contra o corpo traidor. O sangue escorria quente pela calça tática, mas a raiva era maior. Muito maior. — Comandante, pelo amor de Deus, o senhor precisa parar! — gritou o Almeida novamente, tentando me segurar. Eu empurrei o braço dele com força, quase o derrubando. — Se você encostar em mim de novo, eu mesmo te dou um tiro, Almeida. Agora cala a boca e avança! O morro estava virando um inferno. Rajadas vinham de todos os lados. Meus homens respondiam com disciplina, mas o Dori tinha montado uma defesa boa. Organizada. Isso me enchia de ódio. Ele não era um marginal qualquer. Era inteligente. E isso só fazia eu querer matar ele mais devagar. — Fogo de supressão na laje da direita! — ordenei pelo rádio. Os fuzis dos meus homens abriram fogo pesado. O barulho era ensurdecedor. Balas traçantes cortavam a noite. Um traficante caiu de uma laje, gritando até bater no chão. Outro tentou correr e foi acertado nas costas. Eu mancava, mas não parava. Apertei o ferimento com a mão esquerda enquanto segurava o fuzil com a direita. O sangue vazava entre meus dedos. — Rocha, como tá? — perguntei, sem olhar pra trás. — Sobrevivendo, comandante… — respondeu ele, a voz fraca. — Então sobreviva quieto. Entramos numa rua mais larga. Foi aí que o tiroteio ficou brutal. Eles tinham montado uma barricada com carros e sacos de areia. Rajadas pesadas vieram na nossa direção. — Escudo pra frente! — gritei. Dois homens com escudos balísticos avançaram. As balas batiam contra o metal com barulho seco. Eu me posicionei atrás deles e comecei a atirar. Cada disparo era calculado. Um marginal caiu. Depois outro. — Granada de luz! — ordenei. A explosão iluminou tudo por um segundo. Aproveitei o clarão e avancei com mais três homens. Arrombamos a porta de uma casa que servia de ponto de tiro. Dentro tinha dois traficantes. Matei o primeiro com dois tiros no peito. O segundo tentou se render, levantando as mãos. — Por favor, comandante… Atirei na cabeça dele. — Não tem por favor aqui — rosnei. Saímos da casa e continuamos subindo. A dor na perna piorava. Eu sentia o sangue encharcando a bota. Mas parei em frente a uma casa simples, de porta azul. Tinha luz acesa. Alguém estava escondido ali. — Arromba! — ordenei. Dois soldados chutaram a porta. Entrei mancando, fuzil em punho. Uma senhora de uns sessenta anos estava encolhida no canto da sala, tremendo. — Por favor… eu não fiz nada… — implorou ela. Apontei a arma para a cabeça dela. — Levanta. Agora. Ela obedeceu, as pernas tremendo. Olhei para o ferimento na minha coxa. Sangrava muito. — Faz um torniquete. Agora. Usa o que tiver. — Eu… eu não sei… — Faz, p***a! — gritei, encostando o cano da pistola na testa dela. — Ou eu juro por Deus que eu mato você e todo mundo que tiver escondido nessa casa. A senhora começou a chorar, mas obedeceu. Pegou um pano de prato limpo e uma corda de roupa. Amarrando com dificuldade, ela fez o torniquete na minha coxa. Apertei mais, sentindo a dor aumentar. — Mais apertado — ordenei. Ela apertou. Eu grunhi de dor, mas a hemorragia diminuiu. — Onde o Dori mora? — perguntei, ainda com a pistola na testa dela. A senhora ficou em silêncio, lágrimas escorrendo. — Eu não sei… eu não sei de nada… — Mente pra mim de novo e eu começo a atirar nas suas pernas — falei frio. — Onde ele mora? — Por favor, senhor policial… eu sou só uma moradora… eu não me meto… Eu bati com a coronha da pistola no rosto dela. A senhora caiu no chão, sangrando pela boca. — Levanta! — gritei. — Levanta ou eu mato você agora! Ela se levantou devagar, soluçando. — Ele… ele mora lá em cima… na mansão grande… depois da última escada, na rua que tem a antena grande… a casa com muro alto… — Tem certeza? — Sim… por favor, não me mata senhor… pelo amor de Deus não atira em mim... Segurei o queixo dela com força, forçando ela a me olhar. — Se você tiver mentido, eu volto aqui e queimo essa casa com você dentro. Entendeu? — Entendi… entendi… Saí da casa mancando, deixando a senhora chorando no chão. O torniquete estava segurando, mas a dor era constante. Meus homens me esperavam do lado de fora. — Comandante, o senhor… — Cala a boca e anda. Vamos pra cima. A casa dele fica lá em cima. Continuamos subindo. Cada passo era uma agonia, mas eu sentia um prazer doentio nisso. A dor me mantinha acordado. Vivo. Focado. Enquanto subíamos, o tiroteio continuava esporádico. Meus homens iam limpando os últimos focos de resistência. Eu via corpos de traficantes pelo caminho. Alguns ainda vivos, gemendo. Não parei para ajudar ninguém. — Comandante, a resistência tá diminuindo — avisou Almeida pelo rádio. — Ótimo. Quero o Dori. Vivo ou morto. Preferencialmente vivo. Avistei a casa de longe. Era impossível não ver. Uma mansão no alto do morro, muros altos e luzes acesas. Completamente fora de lugar no meio da favela. Aquilo só me encheu de mais ódio. Ele vivia como rei enquanto eu sangrava subindo o morro dele. — É ali — falei baixo, apontando. — Vamos cercar. Ninguém entra ou sai sem minha ordem. Estava quase dando a ordem final quando meu celular vibrou no bolso interno do colete. Olhei o nome na tela. Mel. Hesitei por um segundo. Depois atendi, mantendo a voz baixa e controlada. — Mel, não é a melhor hora. Tô no meio de um confronto. Do outro lado, a voz dela saiu desesperada, quase chorando: — Recua por favor. Eu tô no morro. 💌 Rede Social: @crisfer_autora
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