MEL - IMPULSO

1389 Words
Eu ainda estava deitada na cama, o celular na mão, o vídeo do baile rodando pela milésima vez. Dori no palco, os fogos explodindo atrás dele, o morro inteiro vibrando como se ele fosse um rei. Meu coração batia forte, descompassado. Eu deveria ter fechado o aplicativo. Deveria ter bloqueado qualquer pensamento sobre ele. Mas não conseguia. — O que você fez comigo? — sussurrei para o quarto vazio. A ressaca tinha passado, mas algo pior tinha ficado: uma inquietação no peito. Uma vontade absurda, irracional, de vê-lo de novo. Não era só curiosidade. Era algo mais fundo. Eu precisava explicar que não tinha nada a ver com a profissão do Conrado, que não era informante, que eu não tinha subido o morro pra espionar. Ou talvez eu só quisesse ver aqueles olhos pesados mais uma vez. Levantei antes que pudesse pensar direito. Troquei de roupa — saia jeans, cropped básico, tênis — e desci as escadas silenciosamente. Meu pai ainda não tinha voltado. Peguei as chaves do carro e saí. Durante o caminho, eu falava sozinha dentro do carro: — Isso é loucura, Mel. Você tá indo atrás de um traficante. Um homem que o seu noivo quer prender. Você tem noção do risco? Se o Conrado descobrir… Mas meu pé não parava de acelerar. Meu coração também não. Eu não sabia se estava indo pedir desculpas, explicar, ou simplesmente porque precisava sentir aquilo de novo — aquela sensação de estar viva que ele me deu em poucos minutos. Estacionei o carro exatamente no mesmo lugar onde o carro de aplicativo tinha me deixado na noite anterior. Olhei o morro subindo à minha frente. As escadas, os becos, as casas apertadas. Respirei fundo e comecei a subir a pé. O sol ainda estava forte. Eu suava, não só de calor. A cada degrau, a dúvida aumentava. — O que eu tô fazendo aqui? — murmurava baixinho. — Ele nem deve lembrar de mim. Eu tava bêbada, ele tava no meio de um baile bebendo se drogando… Cheguei no topo de uma escadaria que dava num beco mais largo. Foi aí que vi eles. Cinco homens armados, fuzis pendurados no ombro, olhando pra mim como se eu fosse um animal raro. Um deles deu uma risadinha. — Olha só o que o vento trouxe… uma patricinha perdida? Outro assoviou. — Veio atrás de aventura, gostosa? Subiu sozinha? Fiquei vermelha, o coração martelando. Um deles, mais velho, me olhou melhor e franziu a testa. — Calma aí… essa é a mina que tava no camarote do chefe ontem. A que o Dori ficou olhando a noite inteira. Eles trocaram olhares. Um deles pegou o rádio imediatamente. — Chefe, tua mina tá aqui no beco 10. Tava subindo bem pela concentração da segunda contenção. O rádio chiou. Meu rosto queimava de vergonha. “Tua mina”. Meu Deus. Do outro lado, a voz grave de Dori saiu, surpresa: — Que mina? Tá louco? Eu queria sumir. Queria voltar correndo pro carro. Que droga eu estava fazendo ali? O homem do rádio olhou pra mim. — Como é teu nome, mina? — Melissa… Mel! — respondi, a voz saindo mais alta do que eu queria. Ele repetiu no rádio: — É a Mel, chefe. A patricinha de ontem. Houve um silêncio longo. Só o chiado do rádio. Eu suava frio. Ele não ia lembrar. Claro que não. Eu era só mais uma. Então o bip voltou. — Leva ela em segurança pra minha casa. O homem baixou o rádio e fez um gesto com a cabeça. — Me segue. Eu obedeci, as pernas tremendo. Alguns becos depois, ele subiu numa moto. — Sobe. A casa do chefe é lá em cima. Não dá pra subir a pé fácil. Hesitei por um segundo, mas subi na garupa. Ele acelerou forte. O vento batia no meu rosto enquanto subíamos os becos íngremes. Meu coração estava na boca. Paramos em frente a uma casa enorme, completamente diferente de tudo ao redor. Muros altos, vários homens armados na frente. Parecia uma fortaleza disfarçada de mansão. — Tá entregue — disse o homem, me deixando na porta. Outro rapaz abriu o portão. — O chefe tá esperando ela. Eu entrei. O jardim era lindo, quase luxuoso demais pro morro. Nada ali combinava com o resto. Parecia outro mundo. — Que droga eu tô fazendo? — sussurrei pra mim mesma enquanto atravessava o caminho de pedras. — Eu sou a garota mais i****a do planeta. A porta grande de madeira estava entreaberta. Parei na frente, indecisa, pronta pra dar meia-volta. — Entra! — a voz forte de Dori ecoou lá de dentro. Respirei fundo e empurrei a porta. Ele estava sentado no sofá enorme da sala, de costas pra mim. Um baseado aceso entre os dedos. A sala era impressionante: móveis modernos, ar-condicionado, vista panorâmica pro Rio através de vidros blindados. Luxo e perigo misturados. Caminhei devagar até parar na frente dele. Dori tragou o baseado devagar, sem pressa, e finalmente levantou os olhos pra mim. Aqueles olhos pesados. Intensos. — Veio me matar? — perguntou, a voz rouca, quase divertida. — Te… te matar? Por quê? — respondi, sem entender nada. Ele se levantou devagar, ficando frente a frente comigo. Era muito mais alto. O cheiro dele — maconha e algo masculino — me acertou em cheio. — O seu noivo tá vindo pra isso, não é? — disse ele, o tom baixo e perigoso. — Uma operação grande hoje à noite. Bem no meu morro. Coincidência, né? Eu pisquei, surpresa. — Eu… eu não sabia disso. Juro. Eu não tenho nada a ver com isso, Dori. Eu vim aqui porque… porque eu não sei. Eu precisava te ver. Explicar que eu não sou informante, que eu não contei nada pro Conrado sobre você, sobre ontem… Ele deu um passo mais perto. Eu sentia o calor do corpo dele. — Não sabe a que veio, Mel? — perguntou, a voz mais baixa, quase um ronronar. — Subiu esse morro sozinha, arriscando a vida, só pra me dizer que não é informante? Eu olhei pra baixo, envergonhada demais, mas despejei tudo de uma vez. — Eu sei que parece loucura. Eu nem sei explicar. Ontem… você mexeu comigo. Eu não consigo parar de pensar em você. E isso me assusta pra c*****o porque eu tenho um noivo, um casamento marcado, uma vida inteira planejada. Mas quando eu tô com você… eu me sinto diferente. Dori ficou me olhando em silêncio por vários segundos. Tragou o baseado mais uma vez e apagou no cinzeiro. — Tu é noiva do homem que eu mais odeio nesse mundo — disse ele, direto. — Sabe disso, né? — Eu imagino… — respondi, a voz tremendo. — Mas ontem, quando você me segurou… não foi como ele me segura. Você não me machucou. Não me controlou. Você só… me quis. Ele soltou uma risada baixa, sem humor. — Tu não faz ideia do perigo que tá correndo agora, patricinha. Se o Conrado descobrir que tu tá aqui… — Eu sei. Mas eu vim mesmo assim. Dori se aproximou ainda mais. Nossos corpos quase se tocando. Ele levantou a mão e segurou meu queixo com cuidado, diferente de como Conrado fazia. O toque era firme, mas quente. — E o que tu quer de mim, Mel? — perguntou, os olhos cravados nos meus. — Quer aventura? Quer f***r com o bandido? Ou quer algo que nem tu sabe explicar? Eu senti as pernas fracas. — Eu não sei… — confessei. — Só sei que quando eu tô perto de você, eu não quero ir embora. Ele ficou calado. O ar entre nós estava carregado, elétrico. Eu via o conflito nos olhos dele. Raiva, desejo, desconfiança. — Tu é perigosa — murmurou ele. — Mais perigosa do que imagina. — E você? — devolvi. — Não teve medo de mandar me trazer pra sua casa? Dori sorriu de canto, aquele sorriso perigoso que mexia comigo. — Medo eu não sinto faz tempo. Mas tu tá me fazendo sentir outras coisas que eu não queria sentir. Ficamos ali, frente a frente, o silêncio pesado entre nós. Eu sabia que estava cruzando uma linha sem volta. Sabia que isso podia destruir minha vida. Mas pela primeira vez, eu não queria voltar atrás. 💌 Rede Social: @crisfer_autora
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD