MEL - CONTRASTE

1274 Words
Acordei com a cabeça latejando como se alguém estivesse martelando dentro do meu crânio. A luz que entrava pela fresta da cortina era uma agressão. Minha boca estava seca, com um gosto horrível de bebida alcoólica misturado com bile. Rolei na cama gemendo baixinho, o corpo pesado, os músculos doloridos de tanto dançar. — Meu Deus… nunca mais — murmurei, apertando as têmporas. As memórias da noite anterior chegavam em flashes: as luzes do baile, o funk pesado, o cheiro de pólvora, e ele. Dori. O jeito como ele me olhava, o toque firme mas controlado no meu braço, aquela voz grave dizendo “Tu já tá me vendo demais”. Senti um frio na barriga só de lembrar. Levantei devagar, o quarto girando um pouco. Fui até o banheiro, lavei o rosto com água gelada e escovei os dentes com força, tentando tirar aquele gosto r**m. Olhei no espelho: olheiras, cabelo bagunçado, um leve roxo no braço onde Conrado tinha apertado ontem. Suspirei. Desci as escadas devagar, cada passo ecoando na minha cabeça. O cheiro de café fresco e pão na chapa veio da cozinha e me deu um conforto imediato. Meu pai estava sentado à mesa, como sempre, lendo o jornal impresso enquanto tomava café. Ele levantou o olhar quando me viu e abriu aquele sorriso carinhoso que sempre me derrete. — Bom dia, meu docinho. — Bom dia, pai — respondi, dando a volta na mesa e plantando um beijo na careca dele. Sentei ao seu lado, me servindo de uma xícara grande de café puro. — Nossa… tô de ressaca, pai. Minha cabeça tá explodindo. Ele riu baixinho, dobrando o jornal. — A noite foi boa? Se divertiu? — Sim, foi bem divertido. Eu tava precisando, sabe? Fazia tempo que não saía pra dançar, rir de verdade, sem… — parei, sem querer completar a frase. Meu pai me olhou com compreensão. Ele sempre entendia mais do que eu falava. — Claro, docinho. Já te disse… o Conrado pode até ser um bom homem em alguns aspectos. Tem posição, tem futuro, te trata bem na maioria das vezes. Mas ele te sufoca. Te limita demais. Eu sei que um pai normal não aprovaria a filha chegar em casa bêbada. Mas eu prefiro ver você assim, com ressaca e sorriso no rosto, do que te ver chorando trancada no quarto. Ele ficou em silêncio por um momento, mexendo o café. Eu sabia que ele estava lembrando do passado. — Se tem uma coisa que eu aprendi no casamento com a sua mãe é que amar não dói. Amar não machuca. Amor de verdade não te faz se sentir presa, não te controla. Sua mãe… ela me traía, brigava por tudo, me humilhava. Quando eu tentei lutar pela recuperação do nosso casamento, ela preferiu ir embora com o amante. Achou que tinha encontrado algo melhor. Não durou nem um mês. O cara deu um pé na b***a dela e ela voltou com o r**o entre as pernas. Mas eu já tinha desistido. Hoje ela tá casada, feliz com outra pessoa. E eu… eu sobrevivo por você, Mel. Você é o motivo de eu ainda levantar todo dia. Senti os olhos marejarem. Estiquei a mão e segurei a dele por cima da mesa. — O senhor é o melhor, sabia? — falei, sorrindo pra ele com o coração apertado. Ele riu tímido, daquele jeito dele que sempre me emociona. — Agora preciso ir. Tenho reunião na hora do almoço, mas antes tenho que organizar as planilhas. Te amo, docinho. — Também te amo, pai. Ele deu um beijo carinhoso na minha testa, pegou a pasta e saiu. O apartamento enorme ficou em silêncio. Fiquei sozinha na mesa da cozinha, tomando o café devagar. Os flashes da noite voltaram com mais força. Dori segurando meu braço quando eu ia embora. O toque dele foi firme, quente, mas não machucou. Foi como se ele quisesse me manter ali mais um pouco, mas respeitando meu espaço. Já Conrado… Conrado tinha apertado meu braço com raiva ontem, torcendo a pele, deixando marca. Ele sempre fazia isso quando perdia o controle. Por que eu estava comparando os dois? Dori era o dono de um morro. Traficante. Perigoso. Mas em poucos minutos ele tinha me feito sentir viva. Curiosa. Desejada de um jeito que não era sufocante. Conrado me queria obediente, controlada, quieta. Dori… Dori parecia querer me ver exatamente como eu era: bagunçada, bêbada, falando demais. Passei o dedo no leve roxo do braço. Doía um pouco. Mas o que mais doía era a sensação de que eu estava traindo algo só por estar pensando no outro homem. Meu celular vibrou em cima da mesa. Peguei com o coração acelerado. 📲 Conrado: Vem aqui em casa. Minha mãe tá de pé, quer te ver. Não me envergonhe. Fechei os olhos e respirei fundo. A mensagem era típica dele: ordem disfarçada de pedido. “Não me envergonhe.” Como se eu fosse uma criança que precisava de instruções pra se comportar. Levantei, coloquei toda a louça do café na lava louças e subi pra tomar banho. Enquanto a água quente caía nas minhas costas, fechei os olhos e lembrei do olhar do Dori. Daquela intensidade quieta. Do jeito e ele disse “Tu já tá me vendo demais”, como se estivesse lutando contra si mesmo pra não me puxar de volta. Saí do banho, me vesti com uma roupa simples — calça jeans e blusa branca — e me olhei no espelho. Estava bonita, mas cansada. A ressaca ainda martelava. Peguei o celular e respondi Conrado com uma mensagem curta: 📲 Eu: Tá bom. Chego em uma hora. Ele visualizou na hora e respondeu com um simples “Ok”. Enquanto me arrumava, não conseguia parar de pensar. Conrado, me via como propriedade. Algo que ele precisava controlar pra manter a imagem de homem perfeito: major do BOPE, filho de família tradicional, futuro brilhante. Sentei na cama por um momento, o celular na mão. Abri a galeria e fiquei olhando as poucas fotos borradas que tirei no baile. Nenhuma dele, claro. Mas eu lembrava de cada detalhe: o cordão pesado, as tatuagens, o jeito como ele dominava o espaço sem precisar gritar. — O que eu tô fazendo? — sussurrei pra mim mesma. Eu tinha um namorado. Um homem poderoso, ciumento, controlador. E estava pensando em um traficante que eu conheci ontem. Isso era loucura. Perigo puro. Mas era a primeira vez em muito tempo que eu me sentia atraída de verdade. Não por status, não por segurança, não por conveniência. Era atração crua. Química. Curiosidade. Medo misturado com vontade. Levantei, peguei a bolsa e desci. Antes de sair, passei no quarto do meu pai e deixei um bilhete na mesa: “Fui encontrar o Conrado. Te amo. Não se preocupe.” Entrei no carro, liguei o som baixo e dirigi até a mansão da família dele. Durante o caminho, a ressaca misturada com ansiedade me deixava enjoada. Toda vez que parava no sinal, olhava pro morro ao longe e meu coração acelerava. Será que Dori estava pensando em mim também? Ou eu era só mais uma patricinha insignificante e bêbada que passou pelo baile dele? Cheguei na casa do Conrado. A BMW dele já estava na garagem. Respirei fundo antes de descer. Eu sabia que ia ter que fingir. Sorrir. Ser a Mel obediente que ele gostava. Mas pela primeira vez, eu não tinha certeza se conseguiria. Porque uma parte de mim ainda estava lá em cima, no meio do funk, olhando para um homem perigoso que me fez sentir viva. 💌 Rede Social: @crisfer_autora
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