Não parece que isso está realmente acontecendo. Por alguns segundos eu fechei os olhos na tentativa de que quando os abrisse, eu acordaria do pesadelo.
Mas não, é a droga do globo azul rotativo que novamente fez questão de mostrar que está cagando para o que queremos ou planejamos. A terra voltou a girar trezentos e sessenta graus e fez a maior bagunça da minha vida.
Demorei anos para começar a tentar voltar a vida de verdade, a viver no sentido um pouco mais pleno da palavra, e agora tudo vai por água abaixo em apenas um maldito segundo.
Foram dez anos, dez malditos anos onde o homem acreditou que eu estava morta.
Dez anos que fiquei longe do amor da minha vida, do homem que tinha todo o meu coração e corpo – ao menos o meu coração ainda é dele, mesmo que ele não o queira mais.
Foi um choque quando eu o vi com Ashley, mas preferi evitar notícias sobre ele para não mexer em uma ferida sangrando. Porém, talvez fosse melhor se eu soubesse antes que Trevor iria se casar. Eu não estaria assim, parada na frente dele como uma i****a que nunca conseguiu esquece-lo.
— Isso é algum tipo de piada? Você... Você está morta... — Fala mais para si mesmo, tentando se convencer que isso não é possível.
— Vocês se conhecem? — Minha chefe questiona, confusa. Marian e Ashley estão sentadas, assistindo a cena. Eu não consigo me mover e Trevor não tira os olhos de mim.
— Um pouco. — Forço as palavras a saírem, meus olhos lacrimejando e um sorriso fraco no rosto.
— Com licença, senhoras. — Trevor se despede das duas, não entendo suas intenções a tempo, não antes dele agarrar meu braço com uma mão forte e sair me arrastando.
— O que está fazendo? — Seus dedos apertam com força minha pele, tanto que espreme minha carne no osso fazendo doer.
Não obtenho resposta, até estarmos em um canto particular, afastados das mesas. Trevor passa longos minutos me encarando, a ponto de me deixar desconfortável. Meu coração não conseguiu seguir um ritmo só desde que encontrei com ele, fazendo emoções que nunca deixaram de existir colidir no meu corpo inteiro.
— Eu estou esperando uma explicação, Roseline. — Afirma em tom autoritário.
Não sei o que ele espera de mim, se alguém aqui teria o direito de pedir explicações sou eu. O homem está prestes a se casar, fui escolhida para organizar o seu casamento e está olhando bem em meus olhos achando que eu devo algum tipo de explicação ou satisfação a ele.
Eu aceito que ele siga em frente, que ele seja feliz com outra. Mas não posso aceitar isso, ser tratada como se fosse culpa minha.
Trevor não tem noção de tudo que eu perdi naquele dia, nem do que eu passei depois dele.
— Acha que eu devo alguma satisfação a você, Trevor? — Sorrio irônica.
— Você morreu, c*****o! — Rosna, visivelmente alterado. — Você morreu nos meus braços, eu assisti, eu... Rose, por Deus, diga algo...
— Não sei o que posso te dizer. Eu... não morri. — O que ele espera que eu diga?
— Você diz isso assim olhando bem dentro dos meus olhos? Você tem noção do que aquilo fez comigo? Como pôde...
— Eu tenho uma noção. — Faço sinal com a cabeça, mostrando a mesa onde a noiva dele nos assiste.
— Não pode me culpar por seguir em frente, não quando você se escondeu por dez anos. Você não tem noção, Rose...
— Trevor! — Sou firme. — Você tem uma noiva. Eu sou apenas seu passado. Tudo que posso fazer é desejar sua felicidade, mesmo... que seja com ela.
— Rose... — Sai quase como uma suplica. Chega doer. Meu coração não funciona igualmente nunca. — Eu não poderia imaginar isso.
— Está tudo bem, eu juro que está. — Eu me forço a segurar suas mãos, sem me preocupar com a plateia. Amigavelmente, minha preocupação é deixá-lo bem. — Eu sei que você não sabia e tudo que eu quero, é que possamos seguir em frente. Eu sou seu passado, Trevor, você escolheu Ashley como seu futuro.
— Vai organizar nosso casamento? — Sua voz é irônica, mas eu entendo a carga que leva. — Você é capaz disso?
Me lembro de tudo que já fiz anteriormente, de tudo que perdi, eu vejo muito que abri mão. Um filme longo demais e que só eu conheço os detalhes passa em minha cabeça, me fazendo saber exatamente qual é o final.
— Eu sou capaz, Trevor. — Eu prendo minhas lágrimas com um sentimento tão grande, que prefiro a morte mil vezes. — Não subestime a minha capacidade de fazer o mesmo que você. Você seguiu em frente, eu também irei.
— Roseline! — Chama firme, em tom de aviso. Ainda é estranho ouvir meu nome sendo pronunciado por ele de novo, até a forma que seus lábios se movem é diferente. Trevor espalma as duas mãos em mim, cada uma apertando um ombro meu, ele só falta me balançar como se quisesse que eu caísse em mim. — Não percebe o que está fazendo, nem tudo que fez? Tudo seria diferente se eu soubesse que estava viva. Eu passei anos de tormento sendo que você poderia acabar com isso... em segundos.
— Você se saiu muito bem sem mim. Como nós dizíamos mesmo? — Faço uma pausa, com as lágrimas enchendo meus olhos e fingindo uma força que eu não tenho. Minha alma inteira está sangrando. — “Não o bastante para viver sem você.”? — Sorrio irônica. — Acho que você me amava o suficiente para isso então.
— Rose...
— Pare de dizer meu nome como se estivesse se convencendo de algo! Sim, eu estou viva!— Acabo cedendo as lágrimas, algumas solitárias e silenciosas escorrendo pelo meu rosto. — Eu não te culpo, Trevor, sinceramente, eu estou feliz por você. Eu juro que estou! Quando eu tomei aquele tiro, eu não perdi a vida mas ... eu entendo que perdi você.
— Essa palhaçada durou tempo demais! Eu vou...
— O vai fazer? — Eu o interrompo e agarro seu pulso antes que ele se afastasse, pois Trevor fez menção de ir a mesa.
Meus olhos crescem, minha mão não fecha ao redor do pulso largo. Nunca pensei que eu voltaria a toca-lo, a sentir sua pele, a estar frente a frente com ele. Mas aqui estou eu, tentando evitar um escândalo na reunião de preparação para o casamento de Trevor Chevalier.
— Terminar isso.
— Você é Trevor Chevalier, tem um nome a zelar e está noivo. — Relembro. — Olhe para ela... — A contragosto, ele vira sua cabeça onde está Ashley. — Ela não merece isso, eu sei, ninguém merece. Isso é realmente uma bagunça mas... não foi ela quem a fez. Aquela garota te ama! Não vale a pena ferir um coração desse jeito por mim. Lembre-se do que eu falei, eu sou seu passado, ela é o seu futuro.
— Então o que sugere que façamos? — Ele volta a assumir uma postura mais fria, erguendo o queixo e ajeitando o paletó.
É estranho, estranho demais. Parece que tem um outro homem em minha frente, um bem diferente do que eu um dia amei. Em alguns poucos segundos eu vi resquícios nele da alma do Trevor – do meu Trevor. Mas essas pequenas partículas ficam sempre bem escondidas, é como se ele tivesse feito uma programação em si mesmo e se tornado uma máquina.
— Vamos voltar para lá, diremos que resolvemos nossas questões e se Ashley ainda quiser, farei do casamento de vocês algo belíssimo. — Por favor, Trevor, diga que não... Insista mais um pouco em mim dessa vez.
— Já que é assim, o que ainda estamos esperando? Fico feliz que tenhamos resolvido nossas questões então. — Friamente, ele aceita. Finjo um sorriso, limpando as lágrimas que escorreram e tentando colocar uma máscara também, mas infelizmente não sou tão boa nisso quanto ele. Aceno para ele e caminho em direção a mesa, mas antes disso, ele agarra meu braço novamente e me faz parar. Olho em seus olhos, gélidos como iceberg. Não há mais amor dentro deles, apenas dor, e isso é o que me aconteceu de pior, ter Trevor olhando para mim carregando nossas memórias mas sem uma gota do amor que queima em meu peito. — Só mais uma coisa. Eu vou permitir que faça isso, mas lembre-se, não espere mais nada de mim. Eu te dei essa opção hoje, não serei mais tão bonzinho. Nosso contato será estritamente profissional, não quero ter que olhar para você mais do que o necessário, de preferência resolva as coisas do casamento com Ashley ou um intermediário. Depois que isso acabar você sai da minha vida novamente e não volta a aparecer em minha frente. Você passou anos morta, escondida, então que continue assim. Minha Rose morreu há dez anos atrás, você não é ninguém para mim.
Nem ter um teto despencando em cima de mim após um tiro doeu tanto quanto as palavras carregadas de ódio que Trevor dispara. Como eu disse, esse não é o homem que eu me apaixonei, eu o perdi naquele dia, mas ele também se perdeu. Meu Trevor nunca seria capaz de falar com alguém assim, esse, não se importa com o rastro de corações partidos que deixa.
Não consigo responder. Como poderia? Quais seriam as palavras certas para isso?
Meu coração dói tanto que é difícil respirar, Trevor se afasta me deixando puxando ar com força e agora chorando silenciosamente. Eu não tenho condições de voltar para lá, já falei que eu cuido do casamento se Ashley assim quiser, também posso me comunicar com Marian depois. Se eu tiver que perder o emprego, tudo bem, eu prefiro isso que olhar para ele de novo agora.
Eu só preciso sair daqui, mas parece que estou paralisada no lugar enquanto Trevor caminha sem olhar para trás.
Tento respirar, mas meu coração e os tremores no meu corpo tornam impossível. O desespero, a dor, a angústia, tudo isso me faz andar cambaleando pelos corredores até a saída do restaurante. O som das buzinas tornam-se altos demais para mim, fazendo minha cabeça doer como se fosse estourar. Não sou capaz de me mover, nem chegar a qualquer lugar sozinha, eu aprendi a reconhecer isso há muito tempo.
Antes do acidente eu tinha toda a minha independência, não apenas financeira. Eu andava essa cidade inteira, conhecia os melhores lugares, saia e chegava a qualquer hora – e ainda tinha a ajuda e companhia do meu noivo. Eu era uma profissional jovem e corajosa. Mas depois do acidente, eu precisei reconhecer e entender alguns limites. Claro que isso doeu também, foi difícil perder também essa parte minha, mas agora já é algo normal para mim.
Eu tenho crises, eu tenho recomendações a seguir e sei que dependo da ajuda de outros quando isso acontece. Não é uma humilhação, é humildade.
Ligação on ~
— Ma... — Minha voz falha. — Mãe?
— Rose? Você está bem, filha? — Se preocupa, já entendendo que há algo errado.
— Eu não consigo... não consigo respirar... por favor, me encontre.
— Onde você está? Estou indo agora, não saia daí.
— Vou em... enviar. — Torço para minha voz realmente estar saindo.
Ligação off ~
Eu sei que não tenho muito tempo, então com os dedos trêmulos e quase sufocando eu envio para minha mãe a localização. A dor em minha cabeça vai piorando tanto que temo que a sensação de que meu cérebro vai estourar seja mais que apenas uma sensação, seja real.
A falta de ar atinge um nível que torna tudo insuportável. É por isso que eu sinto meu corpo pesado despencando no chão e não consigo mais me manter consciente, fechando os meus olhos.