— Roseline, recebi um pedido hoje. É a sua deixa, quer mesmo recomeçar? — Já faz um tempo, muito tempo.
Todos seguiram sua vida, já eu, estou presa ao que aconteceu há anos atrás. Mas dessa vez chegou a hora de eu recuperar os anos perdidos, pelo menos no meu trabalho, que eu sempre fiz com amor e foi importante para mim.
— Sim, Marian, eu estou pronta. — Garanto, ouvindo o sorriso da minha ex-chefe do outro lado da linha, disposta a me ajudar.
Claro que é algo bom para ela também, eu realmente sempre fui uma excelente profissional. Eu cobria eventos em feriados, cobria falhas, organizava reuniões importantes. Esse sempre foi o meu negócio. Apesar de estar retornando, tenho certeza que Marian já está pensando no resultado futuro de me ter de volta.
— Então nos vemos amanhã. Marcarei uma reunião com o casal para você conhecê-los e iniciar o projeto. — Isso! Dou um soquinho no ar.
Sei que vai ser difícil, em especial organizar casamentos. Um dia foi o meu que eu organizava, com todas as honras, escolhendo até os guardanapos, para que eu pudesse me lembrar o resto da vida. Bom... Eu realmente vou lembrar para sempre. Lembrarei como o casamento que nunca aconteceu.
— Até amanhã, Marian. Obrigada pela oportunidade, tenho certeza que uma grande etapa se inicia amanhã. Nós faremos grandes coisas. — Afirmo, agradecendo a Deus por ter conseguido o emprego de volta.
Isso é a única coisa que consigo fazer bem, eu adiei o máximo que consegui mas a situação financeira de casa tornou-se insustentável. Além disso, esse dom que eu tenho, é a única coisa que me restou.
Encerro a ligação.
Hoje é um grande dia para mim, voltei a morar com meus pais depois do incidente, mas tudo que eu pude trazer do meu antigo apartamento está nesse quarto. Preciso organizar muitas coisas antes de voltar a trabalhar, documentos, roupas apresentáveis para ir a reunião, repassar as questões de praxe para ter certeza que eu não esqueci.
Começo a revirar as coisas em busca dos documentos, pastas e livros onde devo ter guardado minha carteira de trabalho, diplomas, currículo, tudo que é necessário para atualizar a minha ficha na empresa. Passo muito tempo revirando os livros, sentada no chão do quarto, quando encontro uma folha de ofício solta entre as páginas de um caderno.
Franzo o cenho, até começar a ler o conteúdo e me desarmar. Mas o pior é que esse desarme inclui uma grande dose de amargura, tristeza, decepção e um grande coração partido. É uma carta escrita a mão por aquele que um dia foi a minha vida, Trevor Chevalier.
“ Minha amada Rose.
Acordei hoje com uma grande e terrível sensação em meu peito. Uma espécie de vazio, pois você não estava deitada nele, meus dedos não estavam brincando com as ondas nas pontas dos seus cabelos, eu não sentia o seu cheiro.
Sei que posso ser difícil as vezes, que nós ainda estamos aprendendo como é amar tanto outra pessoa. Mas desde que decidimos nos casar, todos os dias que acordo sem você se transformaram em um martírio, minha linda noiva.
Por isso eu te peço, encarecidamente, que não desista de mim.
Apesar de qualquer erro meu, de qualquer lugar que eu esteja ou quantos dias se passem, eu sempre serei seu e meu coração um lar seguro para você voltar. Eu te juro amor eterno, Rose, pois eu conheço o amor indomável que acometeu todo o meu ser desde que olhei em seus olhos celestes.
Perdoe-me, Rose, por ser um i****a as vezes.
Mas o erro que eu nunca vou cometer, é o de te amar menos do que ontem. Meus sentimentos por você não são capazes de envelhecer, meu bem.
É por isso que ao invés de um contrato de trabalho, eu estou escrevendo a mão esse contrato.
Eu, Trevor Chevalier, acordo solenemente e por livre e espontânea vontade que meu coração pertence a Roseline Cooper enquanto eu respirar. Sem condições, sem chances de devolução e multa de uma eternidade.”
No final da carta, dois espaços para assinatura e a rubrica minha e a do Trevor. Não posso evitar o sorriso fraco em meus lábios e as lágrimas silenciosas escorrendo pelo meu rosto. É como se eu vivesse com milhões de agulhas em meu coração, bem enfiadas. Todas as vezes que eu respiro, dói, dói muito.
— Filha? — Quando ouço a voz da minha mãe, largo a carta e passo os dedos trêmulos nas minhas bochechas úmidas. — Rose?
— Sim? — Coloco uma máscara que não é capaz de enganar ninguém, muito menos uma mãe. Mesmo assim, mantenho um sorriso falso mesmo com meus olhos marejados.
— O que está fazendo? — Minha mãe se aproxima, senta ao meu lado e pega a carta que despencou de minhas mãos.
— Eu estou procurando meus documentos para levar amanhã, bom... eu consegui o emprego. — Dou de ombros, falhando miseravelmente em controlar o meu choro. Quando olho nos olhos da minha mãe e vejo neles tudo que passei nesses anos, não consigo conter os soluços.
— Está tudo bem, meu amor. — Minha mãe puxa meu corpo para um abraço.
É o que dizem sobre o abraço de mãe, é único. Mas nem o melhor dos abraços é capaz de concertar o que está quebrado em mim. Apesar disso, me encolho nos braços dela como se eu fosse uma garotinha de cinco anos. Meu peito sangrando como se eu tivesse acabado de levar um tiro, e de tiro eu entendo bem...
— Por que ainda dói tanto, mãe? — É bom ter um lugar quentinho para desabar.
Não, Trevor Chevalier nem rescindiu nosso contrato antes de descumpri-lo. Ele entregou a outra o seu coração. Ele não foi capaz de esperar como disse que o faria.
— Histórias inacabadas tendem a doer muito. — Ela não me solta. — Você cometeu um grande erro, Rose.
— Não insista, mãe. — É como se ligasse um botão, me fazendo relembrar todos os trágicos motivos de eu ter tomado a decisão de deixar Roseline morta. Me afasto dela, ajeitando o moletom que cobre meu corpo e suspirando fundo. — Foi a melhor decisão.
— Não sei se ele concordaria com isso.
— Ele abriu mão de opinar.
— Tudo bem, não vamos mais falar nisso. Você tem a sua vida, é o que importa. Estou feliz que tenha conseguido trabalhar novamente, é um grande passo. — Sorrio, realmente animada sobre esse assunto e tentando me concentrar apenas nisso.
— Sim, uma nova vida começa hoje.
Essa é a minha esperança, ter a chance de ter a vida que eu abri mão a dez anos atrás. É claro que eu não poderei recuperar tudo, mas uma parte de mim ainda é possível salvar e eu não vou desistir. No que eu puder, serei a Rose.
•••
Escolho um vestido xadrez, no meio da coxa em vários tons de verde. Completo com uma boina por cima dos cabelos soltos, apenas penteados para soltar as ondas nas pontas. Uma botinha cano curto deixa o look perfeito. Faço uma maquiagem simples para o dia e me olho no espelho, é a primeira vez que me sinto viva realmente após tantos anos.
Depois daquela manhã, que tomei aquele tiro e o prédio desabou em nossas cabeças, eu deveria ter morrido, mas isso não aconteceu por um milagre. Nem mesmo meus pais tinham esperança, eles também acreditavam que eu tinha sido esmagada pelas destroços da casa. Toda a equipe médica morreu, apenas eu sobrevivi. Eu, a minha vida, é um milagre.
Chegou uma nova remessa de médicos, me tiraram de lá, mas eu não estava com documentos e não conseguiram me identificar.
Eu passei dois anos em coma, sem abrir os olhos, passei por várias cirurgias. Quando acordei, eu não me lembrava de nada, nem mesmo do meu nome. Eu era uma folha em branco.
Voltei a falar, a andar, era como uma criança que precisava dos outros para tudo, que precisava ser ensinada. Minha memória me deixou por cinco anos, até voltar a mim em um sopro. Eu estava tomando café da manhã um dia, comendo panquecas, quando senti várias pontadas em minha cabeça e com elas, eu me lembrei de tudo.
Encontrei meus pais, para me atualizar sobre o que perdi, conheci apenas o que me contavam e passei por fisioterapias para me recuperar. Lá estava minha infância, os momentos com meus pais, meu emprego, estava Trevor e toda a nossa história, estava aquela fatídica manhã...
Claro que eu tentei encontrá-lo também, depois de sete anos desaparecida contando os dois em coma e os cinco para a memória retornar. Trevor disse que sempre estaria lá, mas não, ele não estava. Fui para o endereço da Cybernetics Palace, que havia se tornado ainda maior e brilhante, eu admirava com ânsia e olhos marejados o que meu amado havia se tornado.
Meu coração estava batendo tanto que doía, minha caixa torácica doía. Eu tremia dos pés a cabeça a beira de um ataque de histeria. Mas Trevor não saiu sozinho da empresa, antes que eu pudesse encontrá-lo, eu o vi. Ele estava com Ashley agarrada em seus braços, a advogada da empresa. A bela morena sorria, se pendurava no corpo dele e ele a guiava até o carro – que por sinal era o dos sonhos dele que sempre comentávamos, um Rolls-Royce.
Foi ali que eu me senti morrer novamente. É claro que não é culpa dele, eu estava morta, sete anos haviam se passado. Mas como eu poderia explicar isso ao meu coração machucado?
Trevor seguiu em frente, eu não tinha o direito de bagunçar sua vida sem saber nem quanto tempo ele demorou para arrumar. Eu estava feliz por ele. O homem que eu conheci, que eu me apaixonei, amei, que eu iria me casar, merece toda a felicidade no mundo mesmo que não seja comigo. Aqueles olhos que um dia me encaravam com tanto amor e admiração, agora brilhavam por outra pessoa.
Eu ainda o amo, é por isso que para ele, Rose deveria continuar morta.
— Bom dia, eu tenho reserva no nome de Marian Taylor. — Aviso na entrada do restaurante e sou liberada.
— Bom dia. — Me recebe amigavelmente e confere algo em seu tablet. — Pode seguir direto por aqui.
Ele mostra a minha direita e depois de agradece-lo, vou andando pelo caminho indicado. De frente consigo ver Marian, de costas está um casal que não consigo ver o rosto. Um homem todo em um terno visivelmente caro de um tom amadeirado, seu corpo é gigantesco em comparação ao corpo franzino das duas mulheres.
Não entendo o porque meu coração acelera tanto, pulsando sem freio em meu peito. Franzo o cenho, me aproximando lentamente do casal que acho familiar. Eu reconheço esse corpo de algum lugar, os cabelos aloirados por causa do sol. Mas não penso muito, seria ridículo o que estou pensando. Não é ele.
— Aí está ela, a garota fantasma, mais conhecida como... — Marian se anima ao me notar, abro um sorriso, disposta a ser o mais calorosa possível nesse recomeço. Mas quando os dois viram para me olhar, meu riso vai desaparecendo. — Roseline Cooper.
Meu coração para.
Não consigo continuar caminhando, eu prendo os pés no lugar como se pesassem cem quilos cada um. Algo acontece no meu peito e em minha cabeça, ouço tudo apenas como um som distante, pois o m*l estar em meu corpo me deixa tão tonta que reviro os olhos.
É ele, o Trevor.
Ashley ao seu lado está tão pálida quanto eu. Mas minha atenção é apenas para ele, que me olha como se eu fosse exatamente o que Marian falou, um fantasma. Meus olhos estão imóveis, mas ainda assim, carregados de memórias, eu não consigo me mover nem desviar meu olhar do dele nem por um segundo.
Depois de dez anos, aqui estou eu, frente a frente com meu ex-noivo, bem como a mulher que ele vai se casar.
Tentando recuperar o mínimo de dignidade possível, me mexo em passos lentos, um pé após o outro até alcançar a mesa. Confusa, Marian – que nunca conheceu meu noivo por não se importar com a vida pessoal dos empregados – está em silêncio. Seguro a mesa com as duas mãos, com medo de minhas pernas não serem o suficiente para me sustentar.
— Esse é Trevor e sua noiva, Ashley. Tenho certeza que vão se dar muito bem. — É quando Marian nos apresenta, achando que há a necessidade para isso, que Trevor fica de pé.
Os anos o fizeram ainda melhor. As feições mais maduras e experientes, a barba perfeitamente alinhada, os cabelos que adorava tocar estão um pouco mais escuros mas com aquele reflexo loiro magnífico. Seu tamanho aumentou, não sei se foi a malhação que ele era muito rigoroso, mas eu sei que ele está com um físico simplesmente perfeito. Seu cheiro me faz dar uma volta no passado, nas manhãs que amanhecendo juntos Os olhos... droga... os olhos...
Não consigo conter uma lágrima solitária que escapa pelos meus olhos.
— Ro...Rose? — Gagueja, como se quisesse confirmar se eu realmente estou aqui.
— Olá, Trevor.