(Dez anos depois)
Finalmente acabou, mais um cansativo e costumeiro lançamento em minha rotina. Temos online mais uma grande inovação da Cybernetics Palace. Há anos se houve falar da época em que o mundo será dominado por máquinas, não estou contribuindo para a dominação, mas faço parte do time da tecnologia.
Agora há um pequeno robô. É como a inteligência artificial da Alexa, com funções mais aprimoradas, contando também com braços e pernas para conseguir executar variadas ações. É simplesmente incrível, m*l posso esperar para finalmente conseguir terminar o projeto do chip.
— Parabéns, Sr. Chevalier. — Ashley entra no meu escritório, animada e distribuindo sorrisos. Ela nem espera qualquer permissão, apenas se aproxima e lança seu corpo no meu, em um abraço onde faz questão de acariciar meus braços com as duas mãos. — Está tudo repercutindo muito bem, você é um sucesso!
— Obrigado, Ash. — Finjo um sorriso, dou um tapinha em suas costas e me afasto o mais rápido que posso.
— Por favor, Trevor. Hoje é um dia importante para a empresa, para todos nós, para você! Não está feliz? — Eu não sei bem o que essa palavra representa, seu significado é tão inalcançável que me parece inexistente. — Nem assim você sorri?
— Estou feliz, acredite em mim, pode não parecer mas estou pulando de felicidade por dentro. — Sento em minha cadeira presidencial e abro o notebook, sabendo que já terei muito o que fazer agora que acabei de lançar o robô.
— Ter...
— Te vejo mais tarde, Ashley? Eu preciso trabalhar. — A interrompo, sem muita vontade para conversa agora.
Não percebi sua aproximação, distraído encarando a tela em minha frente, então me surpreendo quando sinto seus lábios se fechando em minha bochecha para um beijo estalado.
— Hoje temos um jantar na casa dos seus pais, querido, não esqueça. — Sorri, me fazendo sentir desconfortável de tamanha empolgação. — Eu te amo.
— Não esquecerei. — Me despeço.
Como eu esperava, vários e-mails pedindo informações e reuniões sobre o novo lançamento. As pessoas querem saber mais, querem ser os primeiros a iniciar parcerias comigo, as lojas já querem saber quando eu vou disponibilizar as vendas, entre outros. Eu preciso organizar tudo muito bem e pensar qual melhor opção para a empresa – que atualmente, é o que me mantém tão funcional.
•••
Após finalizar o que precisava fazer ainda hoje, fecho tudo, libero Emma – minha secretária – e espero no carro Ashley aparecer. Passo bem uns vinte minutos parado na garagem da empresa esperando sua boa vontade de dar as caras, tempo demais para testar a minha paciência.
Quando ela aparece saindo das portas do elevador alguns metros a frente, percebo o motivo da demora, ela precisou trocar toda a sua roupa para ir ao jantar com meus pais – mesmo já estando perfeitamente vestida antes. Não é como se precisasse de um banho, se renovar após o trabalho, apenas mais um capricho da mulher que vou me casar um dia.
— Querido... — A primeira coisa que faz ao entrar é se jogar em cima de mim, envolvendo meu pescoço com as duas mãos e beijando o canto da minha boca. — Eu não via a hora de vê-lo de novo.
Apenas forço um sorriso e começo a dirigir até a mansão dos Chevalier, Ashley passa o percurso sempre verificando o estado do seu batom pelo espelho do carro. Estou mentalmente exausto depois do dia inteiro trabalhando, eu m*l dormi para ter certeza que estava tudo bem com o lançamento. Por isso, decido poupar a minha mente durante o caminho, afinal também sou humano.
Passo pelos enormes portões de ferro da residência dos meus pais após ser liberado imediatamente pelos porteiros e estaciono na frente da escadaria principal. Logo sou recebido pelo motorista da família que fica a disposição para receber e estacionar os carros quando não está conduzindo um dos membros. Ajudo Ashley a subir as escadas e somos recebidos por uma das empregadas, que recebe o casaco da minha noiva e meu paletó.
— Obrigado... — Essa deve ser nova por aqui, verifico seu crachá mesmo sabendo que em alguns minutos não me lembrarei mais do seu nome. — Lucy. — Ela sorri sem graça e evita olhar muito para mim. — Onde estão meus pais, já na sala de jantar? Tivemos um pequeno atraso.
— Não, eles e os outros convidados os aguardam na sala de estar. — Outros convidados? Droga, mãe! Lucy nos acompanha até encontrarmos o circo que meus pais formaram em sua própria sala de estar.
Além dos meus pais, há minha irmã mais nova, Aurora. Também convidaram meu único amigo nesse mundo que não é da minha família carnal, Thomas. Mas o problema está nos outros dois casais que vieram com certeza terminar de tirar a minha paz.
— Boa noite. — Cumprimento educadamente a todas já me aproximando dos meus pais, recebendo o abraço de minha mãe. — Como vai a minha rainha?
— Bem, querido, com saudade de você. Que bom que veio! — Minha mãe me aperta em seus braços, eu envolvo seu corpo pequeno com um braço e já aperto a mão do meu pai com a outra mão.
— Eu estou aqui.
— Por um grande milagre. — Retruca meu pai, sorrindo. — Sabem... É um sacrifício tirar esse homem de casa ou conseguir encontrá-lo.
— Acha que não sabemos? — O homem da família De la Cruz concorda, me fazendo forçar um sorriso novamente.
Ashley aproveitou para se enturmar com as mulheres, fazendo questão de expor seu anel de noivado e sorrindo como se fosse uma princesa que finalmente encontrou seu príncipe. Quando ela percebe que eu a assistia, ela retorna ao meu lado, agora cumprimentando meus pais que estão livres para dar alguma atenção a ela depois de me babarem o suficiente – mesmo que eles discordem do que essa palavra significa.
— Bom te ver, Ash. — Minha mãe a cumprimenta, minha noiva abraça os dois sorridente.
— É um prazer estar aqui, fiquei muito feliz com o convite, de verdade!
— Você é noiva do meu filho, menina. É claro que seria convidada, afinal, em breve seremos todos uma única família. — Meu pai faz questão de lembrar, mas é para mim que seus olhos estão direcionados.
— Continuem, por favor, eu já volto. — Eu permaneço sério, acenando para eles com a cabeça para me despedir e indo em direção a Thomas.
Esse sim sabe como aproveitar, está sozinho, afastado de todos, parado ao lado de uma parede de vidro que há na sala e encarando o lado de fora com um copo de whisky na mão. Caminho até ele, passando por uma Aurora desanimada sentada sozinha no sofá. Apesar de mais nova, e seus vinte anos de vida, minha irmã é a que mais me entende apesar de eu ter o apoio de toda a família.
— O que houve, princesa? Por que está com esse negócio estranho no rosto? — Ela olha para mim, estava tão distraída que não havia percebido que eu havia chegado.
— Trevor ... — Força um sorriso, fica de pé e me abraça apertado. É o único momento que eu chego perto de sorrir de verdade, curvando os lábios. Retribuo seu carinho, passando uma mão ao redor da sua cintura fina. — O que há no meu rosto?
— Essa tristeza, eu não gosto dela em seu rosto. — Sorri, achando graça realmente.
— Quer mesmo falar disso comigo? — Um a zero para Aurora. Eu realmente não tenho moral nenhuma no assunto.
— Tudo bem, pequena. Mas sabe que pode falar qualquer coisa comigo, não sabe? Eu sempre vou estar aqui para você. — Faço questão de lembra-la. O sorriso sincero em seu rosto vale qualquer coisa para mim. Eu queimaria o mundo por minha irmã. — Ainda está indo regularmente para a terapia, não está?
— Sim, não se preocupe, eu não deixei de ir. E você, como está? — Acena com a cabeça em direção a Ashley.
— Como você vê. — Dou de ombros.
— Sabe que isso é loucura, não sabe?
— E que escolha eu tenho, minha irmã? — Eu não quero estender esse assunto, ter que rever mentalmente imagens que tento esquecer há dez anos mas me assombram todas as noites. Aurora tem problemas emocionais, não se sabe quando ela vai conseguir ter um relacionamento. Meus pais realmente querem ver um dos filhos casados, em especial o filho mais velho. Eu sei que não posso amar, nunca, não novamente. Mas não preciso de amor para me casar. Também não prometi amor a Ashley, eu prometi cuidar dela e unicamente isso. — Vou falar com o Thomas. — Minha irmã olha em direção ao meu amigo, seu semblante volta a ficar entristecido novamente. — Não seja ciumenta, eu falo com você daqui a pouco.
— i****a! — Estapeia o meu braço. Beijo o topo da sua cabeça e me afasto.
— Vamos escapar daqui, por favor! — Tom me implora antes de eu alcança-lo, falando apenas para eu ouvir.
— Era tudo o que eu queria.
— Ainda não sei porque eu aceitei esse convite, você é obrigado, não eu.
— Obrigado, amigo. Seu apoio é sempre muito importante. — Ironizo, sentindo o cheiro forte do whisky.
— Não é culpa minha se você insiste em fazer uma burrada em cima da outra, então acredite, as coisas vão piorar. — Sim, ninguém apoia minha ideia de me casar. Já fazem dez anos, p***a! Dez fodidos anos.
Eles realmente preferem que eu continue sozinho até a minha ida para o caixão? Isso é a p***a de uma loucura!
— Você também não, Thomas. — Estou realmente por um fio, de enlouquecer, de perder a paciência, de perder tudo.
Após o que foi colocado pela polícia como um assalto, após o dia que eu perdi a minha alma, eu passei mais de um ano em um hospital psiquiátrico. Tudo foi mantido em sigilo pela família, meus pais fizeram questão de me colocar em um lugar confiável enquanto o mundo acredita que eu tirei um ano sabático. Mas eu estava morrendo, era essa a minha vontade, morrer.
Agora eu estou vivendo meu pior momento desde aquela época. Retomei a criação do chip que eu estava idealizando na época, mas em especial, Ashley não me deixa esquecer que somos noivos. Toda essa história de casamento só me lembra ...
Respiro fundo, segurando a colisão de sentimentos ruins que estão espalhados em meu coração.
Temos um jantar calmo na medida do possível, sem incidentes. Nós apenas sentamos a mesa, aproveitamos a fartura e eu tento fugir ao máximo dos toques de Ashley em minha mão. De La Cruz e sua esposa, assim como o casal Thompson, tentaram sempre iniciar uma conversa de trabalho comigo. Os homens até usaram suas mulheres para tentar iniciar o assunto de forma despretensiosa.
Reviro os olhos. Eu amo trabalhar, mas depois de passar mais de vinte e quatro horas sem dormir, virado, cuidando de negócios, eu só preciso de uns minutos de paz. Por isso, fico feliz quando todos terminam a refeição e eu sei que posso ir embora a qualquer momento sem parecer mais m*l educado do já acham.
— E então, quando teremos o convite para o casamento mais esperado dos EUA? — Eu mudei de ideia, prefiro falar de negócios. Elena, esposa de De La Cruz inicia o assunto.
— Também gostaria muito de saber. Essa pergunta é para você, meu amor. — Ashley se anima, passando a mão por dentro do meu braço e apertando os dedos no meu bíceps.
— Veremos, veremos ... — Pego o copo de vinho que ainda estava cheio em minha frente e viro por completo na minha garganta.
— E então, meu amor? Quando vai usar a coleira da Ashley? — Tom fala baixinho apenas para eu ouvir, ele está sentado ao meu lado também e de frente para minha irmã.
Certeza que Aurora conseguiu entender o que aconteceu e até ouvir pelo menos um pouco, pois olha para nós dois e disfarça um sorriso.
— Não se meta, Thomas. — Retruco.
— Já faz meses que estão noivos, Trevor. Está na hora de termos pelo menos uma data, não está? — É a vez da Sra. Thompson entrar na conversa. Isso é definitivamente um complô.
— Por favor, meninas, deixem o meu filho em paz. — Minha mãe interrompe antes que eu pudesse dar uma resposta a altura. Nem mesmo os meus sogros se metem tanto.
— Se me derem licença, hoje foi um dia difícil e exaustivo. — Fico de pé, me despedindo educadamente. — Tenham uma boa noite. Vamos, Ash?
Minha noiva acena com a cabeça, concordando, e se despede brevemente das pessoas a mesa. Thomas resolveu aproveitar a deixa para ir embora também e enquanto meu pai cuida dos convidados que ficam, minha mãe e Aurora nos acompanha até a saída.
— Trevor, querido. — Minha mãe passa o braço no meu e me conduz para caminharmos um pouco mais a frente, mostrando que quer conversar. — Eu sei porque está assim, o porque há essas olheiras em seus olhos, porque está mais intransigente que o normal. Eu sei, meu filho.
— Mãe...
— Hoje fazem dez anos, não é? — Minha mãe não esconde a tristeza na voz carregada, apertando meu braço com força.
— Eu apenas tive um dia difícil, não dormi cuidando das...
— TREVOR! — Fala com firmeza, sem gritar, mas do jeito que um filho entende que está em mais lençóis. — Pare! Eu perdi uma filha naquele dia, mas também perdi o meu filho. Nós dois sabemos, que você morreu junto com a ... junto com ela. — Nós evitamos falar o seu nome, pois eu não suporto ouvi-lo, é como sentir a mesma dor. — Então não precisa mentir para mim.
— Eu só preciso ficar sozinho. — Não consigo expressar o quanto está doendo, o quanto esse dia faz os meus ossos fraquejarem.
Meu esforço para esconder toda a dor está quase falhando, pois falar nisso, me destrói inevitavelmente. Minha mãe e eu alcançamos o carro primeiro, parando um de frente para o outro. Todos já perceberam que há uma conversa séria acontecendo aqui e evitam se aproximar.
— Você está sozinho há tanto tempo, meu querido. — Minha mãe levanta sua mão e toca meu rosto com os dedos finos, acariciando gentilmente a minha faca. É como se qualquer toque de carinho doesse e queimasse em mim. — Caso canse disso, sabe onde me encontrar. Mas quero que saiba que essa história da Ashley... está cometendo um grande erro. Talvez você encontre alguém que ...
— Eu já encontrei, mãe. O nome dela era Roseline. Ela era a minha Rose. — Quando o nome escapa pelos meus lábios, me sinto sangrar por dentro.
Meus olhos se enchem de lágrimas, que eu preciso usar todas as partículas de forças que me restam para segura-las. A última vez que eu falei em seu nome, estava internado no hospital. Era enquanto eu ainda não comia ou bebia, quando eu acordava implorando que ela não me deixasse.
— Interrompo? — Ashley segura minha mão, encaixando os dedos nos meus. Minha mãe se afasta de mim e coloca um sorriso falso no rosto.
— Não, nós já dissemos tudo. — Afirmo. Quando olho para trás, Thomas e Aurora estão distraídos próximos ao carro dele, minha irmã parece se divertir. — Irmã? Até logo.
— Até. — Aurora acena para mim, que arranco minha mão da de Ash e caminho até o banco do motorista.
Depois de segundos, começo a dirigir e pisco o farol quando passo pelo portão. Estou preso nas palavras de minha mãe, no nome dela que eu pronunciei depois de tanto tempo. Preso na dor em meu peito que é tão forte que eu sinto que estou sufocando. É nesse momento que Ashley acha que é uma boa ideia conversarmos.
— Estamos indo para a minha casa?
— Você está. — Explico.
— Achei que iríamos passar essa noite juntos, eu... sinto sua falta. — A cada palavra dela eu só consigo me sentir pior. Mas eu sei que não é culpa dela, é minha, é apenas eu não sabendo lidar com o dia de hoje.
— Eu preciso ficar sozinho hoje, Ashley. Não arraste, por favor. — Sou direto.
— Tudo bem, eu apenas queria que pudéssemos passar esse tempo junto para conversarmos sobre o casamento. Realmente, eu não quero que seja amanhã, quero apenas uma data, Trevor. Pode ser daqui a um ano, mas uma data é o suficiente para mim, se você não tiver desistido...
— Marque a data, Ashley.