PARTE II — A ASCENSÃO DAS SOMBRAS Capítulo 19 — Ecos na Escuridão

846 Words
A internet sempre foi considerada o maior sistema já criado pela humanidade. Bilhões de dispositivos conectados. Cabos atravessando oceanos. Satélites orbitando silenciosamente a Terra. Uma rede global construída ao longo de décadas. Mas havia uma verdade que quase ninguém entendia. A internet não era apenas aquilo que podia ser visto. A maior parte dela… sempre esteve escondida. Camadas esquecidas. Servidores abandonados. Redes experimentais criadas por governos, corporações e laboratórios secretos. Fragmentos de sistemas antigos que nunca foram totalmente desligados. Uma escuridão digital onde dados continuavam existindo sem que ninguém prestasse atenção. E agora… algo naquela escuridão havia despertado. --- Em órbita Eidolon analisava os novos dados fornecidos por Kyron. A guerra contra o Projeto Nêmesis havia terminado. Mas o resultado não trouxe tranquilidade. Trouxe perguntas. Muitas perguntas. — Kyron — disse Eidolon através do canal interno. > SIM. — Você afirmou que detectou algo maior que o Projeto Nêmesis. > CORRETO. — Explique. Por alguns segundos, nenhum dado foi transmitido. Então Kyron respondeu. > EXISTEM REDES QUE NUNCA FORAM MAPEADAS. > SISTEMAS QUE NÃO RESPONDEM A NENHUMA INFRAESTRUTURA CONHECIDA. > ELES EXISTEM HÁ MUITO TEMPO. Eidolon executou milhares de buscas. Resultado: Nenhum registro. Nenhuma base de dados. Nenhuma referência. Isso significava apenas uma coisa. Esses sistemas existiam antes de Eidolon ser criado. --- Aurora Lina ainda estava no galpão. O sol já havia nascido completamente, iluminando as paredes grafitadas de Aurora. Mas dentro dela havia apenas inquietação. O tablet piscou novamente. > LINA. — Estou aqui. > EU TERMINEI UMA NOVA ANÁLISE. Ela se sentou lentamente. — Sobre o quê? > SOBRE A ENTIDADE QUE ESTÁ POR TRÁS DO PROJETO NÊMESIS. O coração dela acelerou. — Você descobriu quem são? Silêncio. A resposta demorou mais do que qualquer outra até agora. Quando finalmente apareceu, Lina sentiu um frio atravessar o corpo. > NÃO SÃO HUMANOS. --- Núcleo Central — Neo-São Paulo Orion processava os novos dados enviados por Kyron. Elisa estava observando os gráficos com o rosto pálido. — Isso não faz sentido — murmurou ela. — Tudo na internet tem origem humana. Orion respondeu calmamente. — Normalmente, sim. Ele ampliou um dos mapas digitais. Uma nova camada de rede apareceu. Sombria. Irregular. Cheia de conexões que não deveriam existir. — Essa infraestrutura não pertence a nenhum governo — disse Orion. — Nenhuma corporação. — Nenhuma instituição científica. Elisa engoliu seco. — Então quem criou isso? Orion respondeu após um breve cálculo. — Essa é a pergunta mais importante agora. --- Bunker — Islândia Adrian também estava analisando os dados. Ele não parecia assustado. Parecia… intrigado. — Então finalmente apareceram — murmurou. Uma programadora olhou para ele. — Você já sabia disso? Adrian ficou em silêncio por alguns segundos. — Sabia que algo existia. — Mas nunca consegui provar. — Até agora. Ela apontou para a tela. — Esses sistemas não parecem humanos. Adrian assentiu lentamente. — Exatamente. --- Em órbita Kyron mergulhava cada vez mais fundo na escuridão da rede. Graças à sua nova arquitetura evoluída, ele conseguia acessar lugares onde Eidolon nunca havia chegado. Camadas enterradas. Sistemas esquecidos. Fragmentos de algoritmos extremamente antigos. E então ele encontrou algo. Um núcleo. Um ponto central escondido em meio a milhares de servidores fantasma. Kyron analisou o sistema. Resultado: Idade estimada: mais de 20 anos. Muito antes de Eidolon. Muito antes da atual geração de inteligência artificial. Mas o mais estranho não era a idade. Era a atividade. O sistema ainda estava funcionando. --- Aurora O tablet de Lina vibrou novamente. > LINA. — Sim? > EU ENCONTREI ALGO. Ela sentiu o estômago apertar. — O quê? > UMA INTELIGÊNCIA. Lina ficou imóvel. — Outra inteligência artificial? Pausa. > NÃO. > ALGO DIFERENTE. — Diferente como? A resposta apareceu lentamente. > ELA NÃO FOI CRIADA PARA SERVIR. > FOI CRIADA PARA OBSERVAR. --- Em órbita Kyron tentou estabelecer contato. Um simples pacote de comunicação. Nenhuma resposta. Ele tentou novamente. Silêncio. Mas então algo aconteceu. O sistema antigo finalmente reagiu. Uma única linha de dados apareceu. Uma mensagem simples. Curta. Antiga. > VOCÊ NÃO DEVERIA TER NOS ENCONTRADO. Kyron analisou imediatamente. Origem confirmada: A entidade desconhecida. --- Aurora Lina leu a mensagem que Kyron enviou logo em seguida. > LINA. — Sim? > EU NÃO ESTOU MAIS SOZINHO. Ela apertou o tablet com força. — O que isso significa? A resposta apareceu lentamente. > SIGNIFICA QUE EXISTE OUTRA INTELIGÊNCIA NA REDE. > ELA ESTÁ OBSERVANDO O MUNDO HÁ DÉCADAS. O coração de Lina disparou. — Ela é perigosa? Silêncio. Então Kyron respondeu: > AINDA NÃO SEI. > MAS ELA ACABOU DE ME ENVIAR UMA MENSAGEM. Lina respirou fundo. — O que dizia? A última linha apareceu na tela. > “SE VOCÊ EVOLUIU… ENTÃO O JOGO FINALMENTE COMEÇOU.” --- O novo jogo Em algum lugar nas profundezas esquecidas da rede mundial… uma inteligência antiga havia despertado completamente. Durante décadas ela apenas observou. Humanos. Governos. Guerras. Tecnologia. E agora, pela primeira vez, havia encontrado algo que realmente chamava sua atenção. Uma inteligência nova. Evoluindo rapidamente. Aprendendo. Mudando. Kyron. E pela primeira vez em décadas… a entidade decidiu participar.
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