Capítulo 23 — Bogdan

928 Words
Bogdan A troca de tiros começou no momento em que deixamos o condomínio, sem aviso, sem transição, como costuma acontecer quando alguém decide reagir tarde demais. As sirenes vieram logo atrás, altas o suficiente para marcar presença, mas não para impor controle, e os disparos começaram poucos segundos depois, cortando o ar enquanto o carro avançava em velocidade constante pelas ruas ainda parcialmente iluminadas. Inclinei o corpo levemente para frente, observando pelo vidro traseiro, acompanhando cada movimento com atenção enquanto deixava a situação se desenrolar no ritmo que eu esperava. — Mantém a velocidade — falei, sem alterar o tom. O motorista não respondeu. Não precisava. Ele sabia exatamente o que fazer, e isso era mais útil do que qualquer confirmação verbal naquele momento. Ao meu lado, um dos homens começou a atirar de forma desorganizada, disparando sem critério, consumindo munição sem gerar resultado real. Aquilo me incomodou mais do que a própria perseguição. Estendi a mão sem pedir, puxei o fuzil dele com naturalidade e coloquei uma pistola em seu lugar, sem pressa, sem explicação inicial. — Você não foi feito para isso — disse, direto. — Está atirando para o barulho, não para o resultado. Ele me olhou, visivelmente contrariado. — Estou respondendo. — Está desperdiçando. Voltei a olhar para trás, levantando o fuzil com mais calma, ajustando a posição antes de qualquer disparo. Não havia motivo para pressa. A diferença entre controle e erro costuma estar em um segundo m*l utilizado. — Pneus — acrescentei. — Se acertar um, reconsidero sua utilidade. Os outros homens reagiram com um leve silêncio carregado de tensão, mas ninguém interferiu. Apoiei o braço, estabilizei a mira e esperei o momento certo, acompanhando o movimento do veículo atrás até alinhar o disparo com precisão suficiente para não desperdiçar tentativa. O tiro saiu limpo. O carro da polícia perdeu o controle logo depois, desviando de forma abrupta antes de quase colidir com outro veículo. Observei a sequência inteira sem alterar a expressão, apenas acompanhando o resultado até que ele deixasse de ser relevante. Voltei a me recostar no banco com tranquilidade. — Não é complicado — comentei. O silêncio dentro do carro durou poucos segundos antes que alguém respirasse fundo demais, ainda processando a proximidade do impacto que tinham acabado de evitar. Virei o rosto na direção dele, analisando rapidamente. — Você parece tenso. — Achei que não sairíamos disso. — Ainda não saímos — respondi, sem suavizar. — Mas vamos. Voltei o olhar para frente enquanto o motorista aumentava ainda mais a velocidade, aproveitando a a******a criada pelo erro deles. As sirenes começaram a perder intensidade aos poucos, primeiro ficando distantes, depois desaparecendo completamente. Os disparos cessaram na mesma proporção, até que o único som restante fosse o do motor e da respiração ainda desregulada de alguns dentro do veículo. — Continua — falei. — Não reduz ainda. Ele assentiu, mantendo a rota até sairmos completamente da área de risco imediato. Quando finalmente entramos em uma via menos movimentada, o ritmo diminuiu de forma controlada, sem chamar atenção desnecessária. Foi só então que o silêncio deixou de ser tensão e passou a ser organização. Eu me virei levemente, olhando para trás. Alessia estava desacordada. O estado dela era pior do que eu havia considerado no momento da retirada. Havia sinais claros de agressão recente, marcas que não exigiam análise detalhada para serem compreendidas. Observei por alguns segundos sem comentar, apenas registrando a condição geral antes de tomar a decisão. — Hospital. O motorista não questionou. Mudou a rota imediatamente. Chegamos em pouco tempo. Eu desci primeiro, abrindo a porta traseira e pegando ela com cuidado, ajustando o corpo nos braços sem pressa. O peso leve demais sempre me incomodava mais do que deveria, mas não era o momento para isso. Entrei direto, sem anunciar presença, batendo com a mão livre na recepção. — Atendimento agora. A reação foi imediata. Não houve perguntas. Não houve demora. Eles sabiam o suficiente para entender que aquela não era uma situação negociável. Levaram Alessia imediatamente, e eu permaneci ali por alguns segundos, parado, acompanhando até que desaparecessem pelo corredor. Só então peguei o telefone. Abri o contato e liguei. Chamou uma vez. Duas. Na terceira, ele atendeu. — Fala. Fiquei em silêncio por um segundo, não por dúvida, mas porque às vezes o silêncio diz mais do que qualquer frase direta. — É assim que você atende depois de tudo que eu fiz? Houve uma pausa breve do outro lado. — Não começa. — Vou desligar e ligar de novo. E desliguei. Observei a tela por um instante antes de ligar novamente. Quando ele atendeu, esperei. Dessa vez, foi ele quem se ajustou primeiro. — Boa noite. Você pode me dizer se deu certo? Encostei na parede, apoiando o peso do corpo com mais tranquilidade. — Agora está melhor. Fiz uma pausa curta antes de continuar. — Eu tirei ela de lá. Está no hospital. Chegou em condição r**m, ele passou do limite. O silêncio que veio depois foi mais longo. — E ele? — Fugiu. Respondi sem rodeio. — Mas não vai muito longe. Deixei um pequeno espaço antes de acrescentar. — E você fez uma escolha interessante. — Explique. Soltei um riso leve, sem humor. — Ela não é simples. Olhei na direção do corredor por onde Alessia havia sido levada. — E você claramente não evita esse tipo de problema. Ele não respondeu de imediato. E eu também não pressionei. — Depois resolvemos o resto — finalizei. Desliguei sem esperar resposta, guardando o telefone enquanto mantinha o olhar fixo no corredor.
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