Capítulo 24 — Dmitry

790 Words
Dmitry Eu estava olhando para o teto, em silêncio, sem pensar em nada específico, apenas deixando o tempo passar do jeito que dava. O quarto era grande, organizado, silencioso demais para o meu gosto, com aquele cheiro limpo de hospital que nunca me agradou completamente. Eu já estava melhor do que quando cheguei, isso era evidente, mas ainda não estava no ponto que eu considerava aceitável, e essa diferença era o que realmente me incomodava. Ficar parado nunca foi uma opção confortável para mim, e agora não era diferente, mesmo sabendo que não havia muito o que fazer naquele momento além de esperar. Passei a mão devagar pelo abdômen, sentindo o desconforto ainda presente, mas bem mais controlado. A dor já não era constante como antes, aparecia em momentos específicos, mais como um lembrete do que como um problema real. Os medicamentos estavam funcionando, o corpo estava reagindo como esperado, mas ainda não era o suficiente para que eu simplesmente levantasse e saísse dali como se nada tivesse acontecido. Eu sabia disso, e quem estava cuidando de mim também. A porta se abriu sem aviso, e um dos meus homens entrou, mantendo a postura firme, discreta, como sempre. Ele não precisava dizer muita coisa para ser entendido. — Don, está na hora do medicamento. Virei o rosto na direção dele, sem pressa. — Já? — Sim. Soltei um pequeno suspiro, mais por hábito do que por real incômodo, e não discuti. Não fazia diferença naquele momento. Ele deu espaço, e a médica entrou logo em seguida, com a mesma postura tranquila de sempre. Nada nela indicava pressa, tensão ou qualquer tipo de desconforto por estar ali. Era como se estivesse lidando com uma rotina comum, e talvez estivesse mesmo. Ela se aproximou da cama, conferiu rapidamente os equipamentos ao redor e só então voltou a atenção para mim. — Como está se sentindo? — Melhor — respondi de forma direta. — Já dá para sair daqui? Ela não respondeu imediatamente. Ajustou o soro com calma, conferiu mais um detalhe antes de falar. — Ainda não. Observei ela por alguns segundos, analisando não só a resposta, mas a forma como foi dita. — Quanto tempo? Ela levantou o olhar, firme, sem hesitação. — Alguns dias. Balancei a cabeça devagar, claramente insatisfeito, mas sem criar resistência imediata. — Isso é realmente necessário? — Sim — respondeu sem alterar o tom. — Precisamos garantir que você está estável antes de sair. O ferimento foi mais sério do que parece agora. Fiquei em silêncio por alguns segundos, avaliando se valia a pena insistir, mas descartei a ideia rapidamente. Eu sabia reconhecer quando uma discussão não ia mudar o resultado. — E se eu sair antes? Ela soltou um pequeno suspiro, como se já esperasse aquela pergunta. — Você pode comprometer a recuperação, pode ter complicações e acabar voltando em uma condição pior. Fez uma pausa curta antes de concluir. — E aí não vai ter escolha. Fiquei olhando para ela por um instante, absorvendo a resposta. Não havia exagero ali, nem tentativa de me convencer além do necessário. Era direto o suficiente para ser considerado. Passei a mão pelo rosto devagar e recostei a cabeça no travesseiro. — Certo. Ela terminou de ajustar a medicação com calma, sem pressa, enquanto o silêncio voltava a preencher o ambiente. Eu acompanhei cada movimento por costume, não por desconfiança, apenas porque estou acostumado a observar tudo ao redor. — E a outra médica? — perguntei, como quem não está realmente interessado. Ela fez uma pausa breve antes de responder. — Qual delas? — A que chegou ontem. Ela me encarou por alguns segundos, entendendo exatamente a quem eu me referia. — Está bem — respondeu. — Está sendo acompanhada. Assenti levemente, como se a resposta não tivesse importância maior do que qualquer outra. — Posso falar com ela? Ela hesitou por um instante, mas não recusou de imediato. — Não agora. — Quando? — Quando você estiver melhor. Dei um pequeno sorriso de lado, discreto. — Então depende de você. Ela ignorou o comentário sem dificuldade. — Depende de você seguir o tratamento. Ficamos em silêncio por alguns segundos, sem necessidade de preencher o espaço com mais palavras. — Ela vai ficar aqui? — Por enquanto, sim. Aquilo foi suficiente. Não precisei perguntar mais nada. Ela terminou o que precisava fazer, organizou os materiais com a mesma calma de antes e deu um último olhar na minha direção. — Descansa. — Eu já estou fazendo isso há tempo demais. — Então continua — respondeu de forma simples. Observei ela sair do quarto sem acrescentar mais nada. A porta se fechou, e o silêncio voltou a ocupar o espaço, mas dessa vez não me incomodou tanto quanto antes.
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