Capítulo 15 — Mikhail

1012 Words
Mikhail O trajeto até o local foi feito em silêncio, mas não era um silêncio vazio, tampouco desconfortável. Era o tipo de silêncio que antecede uma operação real, onde cada homem dentro daqueles veículos já compreendia sua função sem a necessidade de repetição ou reforço. Eu estava no carro da frente, observando a estrada com atenção enquanto revisava mentalmente todas as informações levantadas por Ekaterina. A localização não era conveniente, mas era eficiente. Isolada, com pouca circulação e múltiplas rotas de fuga, o que facilitava um desaparecimento rápido sem deixar vestígios. Aquilo não era improviso, era escolha estratégica, e isso significava que enfrentaríamos resistência organizada. Levei mais homens do que levaria em uma missão comum, não por excesso de cautela, mas por precisão. Aquela não era apenas uma eliminação de alvo. Era uma recuperação com prioridade absoluta. Uma criança estava envolvida, e isso eliminava qualquer margem para erro. Dividi a equipe em cinco veículos, cada um com função definida, criando uma estrutura de cerco antes mesmo de qualquer tentativa de aproximação. O objetivo era simples em teoria, mas delicado na execução: controlar o espaço antes de entrar nele. Quando nos aproximamos da propriedade, reduzi a velocidade e analisei o terreno com mais atenção. O sítio era maior do que aparentava nos relatórios iniciais, com duas construções principais e vegetação densa o suficiente para oferecer tanto cobertura quanto dificuldade de visibilidade. Não havia nada ali que sugerisse descuido. Cada elemento indicava planejamento. Desci do carro com calma, sem pressa, observando o posicionamento dos homens enquanto eles assumiam seus pontos de forma automática, quase mecânica. Não havia hesitação. Apenas execução. — Cercar tudo. — minha voz saiu baixa, controlada, mas firme o suficiente para não permitir dúvida. — Ninguém entra ou sai sem autorização. Eles assentiram imediatamente, sem questionamentos. — Duas estruturas. Quero ambas isoladas antes de qualquer avanço. Um dos homens se aproximou, mantendo a postura rígida. — E a criança? Sustentei o olhar dele por um segundo, o suficiente para deixar claro que aquilo não era negociável. — Intacta. Não havia necessidade de elaborar. Eles entenderam. Sem disparos desnecessários. Sem erros. Sem riscos. As equipes se dispersaram com eficiência, ocupando pontos estratégicos ao redor da propriedade. Em poucos minutos, o perímetro estava completamente fechado, eliminando qualquer possibilidade de fuga sem confronto direto. Permaneci à frente não por impulso, mas por controle. Estar na linha inicial me permitia avaliar cada movimento em tempo real e ajustar a operação conforme necessário. Um dos homens sinalizou discretamente a presença de câmeras posicionadas nos cantos das construções. Fiz apenas um gesto breve. Em questão de segundos, o sistema foi neutralizado de forma limpa, sem ruído, sem alerta. O silêncio retornou ao ambiente com uma precisão quase artificial. As armas já estavam preparadas, equipadas com supressores. Cada movimento agora precisava ser calculado, não apenas executado. Levantei a mão, autorizando o avanço, e no instante seguinte cruzamos o limite da propriedade. O primeiro disparo veio antes mesmo de completarmos a aproximação. Eles estavam esperando. Isso confirmou imediatamente o que eu já havia considerado. Aquilo não era apenas um ponto de esconderijo. Era uma posição defensiva. A equipe reagiu com rapidez, dispersando-se e utilizando a vegetação e as estruturas como cobertura. A resposta foi precisa, controlada. Nenhum disparo foi desperdiçado. Não havia espaço para improviso naquele cenário, porque cada segundo prolongado aumentava o risco para a criança. Avancei mantendo a coordenação da equipe, ajustando posições e rotas de aproximação enquanto os pontos de resistência eram eliminados com eficiência. A quantidade de homens no local era superior ao esperado, o que indicava apoio externo. Aquilo não era uma operação isolada de Lorenzo. Havia estrutura por trás. Os disparos se intensificaram, cruzando o terreno em linhas calculadas enquanto nos aproximávamos das construções. Mantive o foco absoluto, ignorando o ruído, o impacto e o caos ao redor. Existia apenas um objetivo. Localizar a criança. Foi então que ouvimos. O som surgiu baixo, quase abafado. Depois ficou mais claro. Um choro. Inconfundível. Parei por um breve instante, inclinando levemente a cabeça para identificar a direção exata. — Ali. Apontei diretamente para a segunda construção. — É naquela casa. A equipe se reorganizou imediatamente, ajustando o avanço com precisão cirúrgica. Agora havia direção. E direção eliminava incerteza. Os disparos continuavam, mas já não eram desordenados. Cada movimento agora tinha propósito. O choro se tornava mais audível à medida que nos aproximávamos. Mais próximo. Mais intenso. Mais urgente. Quando alcançamos o perímetro da casa, sinalizei para que o local fosse completamente cercado antes de qualquer tentativa de entrada. A impulsividade ali significaria erro. E erro, naquele cenário, significava perda irreversível. Foi então que a voz veio de dentro. Alta. Instável. Carregada de tensão. — Mais um passo… e eu atiro. Mantive minha posição, avaliando cada variável. — Não me importa que ela seja minha filha… Aquilo não era uma ameaça comum. Era uma declaração de ruptura. — Eu mato ela. O ambiente ao redor pareceu comprimir. O silêncio dos homens atrás de mim ficou mais denso. Troquei um olhar rápido com os mais próximos. Não havia dúvida. Ele estava fora de controle. E isso tornava tudo mais perigoso. — Vieram por causa dela? — a voz continuou, mais alterada. — Foi aquela mulher que enviou vocês? Não respondi imediatamente. Qualquer palavra naquele momento precisava ser medida. — Digam a ela… que prefiro morrer do que devolver minha filha. Respirei fundo, mantendo o tom sob controle, calculando cada possibilidade em questão de segundos. Invadir à força aumentaria o risco. Negociar não garantia estabilidade. Ele já havia ultrapassado o ponto onde lógica era um fator confiável. Eu precisava de tempo. E de controle. — Escute com atenção — falei, finalmente, mantendo a voz baixa, firme, sem agressividade. — Você não precisa fazer isso. Silêncio. Tenso. Carregado. — Você não vai sair daqui — continuei, sem alterar o tom. — Mas a criança pode. Não houve resposta imediata. Mas o choro continuava. E aquilo era suficiente. Levantei a mão de forma discreta, sinalizando para posicionamento tático de entrada. Cada homem já sabia seu ponto, seu ângulo, sua função.
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