Capítulo 16 — Lorenzo

999 Words
Lorenzo O choro daquela criança já estava começando a me irritar de verdade, porque não era um choro comum que para depois de alguns minutos, era insistente, alto, contínuo, como se ela estivesse tentando me provocar, e eu já estava sem paciência nenhuma para aquilo. Eu segurava ela no colo tentando fazer parar, mas parecia que quanto mais eu tentava, mais ela chorava, e aquilo só piorava a situação. Eu respirei fundo algumas vezes, tentando manter o controle, porque, por mais que fosse irritante, eu precisava dela, precisava que ela estivesse viva e ali comigo, porque ela era a única coisa que ia fazer a Alessia voltar pra mim. Eu sempre fui obcecado por ela, desde o início, desde o momento em que percebi que não existia nenhuma mulher como ela, porque Alessia sempre foi diferente, sempre foi certinha demais, controlada demais, sempre querendo viver dentro de regras que não faziam sentido pra mim. Eu nunca quis me separar dela, nunca passou pela minha cabeça perder ela, porque, no final das contas, ela sempre foi minha esposa, sempre voltou pra mim, e eu sempre voltei pra casa também, independente do que eu fazia fora. As outras mulheres nunca significaram nada além de distração, de necessidade, de algo que ela não estava disposta a me dar, e eu não via problema nenhum nisso, porque eu sempre mantive o que importava no lugar. Mas ela resolveu sair. E foi aí que ela me obrigou a fazer o que estou fazendo agora. A criança começou a chorar ainda mais alto, e eu apertei a mamadeira contra a boca dela com mais força do que deveria, fazendo ela engasgar um pouco antes de finalmente começar a sugar, e, aos poucos, o choro foi diminuindo até parar. Eu soltei o ar devagar e me sentei, observando o ambiente ao redor com mais atenção. Os homens estavam espalhados pelo terreno, alguns sentados, outros de pé, todos armados e atentos, porque eu não trouxe qualquer um pra esse lugar, eu trouxe gente que sabe o que está fazendo. Eu tinha pelo menos vinte homens comigo, todos preparados, todos prontos pra reagir, e isso me deixava tranquilo. Ou pelo menos deveria. Porque, poucos segundos depois, as câmeras começaram a falhar. Primeiro uma. Depois outra. E mais uma. Eu estreitei o olhar na hora, acompanhando as telas apagando uma atrás da outra, e aquilo não era coincidência, não era falha técnica, era alguém entrando, alguém cortando nossa visão de propósito. Eu nem precisei pensar muito para entender o que estava acontecendo, porque aquele tipo de movimento não era feito por amador. — Vai ver isso agora — falei para dois dos meus homens, sem alterar o tom. Eles saíram na mesma hora, enquanto os outros ficaram atentos, já em posição. O silêncio durou pouco. Os primeiros disparos vieram logo depois, secos, controlados, vindo de fora, e, naquele momento, eu já sabia que não era qualquer um que estava ali. Eu levantei imediatamente, puxando a arma e segurando a criança com mais firmeza, porque, a partir dali, qualquer erro podia custar caro. Os tiros começaram a aumentar, ecoando pelo terreno, e meus homens responderam na mesma intensidade, se posicionando para conter a invasão. Eu caminhei até o centro da casa com calma, mesmo com o barulho aumentando ao redor, porque eu não podia perder o controle naquele momento. Se eles estavam ali, era por causa dela, e isso significava que Alessia tinha tido coragem de mandar alguém atrás da filha. Eu não achei que ela faria isso, mas, pelo visto, eu estava errado. Os passos começaram a se aproximar da casa, rápidos, coordenados, e eu levantei a arma, encostando na cabeça da criança sem hesitar, porque, se eles tinham vindo até ali, então eu ia usar o que tinha nas mãos. A criança começou a chorar de novo, alto, desesperado, mas eu não me importei. Eu precisava que eles entendessem que eu estava no controle. Quando a porta foi aberta, eu já estava pronto, com a arma posicionada e o olhar fixo em quem entrou. — Mais um passo e eu atiro — falei sem alterar o tom. O homem parou, mas não recuou totalmente, analisando a situação com calma, como alguém que estava acostumado com aquilo, e isso só confirmou o que eu já suspeitava. Aquilo não era polícia comum. — Você não faria isso — ele disse, controlado. Eu soltei um sorriso curto, sem humor. — Você não me conhece. Apertei um pouco mais a arma contra a cabeça da criança, fazendo ela se mexer no meu braço. — Escuta bem o que eu vou te falar, porque eu não vou repetir — continuei, olhando direto pra ele. — Você vai sair daqui, vai voltar pra Alessia e vai dizer pra ela que não adianta mandar gente atrás de mim, porque eu não vou devolver essa criança. O silêncio ficou pesado dentro da casa, mas eu continuei. — Eu prefiro morrer do que perder ela. Ele ficou me encarando por alguns segundos antes de responder que só queria a criança, e eu balancei a cabeça devagar, porque aquilo não mudava nada. — E eu só quero a mãe dela — falei. Eu destravei a arma sem tirar os olhos dele, deixando claro que não estava blefando. — Então faz o seguinte, abaixa essa arma, manda os teus homens abaixarem também e sai daqui agora, porque eu vou sair com ela, e se alguém tentar alguma coisa, eu atiro na cabeça dela sem pensar duas vezes. Eles hesitaram por alguns segundos, mas começaram a abaixar as armas, devagar, com cuidado, e aquilo foi o suficiente. Eu comecei a recuar, passo por passo, mantendo a arma firme, sem desviar o olhar em nenhum momento. Saí da casa com calma, sentindo o ar da noite misturado com o cheiro de pólvora, e caminhei até o carro sem parar. Abri a porta, entrei com a criança no colo e dei partida sem pressa, saindo do sítio enquanto eles ficavam para trás.
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