Capítulo 10 — Dmitry

1373 Words
Dmitry O quarto era silencioso demais para alguém que estava acostumado com movimento constante, decisões rápidas e gente entrando e saindo a todo momento. O hospital da organização sempre foi estruturado para funcionar com eficiência e discrição, mas ainda assim havia um padrão que eu conhecia bem, e aquele silêncio mais controlado do que o normal me incomodava mais do que a própria dor. Eu estava deitado, sem muita opção além de permanecer naquela posição, com o corpo limitado pelo ferimento que ainda puxava sempre que eu tentava me mover além do necessário, e mesmo com a medicação mantendo tudo sob controle, a sensação de estar preso àquele espaço era irritante o suficiente para me deixar mais atento do que o habitual. A minha respiração estava estável, o monitor ao lado marcava tudo com precisão, e a equipe médica mantinha distância suficiente para não interferir além do necessário, o que eu preferia, mas aquilo não diminuía a percepção de que algo não tinha se encaixado como deveria na noite anterior. Eu fechei os olhos por alguns segundos, não para descansar, mas para reorganizar mentalmente cada detalhe da invasão, porque não era possível aceitar aquilo como um evento isolado ou apenas como um ataque ousado da máfia italiana. Eles não eram impulsivos, não agiam sem cálculo, e o que aconteceu não foi apenas um avanço, foi uma entrada precisa em pontos que deveriam ser inacessíveis. Eles chegaram até mim. E isso, por si só, já era um erro que não poderia ser repetido. O fato de um dos meus homens ter sido o responsável direto por me ferir não encerrava a questão, porque aquilo não começava nele. Ele era o resultado de algo maior, de um caminho que foi aberto antes, de falhas que se acumularam até permitir aquele tipo de acesso. Para que alguém chegasse tão perto, para que estivesse na posição certa no momento certo, houve mais do que uma traição isolada, houve descuido, houve confiança m*l colocada, e isso era algo que eu não tolerava. A porta se abriu com cuidado, e Mikhail entrou sem fazer barulho, como sempre fazia quando percebia que eu já estava acordado. Ele não precisava perguntar como eu estava, nem eu precisava explicar o que estava pensando, porque esse tipo de comunicação entre nós nunca dependeu de palavras desnecessárias. Ele se aproximou, observou rapidamente os equipamentos ao redor, avaliando a situação com o mesmo olhar analítico de sempre, e eu já sabia que ele estava pensando na mesma coisa. A invasão não fazia sentido. Eu deixei claro, sem necessidade de rodeios, que aquilo não terminava no homem que me atingiu, porque seria simplificar demais uma falha que claramente envolvia mais gente. Nós havíamos relaxado onde não podíamos, e o resultado estava ali, evidente, não apenas no ferimento, mas no fato de que a estrutura tinha sido atravessada de dentro para fora. Ele concordou, sem resistência, e isso foi suficiente para que eu definisse o que precisava ser feito com clareza. Todos os homens que estavam próximos naquele momento seriam investigados. Sem exceção. Eu não queria apenas nomes ou suspeitas superficiais, eu queria informações completas, queria entender quem falou, quem facilitou, quem observou e ficou em silêncio, porque em situações como aquela, a omissão também era uma forma de traição. Não se tratava de encontrar um culpado isolado, se tratava de desmontar qualquer possibilidade de falha futura antes que ela se consolidasse novamente. Depois disso, houve um segundo pedido. E esse, diferente do primeiro, não tinha relação direta com a estrutura da organização, mas ainda assim era importante. Eu pedi a ficha dela. Alessia. Não foi algo impulsivo, não foi uma curiosidade sem fundamento, foi uma necessidade de entender quem ela era fora daquele contexto. A forma como ela agiu, a maneira como se manteve firme mesmo sob pressão, o fato de não ter recuado diante da situação, tudo aquilo indicava que havia mais ali do que uma simples médica que teve o azar de cruzar o meu caminho. Pessoas assim não surgem do nada, e eu não ignorava padrões quando eles apareciam. Mikhail não questionou, apenas saiu para resolver, e o tempo passou de forma lenta enquanto eu permanecia ali, limitado fisicamente, mas com a mente funcionando com a mesma clareza de sempre. A dor continuava controlada, mas presente o suficiente para me lembrar constantemente da posição em que eu estava, e aquilo só reforçava a necessidade de resolver tudo o mais rápido possível. Quando ele voltou, trouxe a pasta sem qualquer comentário desnecessário, deixando sobre a mesa ao lado da cama antes de se aproximar. Eu a peguei com calma, abrindo sem pressa, analisando cada detalhe com atenção. O nome veio primeiro. Alessia. Depois a idade. Vinte e cinco anos. Mais jovem do que eu havia considerado inicialmente, o que tornava o comportamento dela ainda mais interessante, porque não condizia com alguém daquela idade, pelo menos não dentro dos padrões que eu costumava observar. Continuei lendo, passando pelas informações com o mesmo cuidado, até chegar ao ponto que imediatamente chamou minha atenção. Filha. Sete meses. Eu mantive o olhar ali por alguns segundos, absorvendo aquela informação sem pressa, porque aquilo explicava muita coisa, principalmente a forma como ela reagiu, o nível de proteção que demonstrou e a intensidade com que se posicionou em determinados momentos. Segui para o próximo ponto. Ex-marido. O nome não me era estranho. Influente. Com conexões suficientes para exercer pressão real. Aquilo mudava o cenário. Eu levantei o olhar para Mikhail, que já estava observando minha reação. Ele confirmou que a família não havia aceitado o divórcio e que havia pressão para que ela voltasse, o que tornava a situação dela mais complexa do que parecia à primeira vista. Aquilo não era apenas uma questão pessoal, era uma estrutura envolvendo poder, influência e controle, e esse tipo de combinação raramente terminava de forma simples. Eu fechei a pasta por um momento, deixando as informações se organizarem de forma lógica, sem pressa, porque aquilo precisava ser entendido dentro de um contexto maior. Mikhail mencionou o conselho, trazendo à tona algo que eu já sabia que seria levantado em algum momento. A noiva escolhida por eles era uma decisão política, uma aliança conveniente, algo que fazia sentido dentro da lógica deles, mas que nunca foi prioridade para mim. Eu não tinha interesse em cumprir expectativas que não partiam das minhas próprias decisões, e aquilo não mudava agora. Ele deixou claro que a situação poderia gerar problema, principalmente considerando o histórico dela, o fato de não ser o tipo de escolha que o conselho aprovaria, e eu ouvi sem interromper, deixando que ele concluísse o raciocínio antes de responder. Para mim, a comparação era simples. Ela era melhor do que qualquer alternativa que eles tinham colocado na mesa. Não apenas pela aparência, embora isso fosse evidente, mas pelo comportamento, pela postura, pela forma como se posicionou mesmo sem ter qualquer vantagem na situação. Aquilo tinha mais valor do que qualquer nome ou aliança que fosse apresentada como conveniente. Mikhail não questionou diretamente, mas deixou claro que aquilo poderia trazer complicações, e eu sabia que ele não estava errado, porque decisões fora do padrão sempre geravam resistência dentro da estrutura, principalmente quando envolviam o conselho. Ainda assim, havia um ponto que nunca mudou. A decisão final era minha. E isso não era algo que eu discutia. Eu deixei claro que o conselho podia sugerir, podia pressionar, podia tentar influenciar, mas não ultrapassava aquele limite, porque, no fim, quem sustentava tudo aquilo era eu, e isso era algo que ninguém ali ignorava. A conversa terminou sem necessidade de prolongamento, porque tudo o que precisava ser dito já tinha sido colocado de forma clara. Mikhail saiu novamente, deixando o quarto em silêncio, e eu permaneci deitado, olhando para o teto por alguns segundos enquanto reorganizava tudo o que tinha sido colocado na mesa. A invasão ainda precisava ser resolvida. Os envolvidos ainda precisavam ser identificados. E, ao mesmo tempo, havia uma nova variável que eu não tinha planejado, mas que já fazia parte do cenário de forma inevitável. Eu virei o rosto levemente, ignorando o incômodo do movimento, e deixei a mente trabalhar com calma, sem pressa, porque, naquele momento, tudo precisava ser feito da forma certa.
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