Capítulo 9 - Alessia

1132 Words
Alessia Eu não sabia exatamente em que momento o cansaço venceu, mas em algum ponto entre a tensão acumulada da noite e o silêncio pesado que tomou conta do quarto, meu corpo simplesmente cedeu. Não foi um sono tranquilo, nem restaurador, mas foi o suficiente para me desligar por algumas horas daquela realidade absurda que tinha invadido a minha vida sem aviso. Quando acordei, foi de forma brusca, com o som firme de alguém batendo na porta, e por alguns segundos eu não consegui nem me situar direito, como se minha mente ainda estivesse tentando alcançar tudo o que tinha acontecido. Foi só quando levantei o olhar e vi Dmitry na minha cama, agora acordado, me observando em silêncio, que tudo voltou de uma vez. O segundo toque veio mais forte, mais impaciente, e isso foi o suficiente para me fazer levantar imediatamente, ignorando o peso do corpo e o cansaço acumulado. Caminhei até a porta e abri com cuidado, encontrando Mikhail do outro lado, com a mesma postura firme e olhar atento da noite anterior, como se nada tivesse saído do controle em nenhum momento. Ele não demorou com explicações, apenas informou que estava tudo limpo e que Dmitry poderia sair, que o caminho até o hospital estava seguro, e aquilo trouxe uma sensação estranha, quase um alívio misturado com um vazio que eu não sabia explicar. Antes que eu dissesse qualquer coisa, os homens começaram a subir, entrando no quarto com rapidez e precisão, como se já soubessem exatamente o que fazer. Eles se aproximaram da cama e ajudaram Dmitry a se levantar, e mesmo tentando disfarçar, era visível o esforço que ele fazia para não demonstrar dor, mantendo a postura firme como se aquilo fosse uma questão de orgulho. Quando ficou de pé, ele ainda parecia imponente, como se o ferimento não fosse suficiente para diminuir a presença que carregava consigo, e por um instante aquilo me incomodou mais do que deveria. Os olhos dele encontraram os meus e permaneceram ali, fixos, intensos, como se aquele momento tivesse mais significado do que deveria ter. Eu senti meu corpo travar por um segundo, sem entender exatamente o motivo, e foi então que ele falou. — Eu te devo a minha vida. A forma como ele disse aquilo não soou como uma simples formalidade, havia peso, intenção, e antes que eu conseguisse reagir, ele completou: — E eu quero você. Meu coração falhou uma batida. — O quê? — Se você precisar de mim… é só me procurar na base da máfia russa. Aquela frase me atingiu de uma forma que eu não esperava, como se fosse uma promessa que eu nunca pedi para ouvir, e isso me deixou desconfortável na mesma hora. Eu me obriguei a manter a postura firme, ignorando completamente o impacto daquilo. — Eu não vou precisar de você. Se tudo der certo, nós não vamos nos encontrar novamente. Por um instante, a expressão dele mudou de forma quase imperceptível, como se aquela resposta não tivesse sido bem recebida, mas ele não discutiu. Apenas desviou o olhar e deu a ordem para os homens, e em poucos segundos eles já estavam saindo do quarto, descendo as escadas e deixando a minha casa como se nunca tivessem estado ali. O silêncio que ficou depois que a porta se fechou era diferente de tudo o que eu tinha sentido até então. Não era mais tensão, nem medo imediato, era um vazio pesado, como se algo tivesse sido arrancado de forma abrupta, deixando apenas o eco do que tinha acontecido. Eu permaneci parada por alguns segundos, tentando organizar os pensamentos, tentando me convencer de que aquilo tinha acabado de verdade e que minha vida poderia voltar ao normal, mas nada parecia encaixar completamente. Caminhei de volta para o quarto, observando a cama desarrumada, os lençóis marcados e os vestígios da presença dele ainda ali, e aquilo me causou um incômodo estranho, como se aquele espaço tivesse sido invadido de uma forma que não poderia ser desfeita tão facilmente. Sentei na poltrona, passei as mãos pelo rosto e, sem pensar muito, me deitei novamente, deixando o corpo finalmente ceder ao cansaço que eu tinha ignorado durante toda a noite. Dessa vez o sono veio mais rápido, pesado, sem sonhos, mas foi interrompido de forma violenta, com um estrondo que fez meu corpo inteiro reagir imediatamente. Demorou apenas um segundo para eu entender o que estava acontecendo, e outro impacto veio logo em seguida, deixando claro que aquilo não era normal. A porta da minha casa estava sendo arrombada. Eu me levantei imediatamente e corri para fora do quarto, descendo as escadas com pressa, sentindo o pânico crescer a cada passo, até parar abruptamente ao ver Lorenzo dentro da minha sala, acompanhado de dois homens, como se tivesse todo o direito de estar ali. — O que você está fazendo aqui? Ele não demonstrou surpresa. — Você vai voltar comigo. — Eu não vou voltar. A resposta saiu automática. O tapa veio logo em seguida. Forte. Minha cabeça virou com o impacto, e antes que eu pudesse reagir, ele já estava dando outra ordem. — Podem subir. Meu coração disparou. — O quê? Quem está lá em cima? Eu tentei correr. — NÃO! Mas fui segurada. — MINHA FILHA! O desespero tomou conta completamente quando ouvi os passos no andar de cima e, logo depois, o choro dela. Aquilo atravessou meu peito de uma forma que eu não sabia nem explicar, como se todo o resto deixasse de existir naquele instante. — Lorenzo, não faz isso, por favor! — Cala a boca. Os homens desceram. Com ela nos braços. Naquele momento, tudo fez sentido. Eu avancei nele. — VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO! Mas ele me empurrou. — Eu sou o pai. Eu tenho direito à guarda. — VOCÊ NÃO TEM DIREITO A NADA! Ele se aproximou. Abaixou a voz. — Se você não voltar para casa em três dias… eu sumo com ela. Meu corpo inteiro gelou. — Eu saio da Rússia. Você nunca mais vai ver a sua filha. — Não… Eu tentei alcançar ela. Mas fui impedida. Os homens começaram a sair. Com ela. — NÃO! POR FAVOR! A porta se fechou. O silêncio voltou. Pesado. Sufocante. Lorenzo ainda me olhou antes de sair. — Arrume as suas coisas e volte para casa. É a única forma de você continuar perto dela. E então ele foi embora. Eu não consegui me manter em pé. Minhas pernas falharam. E eu caí no chão. O choro veio de uma vez, descontrolado, sem força para segurar, sem qualquer tipo de controle, enquanto a única coisa que passava pela minha cabeça era uma verdade que me atingiu como um golpe direto. Se eu não fizesse alguma coisa… Eu ia perder a minha filha.
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