Alessia
Eu sabia que não ia conseguir dormir desde o momento em que me deitei naquela poltrona, tentando ignorar a presença dele na minha cama como se aquilo fosse possível. O meu corpo estava exausto, pesado, pedindo descanso, mas a minha mente não desligava em nenhum segundo, como se estivesse em alerta constante, repetindo tudo o que tinha acontecido naquela noite de forma insistente e c***l, sem me dar qualquer chance de simplesmente fechar os olhos e esquecer.
Eu me virei de um lado para o outro, tentando encontrar alguma posição que fosse minimamente confortável, mas nada parecia funcionar. A poltrona era estreita, dura, completamente inadequada para dormir, mas não era só isso. Não era o desconforto físico que estava me mantendo acordada, era ele. Era a presença dele ali, ocupando a minha cama, respirando no mesmo ambiente que eu, como se tivesse invadido não só a minha casa, mas um espaço muito mais íntimo do que qualquer parede poderia proteger.
Abri os olhos novamente e encarei o teto por alguns segundos, sentindo a respiração pesada, irregular, como se meu próprio corpo estivesse se recusando a relaxar. Era ridículo. Eu estava dentro da minha casa, no meu quarto, com a minha filha dormindo no cômodo ao lado… e, ainda assim, eu não me sentia segura.
Virei o rosto devagar.
Ele continuava deitado exatamente como eu tinha deixado, o corpo grande ocupando quase toda a cama, os lençóis bagunçados ao redor dele, o rosto parcialmente iluminado pela luz fraca que entrava pela janela. A expressão dele estava mais tranquila agora, diferente de antes, quando tudo ainda estava caótico e urgente, mas havia algo ali que não desaparecia. Uma tensão silenciosa, uma presença que não precisava de movimento para ser percebida.
Desviei o olhar rapidamente, como se tivesse sido pega fazendo algo errado, e passei a mão pelo rosto, tentando afastar o cansaço que não vinha acompanhado de descanso nenhum. Aquilo não fazia sentido. Nada naquela situação fazia sentido. Eu deveria estar dormindo, deveria estar me recuperando do choque daquela noite, mas, em vez disso, eu estava ali, presa em um quarto com um homem que eu não conhecia, tentando ignorar o fato de que ele tinha me beijado minutos antes.
Fechei os olhos por um instante, tentando acalmar a respiração, mas foi inútil. A inquietação continuava ali, pulsando dentro de mim, me empurrando para fora daquele espaço, como se eu precisasse me certificar de alguma coisa o tempo todo, como se o perigo ainda não tivesse passado completamente.
Eu me levantei devagar, com cuidado para não fazer barulho, e caminhei até a porta do quarto, abrindo-a apenas o suficiente para olhar o corredor. O silêncio era quase absoluto, mas não era um silêncio confortável. Era aquele tipo de silêncio que faz você prestar mais atenção, que faz qualquer pequeno ruído parecer maior do que realmente é.
Olhei na direção da escada, hesitando por um segundo antes de sair do quarto. Eu precisava ter certeza. Precisava ver com os meus próprios olhos que nenhum daqueles homens estava dentro da minha casa, circulando livremente pelos cômodos onde a minha filha dormia.
Desci alguns degraus com cuidado, sentindo o coração bater mais rápido a cada passo, e observei a sala. Os vestígios do que tinha acontecido ainda estavam ali — manchas de sangue, materiais espalhados, a desordem que tinha invadido o ambiente sem pedir permissão — mas não havia ninguém. Nenhum movimento, nenhuma presença além da minha.
Ainda assim, aquilo não foi suficiente para me tranquilizar completamente.
Subi novamente, sem perder tempo, e caminhei direto para o quarto da minha filha. Abri a porta com o máximo de cuidado possível e entrei devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar aquele pequeno pedaço de paz que ainda existia ali dentro.
Ela estava dormindo.
Tranquila.
Com a respiração leve, o corpo pequeno acomodado no berço como se nada tivesse acontecido, como se o mundo ainda fosse um lugar seguro e previsível.
Meu peito apertou imediatamente.
Eu me aproximei devagar, apoiando a mão na borda do berço enquanto olhava para o rosto dela, tentando memorizar cada detalhe, cada traço, como se aquilo fosse a única coisa que ainda me mantinha no lugar.
Passei a mão de leve na cabeça dela, com cuidado para não acordá-la, e senti uma onda de alívio misturada com medo atravessar meu corpo. Porque, naquele momento, tudo o que eu queria era proteger aquilo. Proteger ela. Proteger a única coisa que ainda fazia sentido no meio daquele caos.
Respirei fundo, tentando me recompor, e permaneci ali por mais alguns minutos, apenas observando, como se aquele fosse o único lugar onde eu ainda podia respirar sem sentir o peso daquela situação me esmagando.
Mas eu não podia ficar ali para sempre.
Afastei-me devagar, fechei a porta com cuidado e voltei para o corredor, sentindo novamente o peso da realidade cair sobre mim a cada passo que me aproximava do meu quarto.
Parei diante da porta por um segundo, hesitando.
Porque entrar ali significava voltar para tudo aquilo.
Mas eu não tinha escolha.
Abri a porta e entrei.
Ele continuava exatamente como antes.
Deitado.
Imóvel.
Presente.
Eu caminhei até a poltrona novamente e me sentei, tentando, mais uma vez, fechar os olhos e ignorar tudo, mas não demorou nem alguns minutos para eu me mexer de novo, desconfortável, inquieta, presa naquele ciclo que não parecia ter fim.
O tempo parecia ter parado.
Cada minuto demorava mais do que deveria, cada segundo era pesado demais, e eu só conseguia pensar em uma coisa: no momento em que o sol nascesse, tudo aquilo acabaria.
Ele iria embora.
E a minha vida voltaria ao normal.