Capítulo 7 - Alessia

869 Words
Alessia Com ele já deitado na cama do quarto, eu ainda não tinha conseguido processar o que tinha acabado de acontecer. Meu coração estava acelerado demais, minha respiração descompassada, e a sensação do beijo dele ainda permanecia nos meus lábios como um lembrete incômodo de algo que não deveria ter acontecido. Eu tinha deixado. Eu tinha correspondido, mesmo que por um segundo, e isso era simplesmente inaceitável, principalmente dentro da minha própria casa, com a minha filha dormindo no andar de cima e homens armados espalhados pelos outros cômodos. Dei dois passos para trás, criando distância, como se aquilo pudesse apagar o que tinha acontecido segundos antes, mas não adiantava. Ele continuava deitado na cama, me observando com calma, sem pressa, como se estivesse totalmente no controle da situação, como se aquele beijo tivesse sido apenas mais um movimento calculado, e não um erro. Aquilo me irritou mais do que deveria. — Nunca mais faz isso. Minha voz saiu firme, mas carregada de tensão. Ele arqueou levemente a sobrancelha, sem se mover. — Isso o quê? Soltei um riso sem humor, cruzando os braços. — Não se faz de i****a. Dei mais um passo para trás. — Você me beijou sem a minha permissão. Ele manteve o olhar em mim, firme, sem qualquer traço de arrependimento. — E você não me afastou. Aquilo me travou por um segundo, mas eu não dei espaço. — Isso não te dá direito. — Não? Ele ajustou levemente a posição na cama, ignorando a própria condição, confortável demais para alguém que quase morreu. — Porque, pelo que eu senti… você não estava tentando me impedir. Senti o calor subir pelo meu rosto e aquilo só aumentou minha irritação. Cruzei os braços com mais força, como se aquilo pudesse me proteger. — Eu estava em choque. — Não parecia. O silêncio que caiu entre nós foi pesado, denso, carregado de algo que eu me recusava a reconhecer. Eu desviei o olhar primeiro, não por fraqueza, mas porque havia algo naquele jeito dele que me deixava inquieta de uma forma que eu não controlava. — Isso não vai acontecer de novo. Falei mais para mim do que para ele. Mas ele ouviu. Claro que ouviu. — Não decide isso sozinha. Levantei os olhos imediatamente. — Decido sim. — Isso não vai se repetir. Ele me observou por alguns segundos, agora mais sério, como se estivesse avaliando cada palavra minha. — Você tem certeza disso? Meu coração acelerou, mas eu mantive a postura. — Tenho. Ele inclinou levemente a cabeça. — Você não tem controle disso. Aquilo me irritou mais do que deveria. — Eu tenho controle sobre mim. — Tem? A pergunta veio seca, direta, sem emoção, e aquilo me atingiu mais do que qualquer provocação anterior, porque, pela primeira vez, eu não tinha tanta certeza quanto gostaria. Respirei fundo, forçando estabilidade. — Eu vou trocar o seu soro. Fui até a bancada improvisada, peguei o material e voltei até a cama, focando no trabalho porque era a única forma de manter a cabeça no lugar. Minhas mãos estavam firmes agora, seguras, precisas, mas por dentro tudo ainda estava desorganizado, como se meu corpo estivesse em um ritmo e minha mente em outro completamente diferente. — Você sempre fica assim? Ele perguntou de repente. — Assim como? — Tensa. Soltei o ar devagar. — Eu estou com um mafioso dentro do meu quarto. Ele soltou um riso baixo, sem humor. — Correto. Troquei o soro com cuidado, evitando olhar diretamente para ele, mas era inútil. Eu sentia o olhar dele em mim o tempo inteiro, constante, atento, como se estivesse analisando cada reação minha, cada hesitação, cada respiração fora do lugar. — Você devia descansar — falei ao terminar. — E você? — Eu vou ficar aqui. Ele olhou ao redor do quarto. — Aqui? — Eu dou um jeito. — Não. A palavra veio firme, sem espaço para discussão. — Você não vai dormir no chão. — E eu também não vou dormir com você. Ele não sorriu dessa vez. — Não precisa dormir comigo. Fez uma pausa. — Só no mesmo quarto. Fechei os olhos por um segundo, respirando fundo, tentando não perder a paciência. — Você complica tudo. — Eu resolvo rápido. Balancei a cabeça, sem paciência, peguei um cobertor e joguei na poltrona no canto do quarto. — Eu vou dormir aqui. Ele me observou em silêncio por alguns segundos. — Você vai ficar desconfortável. — Não é da sua conta. — Tudo que acontece aqui dentro é da minha conta agora. Olhei diretamente para ele, sem recuar. — Você está na minha casa. — E você está cuidando de mim. A resposta veio imediata, firme, sem espaço para discussão, e aquilo me irritou porque, no fundo, ele tinha razão, e eu odiava admitir isso. Me virei, tentando encerrar aquilo, mas antes que eu conseguisse me afastar completamente, a voz dele veio de novo, mais baixa, mais controlada, carregada de algo que eu não consegui ignorar. — Alessia. Parei. Sem olhar para trás. — O quê? — Você realmente acha que não vai acontecer de novo? Meu coração apertou por um segundo. Só um. Mas foi o suficiente. — Tenho certeza.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD