Dimitry
O primeiro tiro ecoou no corredor segundos depois de eu abrir a porta.
O som foi alto o suficiente para fazer o prédio inteiro parecer vibrar por um instante. Logo depois vieram mais disparos, gritos e o barulho pesado de homens correndo pelo andar de baixo.
Então era isso.
Eles realmente tinham decidido invadir a sede.
Eu já tinha visto muitas guerras começarem de formas parecidas com aquela.
A diferença é que, dessa vez, ela estava acontecendo dentro da minha casa.
— Quantos? — perguntei ao soldado que ainda estava parado na porta.
Ele respirava rápido.
— Não sabemos ainda, Don… mas são muitos.
Mikhail já estava armado ao meu lado.
Meu irmão não parecia nervoso.
Ele parecia irritado.
— Italianos?
O homem hesitou por um segundo.
— Parece que sim.
Eu destravei minha arma devagar.
O peso familiar do metal na minha mão sempre trazia a mesma sensação: clareza.
Quando a violência começa, pensar demais só atrapalha.
— Então vamos resolver isso rápido.
Saí da sala primeiro.
O corredor já estava cheio de homens correndo de um lado para o outro. Alguns estavam armados, outros tentando fechar portas de segurança. O cheiro de pólvora já começava a se espalhar pelo ar.
Um dos nossos homens estava caído perto da escada.
Sangue escorria pelo chão.
Eu ignorei.
Não porque não importava.
Mas porque, naquele momento, havia coisas mais importantes.
Outro disparo ecoou no andar de baixo.
— Eles já entraram no primeiro andar! — alguém gritou.
— Protejam o Don!
Eu odeio quando gritam isso.
Porque geralmente significa que alguém acha que eu preciso de proteção.
Eu desci os primeiros degraus da escada com calma.
Mais tiros.
Mais gritos.
Quando cheguei ao meio da escada consegui ver parte do salão principal da sede.
O lugar parecia um campo de guerra.
Vidros quebrados.
Homens caídos.
Disparos vindos da entrada lateral que tinha sido explodida.
— Eles trouxeram reforço — murmurou Mikhail atrás de mim.
— Deixa eles trazerem.
Um dos nossos soldados correu até mim.
— Don… devem ser uns trinta!
Eu soltei uma pequena risada sem humor.
— Então hoje vai ter trabalho.
Desci os últimos degraus.
Um dos italianos apareceu correndo pelo corredor lateral.
Eu levantei a arma.
O tiro acertou o peito dele antes mesmo que ele percebesse o que estava acontecendo.
Ele caiu imediatamente.
Outro apareceu logo atrás.
Mais dois tiros.
Mais um corpo no chão.
A adrenalina começou a correr pelo meu corpo.
Sempre foi assim.
Quando a violência começa… tudo fica mais claro.
— Empurrem eles para fora! — gritei.
Os homens começaram a avançar.
O barulho de tiros ecoava por todo o prédio agora.
Um dos italianos tentou vir para cima de mim com uma faca.
Mikhail foi mais rápido.
Um disparo.
O homem caiu.
— Estão tentando chegar até você — ele disse.
— Boa sorte para eles.
Um grito ecoou atrás de mim.
— Cuidado!
Eu me virei rápido.
Mas não rápido o suficiente.
A dor veio como um choque.
Algo atravessou meu lado com força.
Uma faca.
Por um segundo meu corpo inteiro ficou imóvel.
Eu olhei para baixo.
A lâmina estava cravada logo abaixo das minhas costelas.
Meu cérebro demorou alguns segundos para entender o que tinha acontecido.
Então levantei os olhos.
E vi o rosto de quem estava segurando a faca.
Um dos meus homens.
Um dos soldados da minha própria organização.
Ele me encarava com uma expressão estranha.
Uma mistura de medo… e determinação.
— Desculpa, Don.
Minha mente ficou completamente fria naquele momento.
Traição.
Então era assim.
Antes que ele pudesse puxar a faca de volta, Mikhail disparou.
O tiro acertou a cabeça dele.
O corpo caiu imediatamente no chão.
Mas a lâmina ainda estava cravada em mim.
— Dmitry!
Mikhail segurou meu braço quando meu corpo vacilou.
Eu puxei a faca para fora com um movimento rápido.
O sangue começou a escorrer imediatamente.
Muito.
— O Don está ferido! — alguém gritou.
Vários homens correram na nossa direção.
O barulho de tiros começou a diminuir.
Pelo visto os italianos estavam recuando.
Covardes.
Eu pressionei a mão contra o ferimento tentando conter o sangue.
A dor começou a crescer agora.
Lenta.
Profunda.
— Filho da p**a… — murmurei.
Mikhail estava olhando para o corpo do traidor no chão.
— Ele era um dos homens do carregamento de ontem.
Eu soltei uma pequena risada amarga.
— Então já sabemos como os italianos descobriram da carga.
A dor começou a ficar mais forte.
Meu corpo parecia mais pesado.
— Precisamos tirar você daqui — disse Mikhail.
— Não.
Minha voz saiu mais fraca do que eu gostaria.
— Ainda não.
Eu respirei fundo tentando manter a consciência.
— Primeiro… verifiquem se todos os invasores saíram.
Um dos soldados correu até nós.
— Don… eles recuaram.
— Claro que recuaram.
Meu corpo vacilou novamente.
O sangue estava escorrendo rápido demais.
— Dmitry — disse Mikhail com firmeza — você está perdendo muito sangue.
Eu olhei para o ferimento.
Não era pequeno.
A faca tinha entrado fundo.
— Levem ele para o carro! — alguém gritou.
— Não.
Eu segurei o braço de Mikhail.
— Hospital não.
Ele me encarou.
— Você está brincando?
— Hospital chama polícia.
Eu respirei fundo novamente.
— Levem… para um médico.
— Onde?
Por um segundo minha visão ficou um pouco turva.
— Qualquer um que saiba costurar um ferimento.
Mais sangue escorreu entre meus dedos.
— Dmitry…
— Agora.
Os homens começaram a me apoiar pelos braços.
O chão parecia se mover sob meus pés.
A dor estava piorando.
Muito.
— Aguenta, Don.
Eu ouvi alguém dizer isso.
Mas as vozes já começavam a ficar distantes.
Meu corpo estava ficando mais fraco.
Até que a escuridão me engoliu.