Mikhail
— Por aqui!
A voz de um dos homens ecoou pelo corredor enquanto dois soldados seguravam Dmitry pelos braços.
O sangue dele estava escorrendo entre os dedos que pressionavam o ferimento na lateral do abdômen. A camisa preta já estava completamente encharcada e o chão atrás de nós deixava um rastro escuro.
Aquilo não era bom.
Não era bom mesmo.
Eu já tinha visto homens morrerem por ferimentos muito menores do que aquele.
— Anda! — eu gritei. — A gente não pode ficar aqui!
Outro disparo ecoou no andar de baixo.
Os italianos ainda estavam no prédio.
Talvez poucos.
Talvez muitos.
Mas naquele momento isso já não importava.
O que importava era tirar meu irmão dali.
— Biblioteca! — gritou um dos soldados.
Nós viramos o corredor correndo.
Dmitry estava cada vez mais pesado.
A cabeça dele pendia para o lado enquanto os homens tentavam mantê-lo consciente.
— Don… fica com a gente.
Ele não respondeu.
Merda.
A porta da biblioteca foi aberta com força.
Os livros antigos nas prateleiras enormes tremiam com o barulho distante dos tiros que ainda ecoavam pelo prédio.
Eu fui direto para a estante do fundo.
Empurrei o terceiro livro da prateleira.
Um clique seco ecoou.
A estante se moveu lentamente, revelando a passagem secreta atrás dela.
— Vamos!
Os homens entraram carregando Dmitry.
A passagem era estreita e escura.
Cheirava a poeira e madeira antiga.
Era um caminho antigo da época do meu pai.
Uma rota de fuga caso a sede fosse invadida.
E hoje… ela estava salvando nossas vidas.
Descemos os degraus rapidamente.
Dmitry respirava com dificuldade agora.
— Ele está perdendo muito sangue — disse um dos homens.
— Eu sei.
A voz saiu mais irritada do que eu queria.
Mas eu sabia exatamente o que aquilo significava.
Se não encontrássemos ajuda logo…
Ele não ia aguentar.
A passagem terminava em uma porta metálica.
Um dos homens abriu.
O ar frio da noite invadiu o corredor.
Saímos na rua de trás do prédio.
A rua estava deserta.
Graças a Deus.
— Precisamos de um médico — disse um dos soldados.
— Hospital não — respondi imediatamente.
Ele me olhou confuso.
— Por quê?
Eu respirei fundo.
— Se os italianos sabem que Dmitry foi ferido, o primeiro lugar que eles vão vigiar é um hospital.
O silêncio caiu por um segundo.
— Eles podem ter gente esperando lá.
O soldado assentiu devagar.
— Então o que a gente faz?
Um dos homens que estava ajudando a carregar Dmitry levantou a cabeça de repente.
— Espera…
— O que foi?
— Acho que tem uma médica que mora aqui atrás.
Eu estreitei os olhos.
— Tem certeza?
— Já vi ela entrando nessa rua algumas vezes. Acho que é na segunda casa.
Não tínhamos tempo para pensar muito.
— Vamos.
Corremos até a casa indicada.
Era uma casa simples.
Luz acesa.
Bom sinal.
Um dos homens bateu na porta com força.
Nada.
Bateu novamente.
Mais forte.
Finalmente passos foram ouvidos do outro lado.
A porta abriu alguns centímetros.
Uma mulher apareceu.
Ela parecia jovem.
Cabelos presos de qualquer jeito, roupas simples, claramente alguém que tinha acabado de sair da rotina da casa.
Mas o que chamou minha atenção foi a expressão dela.
Primeiro confusão.
Depois…
Horror.
Porque naquele momento ela viu Dmitry.
Sangrando.
Quase inconsciente.
— Meu Deus… — ela murmurou.
Então tentou fechar a porta.
Eu fui mais rápido.
Coloquei o pé entre a porta e a parede.
— Espera.
Ela me olhou assustada.
— Vocês não podem estar aqui!
— Você é médica?
Ela hesitou por um segundo.
— Sim… mas vocês não podem entrar aqui!
— Por quê?
— Eu tenho uma criança pequena em casa!
A voz dela tremia.
Ela estava claramente apavorada.
Mas eu não tinha escolha.
Levantei a arma e encostei na cabeça dela.
Os olhos dela se arregalaram imediatamente.
— Escuta com atenção.
Minha voz saiu fria.
Controlada.
— Isso aqui é o Don.
Eu apontei para Dmitry.
— A vida dele está nas suas mãos.
Ela respirava rápido agora.
— Eu…
— Se você não salvar a vida dele…
Aproximei um pouco mais a arma.
— Eu acabo com a sua.
O silêncio caiu entre nós.
Pesado.
Ela olhou para Dmitry novamente.
O sangue estava escorrendo cada vez mais.
Por alguns segundos pensei que ela ainda fosse tentar fechar a porta.
Mas então ela suspirou.
E deu um passo para trás.
— Entrem.
Os homens carregaram Dmitry para dentro rapidamente.
A sala era pequena.
Simples.
Claramente uma casa comum.
Não um lugar preparado para aquilo.
Ela fechou a porta atrás de nós.
As mãos dela tremiam.
— Coloquem ele aqui.
Ela apontou para o sofá.
Os homens deitaram Dmitry ali.
O sangue manchou o estofado imediatamente.
Ela se aproximou devagar.
O rosto dela estava pálido.
Mas os olhos estavam atentos.
Profissionais.
Ela afastou a camisa dele.
O ferimento ficou visível.
E eu vi a expressão dela mudar.
— Ele perdeu muito sangue.
— Dá para salvar?
Ela respirou fundo.
— Talvez.
Talvez.
Eu odiei aquela palavra.
— Então salva.
Ela levantou os olhos para mim.
— Eu preciso de material.
— O quê?
— Luvas, gaze, álcool, linha de sutura… qualquer coisa que eu possa usar para fechar esse ferimento.
Ela passou a mão nervosamente pelo cabelo.
— Água fervida… toalhas… e alguém precisa segurar ele.
Eu olhei para os homens.
— Vocês ouviram.
Eles começaram a se espalhar pela casa.
A médica voltou a olhar para Dmitry.
As mãos dela ainda tremiam um pouco.
Mas a voz saiu mais firme agora.
— Se vocês querem que ele sobreviva…
Ela pegou uma toalha e pressionou contra o ferimento.
— Então vocês vão ter que fazer exatamente o que eu mandar.
E rápido.
Porque se a gente perder mais tempo…
Ela não terminou a frase.
Mas não precisava.
Eu já sabia exatamente o que ela queria dizer.