Capítulo 4 — Mikhail

983 Words
Mikhail — Por aqui! A voz de um dos homens ecoou pelo corredor enquanto dois soldados seguravam Dmitry pelos braços. O sangue dele estava escorrendo entre os dedos que pressionavam o ferimento na lateral do abdômen. A camisa preta já estava completamente encharcada e o chão atrás de nós deixava um rastro escuro. Aquilo não era bom. Não era bom mesmo. Eu já tinha visto homens morrerem por ferimentos muito menores do que aquele. — Anda! — eu gritei. — A gente não pode ficar aqui! Outro disparo ecoou no andar de baixo. Os italianos ainda estavam no prédio. Talvez poucos. Talvez muitos. Mas naquele momento isso já não importava. O que importava era tirar meu irmão dali. — Biblioteca! — gritou um dos soldados. Nós viramos o corredor correndo. Dmitry estava cada vez mais pesado. A cabeça dele pendia para o lado enquanto os homens tentavam mantê-lo consciente. — Don… fica com a gente. Ele não respondeu. Merda. A porta da biblioteca foi aberta com força. Os livros antigos nas prateleiras enormes tremiam com o barulho distante dos tiros que ainda ecoavam pelo prédio. Eu fui direto para a estante do fundo. Empurrei o terceiro livro da prateleira. Um clique seco ecoou. A estante se moveu lentamente, revelando a passagem secreta atrás dela. — Vamos! Os homens entraram carregando Dmitry. A passagem era estreita e escura. Cheirava a poeira e madeira antiga. Era um caminho antigo da época do meu pai. Uma rota de fuga caso a sede fosse invadida. E hoje… ela estava salvando nossas vidas. Descemos os degraus rapidamente. Dmitry respirava com dificuldade agora. — Ele está perdendo muito sangue — disse um dos homens. — Eu sei. A voz saiu mais irritada do que eu queria. Mas eu sabia exatamente o que aquilo significava. Se não encontrássemos ajuda logo… Ele não ia aguentar. A passagem terminava em uma porta metálica. Um dos homens abriu. O ar frio da noite invadiu o corredor. Saímos na rua de trás do prédio. A rua estava deserta. Graças a Deus. — Precisamos de um médico — disse um dos soldados. — Hospital não — respondi imediatamente. Ele me olhou confuso. — Por quê? Eu respirei fundo. — Se os italianos sabem que Dmitry foi ferido, o primeiro lugar que eles vão vigiar é um hospital. O silêncio caiu por um segundo. — Eles podem ter gente esperando lá. O soldado assentiu devagar. — Então o que a gente faz? Um dos homens que estava ajudando a carregar Dmitry levantou a cabeça de repente. — Espera… — O que foi? — Acho que tem uma médica que mora aqui atrás. Eu estreitei os olhos. — Tem certeza? — Já vi ela entrando nessa rua algumas vezes. Acho que é na segunda casa. Não tínhamos tempo para pensar muito. — Vamos. Corremos até a casa indicada. Era uma casa simples. Luz acesa. Bom sinal. Um dos homens bateu na porta com força. Nada. Bateu novamente. Mais forte. Finalmente passos foram ouvidos do outro lado. A porta abriu alguns centímetros. Uma mulher apareceu. Ela parecia jovem. Cabelos presos de qualquer jeito, roupas simples, claramente alguém que tinha acabado de sair da rotina da casa. Mas o que chamou minha atenção foi a expressão dela. Primeiro confusão. Depois… Horror. Porque naquele momento ela viu Dmitry. Sangrando. Quase inconsciente. — Meu Deus… — ela murmurou. Então tentou fechar a porta. Eu fui mais rápido. Coloquei o pé entre a porta e a parede. — Espera. Ela me olhou assustada. — Vocês não podem estar aqui! — Você é médica? Ela hesitou por um segundo. — Sim… mas vocês não podem entrar aqui! — Por quê? — Eu tenho uma criança pequena em casa! A voz dela tremia. Ela estava claramente apavorada. Mas eu não tinha escolha. Levantei a arma e encostei na cabeça dela. Os olhos dela se arregalaram imediatamente. — Escuta com atenção. Minha voz saiu fria. Controlada. — Isso aqui é o Don. Eu apontei para Dmitry. — A vida dele está nas suas mãos. Ela respirava rápido agora. — Eu… — Se você não salvar a vida dele… Aproximei um pouco mais a arma. — Eu acabo com a sua. O silêncio caiu entre nós. Pesado. Ela olhou para Dmitry novamente. O sangue estava escorrendo cada vez mais. Por alguns segundos pensei que ela ainda fosse tentar fechar a porta. Mas então ela suspirou. E deu um passo para trás. — Entrem. Os homens carregaram Dmitry para dentro rapidamente. A sala era pequena. Simples. Claramente uma casa comum. Não um lugar preparado para aquilo. Ela fechou a porta atrás de nós. As mãos dela tremiam. — Coloquem ele aqui. Ela apontou para o sofá. Os homens deitaram Dmitry ali. O sangue manchou o estofado imediatamente. Ela se aproximou devagar. O rosto dela estava pálido. Mas os olhos estavam atentos. Profissionais. Ela afastou a camisa dele. O ferimento ficou visível. E eu vi a expressão dela mudar. — Ele perdeu muito sangue. — Dá para salvar? Ela respirou fundo. — Talvez. Talvez. Eu odiei aquela palavra. — Então salva. Ela levantou os olhos para mim. — Eu preciso de material. — O quê? — Luvas, gaze, álcool, linha de sutura… qualquer coisa que eu possa usar para fechar esse ferimento. Ela passou a mão nervosamente pelo cabelo. — Água fervida… toalhas… e alguém precisa segurar ele. Eu olhei para os homens. — Vocês ouviram. Eles começaram a se espalhar pela casa. A médica voltou a olhar para Dmitry. As mãos dela ainda tremiam um pouco. Mas a voz saiu mais firme agora. — Se vocês querem que ele sobreviva… Ela pegou uma toalha e pressionou contra o ferimento. — Então vocês vão ter que fazer exatamente o que eu mandar. E rápido. Porque se a gente perder mais tempo… Ela não terminou a frase. Mas não precisava. Eu já sabia exatamente o que ela queria dizer.
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