Alessia
Minhas mãos ainda estavam tremendo quando terminei de dar o último ponto.
O sangue já não escorria mais como antes, mas ainda havia muito espalhado pela toalha e pelo sofá da minha sala. O cheiro metálico tomava conta do ambiente inteiro, misturado com o cheiro forte de álcool que eu tinha usado para limpar o ferimento.
Pressionei a gaze mais uma vez sobre a sutura antes de finalmente respirar fundo.
— O sangramento parou — falei.
Ninguém respondeu.
Levantei os olhos devagar.
Os homens estavam espalhados pela sala me observando como se cada movimento meu fosse decidir o destino de todos ali dentro.
O que, na verdade, talvez fosse mesmo.
O homem que tinha colocado a arma na minha cabeça — Mikhail, se eu tinha ouvido o nome direito — continuava parado perto do sofá, os olhos fixos no homem inconsciente à minha frente.
O tal Don.
Dmitry.
Agora que o sangramento estava controlado eu conseguia olhar melhor para ele.
Mesmo desacordado… ele parecia assustadoramente bonito.
Alto.
O corpo forte ocupava quase todo o sofá da minha sala. Ombros largos, músculos marcados mesmo sob a camisa rasgada e ensanguentada. Os cabelos negros estavam bagunçados e uma mecha caía sobre a testa.
Mas o que mais chamava atenção era o rosto.
Se eu encontrasse aquele homem na rua, nunca imaginaria que ele era o líder de uma máfia.
Ou que provavelmente já tinha mandado matar muita gente.
Naquele momento ele parecia apenas… um homem ferido.
— Ele vai sobreviver? — perguntou Mikhail.
Respirei fundo.
— Se não tiver nenhuma hemorragia interna… sim.
Ele assentiu devagar.
A tensão na sala diminuiu um pouco.
Mas não muito.
Tirei as luvas e as joguei sobre a mesa.
— Eu terminei.
Então me levantei.
— Agora vocês podem ir embora.
O silêncio na sala foi imediato.
Mikhail virou o rosto lentamente para mim.
— Ir embora?
— Sim — respondi, tentando manter a voz firme. — Eu fiz o que vocês queriam. Salvei a vida dele.
Apontei para a porta.
— Agora saiam da minha casa.
Os homens trocaram olhares rápidos.
Mas ninguém se moveu.
Meu coração começou a bater mais rápido.
— Vocês ouviram o que eu disse?
Mikhail cruzou os braços.
— Ainda não.
— Como assim, ainda não?
Ele olhou novamente para Dmitry.
— Ele ainda não acordou.
Um frio percorreu minha espinha.
— Isso é normal — respondi rapidamente. — Ele perdeu muito sangue.
— Mesmo assim.
Ele voltou a me encarar.
— Nós só saímos quando ele acordar.
Eu balancei a cabeça.
— Não.
— Sim.
— Eu tenho uma criança pequena!
Minha voz saiu mais alta do que eu queria.
— Minha filha está dormindo no quarto.
Alguns dos homens se entreolharam novamente.
Mas Mikhail não pareceu impressionado.
— Então fica tranquila.
— Tranquila?
Soltei uma risada nervosa.
— Vocês invadiram minha casa com armas, trouxeram um homem quase morto para a minha sala e agora querem que eu fique tranquila?
Ele ignorou completamente minha indignação.
— Você só precisa esperar.
— Eu não quero esperar.
Apontei novamente para a porta.
— Peguem ele e vão embora.
O olhar de Mikhail ficou mais frio.
— Ele não pode ser movido agora.
— Isso não é problema meu!
Ele deu um passo em minha direção.
— É sim.
— Não é!
Eu respirei fundo, tentando não perder o controle.
— Eu fiz meu trabalho. Agora vocês precisam sair.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
Então falou calmamente:
— Se nós sairmos agora… ele pode morrer.
Aquilo me fez hesitar.
Eu olhei novamente para Dmitry.
A respiração dele estava fraca.
Irregular.
Merda.
Mikhail percebeu minha dúvida imediatamente.
— Então senta e espera.
Eu senti as pernas ficarem fracas.
Acabei me sentando na cadeira mais próxima.
Abraçando meus próprios braços.
Tentando parar de tremer.
Alguns minutos se passaram em silêncio.
Os homens se espalharam pela casa, observando tudo.
Dois ficaram na porta.
Outros perto das janelas.
Como se estivessem esperando outro ataque.
Peguei meu celular do bolso do jaleco.
Enviei uma mensagem rápida para a babá que estava no quarto com minha filha.
Está tudo bem aí?
A resposta veio alguns segundos depois.
Ela continua dormindo.
Meu peito finalmente relaxou um pouco.
Pelo menos isso.
Coloquei o celular de volta no bolso e olhei novamente para o homem deitado no sofá.
Dmitry.
A respiração dele estava mais estável agora.
Mas ainda fraca.
Peguei uma toalha limpa e pressionei novamente sobre o curativo.
Foi então que ele se mexeu.
Primeiro um movimento pequeno.
Depois outro.
Eu me inclinei um pouco mais perto.
Os olhos dele começaram a se abrir devagar.
Azuis.
Mas não um azul comum.
Um azul acinzentado.
Frio.
Confuso.
Ele piscou algumas vezes, tentando focar.
Então me viu.
E ficou me encarando.
Por alguns segundos ninguém disse nada.
Até que ele falou.
A voz rouca.
Fraca.
— Eu morri?
Pisquei surpresa.
— Não.
Ele continuou olhando para mim.
— Estranho…
Franzi a testa.
— Por quê?
Ele soltou um pequeno suspiro.
— Porque você parece um anjo.
Fiquei sem reação por um segundo.
— Eu sou médica.
Ele piscou devagar.
Tentou se levantar.
Mas assim que moveu o corpo, a dor fez ele soltar um som baixo e pressionar a mão contra o curativo.
— Não! — falei rapidamente.
Me aproximei dele.
— Você não pode levantar.
Ele me encarou novamente.
— Quem é você?
— Alessia.
Respirei fundo.
— Seus homens invadiram minha casa para salvar sua vida.
Ele olhou ao redor lentamente.
Percebendo os homens armados na sala.
— Isso parece algo que eles fariam.
Cruzei os braços.
— Agora eles não querem ir embora.
Ele voltou a me olhar.
E dessa vez parecia… mais atento.
— Então você é a médica que me salvou.
— Sim.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
Observando meu rosto.
De um jeito que me deixou desconfortável.
— Você é muito bonita para ser real.
Eu fiquei completamente sem reação.
— O quê?
Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca dele.
Mesmo machucado.
Mesmo quase morrendo.
Ele ainda parecia… perigoso.
— Eu achei que tinha morrido.
— Você quase morreu.
Ele olhou para o próprio curativo.
Depois para mim novamente.
— Então foi você que me trouxe de volta.
Eu dei um passo para trás.
Sem saber exatamente por quê.
Talvez porque algo naquele olhar me deixava inquieta.
Ou talvez porque naquele momento eu percebi uma coisa muito clara.
Salvar a vida daquele homem…
Talvez tivesse sido o maior erro da minha vida.