Capítulo 40 — A Decisão de Desaparecer

1238 Words
Noctávia estava quieta demais. Não era paz. Era vigilância. Gabriel sentia isso antes mesmo de ver. O hospital continuava funcionando normalmente — corredores iluminados, plantões exaustivos, pessoas humanas preocupadas com problemas humanos. Mas às vezes, ao atravessar o estacionamento ao final do turno, ele sentia algo errado no ar. Como se estivesse sendo observado. Não por curiosidade. Por cálculo. A guerra havia terminado oficialmente. O Conselho fora desmantelado. Alguns clãs desapareceram. Outros juraram neutralidade. Mas vampiros não esquecem. E não perdoam facilmente. Gabriel sabia que, enquanto ele existisse, enquanto o poder que corria em seu sangue permanecesse desperto, ele seria um risco para qualquer estrutura de poder que tentasse se reorganizar em Noctávia. Agora havia algo mais. Ele não estava sozinho. Helena estava grávida. A palavra ainda soava surreal, mesmo dias depois da confirmação. Mas a realidade se tornava mais concreta a cada manhã em que ele acordava e a via segurando discretamente o ventre, como se ainda estivesse se acostumando à própria condição. Ele começou a observar padrões. Dois vampiros desconhecidos vistos perto da galeria. Uma presença antiga sentida na região norte da cidade. Sussurros no hospital — pacientes que relatavam “figuras pálidas” observando prédios à noite. Talvez coincidência. Talvez paranoia. Mas Gabriel não acreditava em coincidências. Naquela noite, ele voltou para casa mais cedo. Helena estava sentada no chão da sala, livros espalhados ao redor. Mapas antigos de rotas marítimas, mapas atuais de países distantes. Ela ergueu o olhar quando ele entrou. — Você também sentiu — ela disse, antes que ele falasse. Ele assentiu. — Eles estão se reorganizando. Silêncio. O tipo de silêncio que antecede decisões importantes. Gabriel caminhou até a janela e observou a cidade. — Nós não podemos ficar. A frase caiu no ar como algo inevitável. Helena fechou lentamente o livro que tinha nas mãos. — Você está pensando em sair de Noctávia. Não era pergunta. Era confirmação. Ele virou-se para ela. — Não por mim. Eu ficaria e enfrentaria qualquer coisa. Mas… — ele olhou para o ventre dela — não é mais sobre enfrentar. Helena respirou fundo. Ele continuou: — Mesmo que digam que a guerra acabou, mesmo que finjam neutralidade… o que você carrega é algo que pode mudar tudo. Se descobrirem… se sentirem… Ele não completou. Não precisava. Helena levantou-se devagar. O corpo dela estava diferente. Mais sensível. Mais humano em certos aspectos. Ela sentia mais frio. Mais cansaço. Mais emoção. — Fugir não é algo que eu costumo fazer — ela disse, com um meio sorriso quase triste. — Eu sei. — Mas proteger… é. Ela caminhou até ele. — Para onde iríamos? Gabriel já tinha pensado nisso. — Um lugar distante. Fora dos antigos territórios vampíricos. Fora das rotas que eles usam. Um país isolado. Uma cidade pequena. Algo humano demais para interessar a eles. Helena inclinou a cabeça. — Você está pensando como pai. Ele não negou. — Eu estou pensando em segurança. Ela se aproximou ainda mais. — Mesmo que saiamos… eles podem nos rastrear. Essa era a parte que ele evitava admitir. Vampiros sentem energia. Sentem presenças. Especialmente quando envolvem poder. E Gabriel era uma fonte viva disso. — Eu posso tentar suprimir — ele disse. Helena balançou a cabeça lentamente. — Não é apenas você. O que está crescendo dentro de mim… também emite algo. Eu sinto. É sutil. Mas está lá. Gabriel ficou imóvel. — Então precisamos de algo além de distância. Helena ficou em silêncio por alguns segundos. Ela não falava precipitadamente. Nunca. Quando falava, era porque já tinha pensado. — Existe uma forma de apagar rastros energéticos — ela disse finalmente. Gabriel franziu o cenho. — Como? Ela o encarou. — Magia. A palavra pairou no ar com peso ancestral. Gabriel não era ingênuo. Sabia que magia existia. Sabia que vampiros não eram o único fenômeno inexplicável do mundo. Mas magia era rara. Antiga. Perigosa. — Isso exigiria alguém muito específico. Helena assentiu. — Não qualquer praticante. Não qualquer ritual. Precisaríamos de alguém capaz de selar energias, de mascarar essências, de nos tornar invisíveis para qualquer vampiro. Ela fez uma pausa. — Existe apenas uma pessoa que eu conheço capaz disso. Gabriel percebeu que ela já tinha pensado nisso antes mesmo da conversa começar. — Uma bruxa. — Sim. Ele ficou em silêncio. Não era medo da bruxa. Era medo de confiar em alguém externo. — Você confia nela? Helena demorou um pouco para responder. — Confiança é uma palavra forte. Mas ela não é aliada dos vampiros. Nunca foi. E não responde a clãs. — Onde ela está? — Longe. Gabriel soltou um suspiro controlado. — Então o plano seria sair discretamente, viajar sem chamar atenção, encontrá-la e pedir que nos oculte completamente. Helena assentiu. — Não apenas ocultar. Precisamos que nenhum vampiro seja capaz de sentir nossa energia. Nenhum. Nem mesmo os mais antigos. Gabriel caminhou pela sala, a mente já traçando rotas, possibilidades, riscos. — Isso pode ter preço. Helena sorriu levemente. — Magia sempre tem. Ele parou diante dela. — Você tem certeza? Ela colocou a mão sobre o ventre. — Eu tenho certeza de que não quero que nosso filho cresça olhando por cima do ombro. Tenho certeza de que não quero ensinar primeiro a ele como lutar. Quero ensinar como viver. A frase atingiu Gabriel profundamente. Viver. Não sobreviver. Viver. Ele segurou o rosto dela com cuidado. — Então nós vamos desaparecer. Helena fechou os olhos por um instante. — Não desaparecer. Recomeçar. Eles começaram a planejar naquela mesma noite. Vender a galeria discretamente. Pedir transferência no hospital sob pretexto acadêmico. Documentos novos. Identidades ajustadas. Nada abrupto. Nada que indicasse fuga. Gabriel sugeriu um país distante, isolado o suficiente para reduzir riscos. Helena analisava mapas, calculando não apenas distância geográfica, mas distância energética dos territórios vampíricos tradicionais. A cada plano traçado, o medo diminuía um pouco. Porque decisão traz poder. No meio da madrugada, quando já haviam discutido rotas e possibilidades, Gabriel sentou-se ao lado dela no chão. — Eu nunca imaginei que a maior batalha da minha vida seria aprender a ser invisível. Helena riu suavemente. — Às vezes a maior força é não ser visto. Ele apoiou a cabeça no ombro dela. — Nós vamos conseguir? Ela olhou para ele com firmeza serena. — Nós já enfrentamos o impossível. Isso é apenas estratégia. Mas, no fundo, ela sabia que havia algo diferente nisso. Guerra é explosiva. Fuga é silenciosa. E o silêncio exige disciplina. Antes de dormir, Helena ficou sozinha na varanda. O vento de Noctávia tocava seus cabelos. Ela olhou a cidade uma última vez como quem começa a se despedir. Ali estavam memórias de dor, de poder, de amor. Ali ela se transformou. Ali quase perdeu Gabriel. Ali encontrou algo que nunca imaginou: maternidade. Ela colocou a mão sobre o ventre. — Eu não sei quem você será. Mas eu sei que não quero que esta cidade decida seu destino. Dentro dela, o pulso parecia mais firme. Como resposta. No quarto, Gabriel observava da porta. Ele já havia decidido. Se precisasse queimar o próprio poder para garantir segurança, faria. Se precisasse abandonar identidade, nome, história — faria. Porque agora havia algo maior do que qualquer vingança. Maior que qualquer guerra. Um futuro. E, naquela noite silenciosa em Noctávia, dois seres que um dia foram símbolos de destruição começaram a arquitetar algo muito mais difícil: Uma vida comum. E para isso, estavam dispostos a se tornarem fantasmas.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD