Gabriel não dormiu.
Mesmo deitado, mesmo com os olhos fechados, o sono não veio. Não porque estivesse com medo, embora o medo existisse, mas porque sua mente estava expandida demais para caber dentro da antiga normalidade.
Helena estava na sala.
Ele sentia.
Não pelo som.
Não pela respiração.
Mas por uma consciência nova, quase instintiva, de que ela ocupava o espaço com uma presença diferente da humana. Era como se o ambiente se reorganiza se ao redor dela.
Às três da manhã, ele levantou-se.
Encontrou-a parada junto à janela, observando a cidade de Noctávia sob a névoa espessa. A luz fraca dos postes delineava seu perfil com uma beleza quase dolorosa.
— Você nunca dorme? — ele perguntou.
Ela virou levemente o rosto.
— Às vezes descanso. Mas não como você.
Ele aproximou-se.
— Eu ainda estou tentando entender como você vê o mundo.
— Mais lento do que parece. Mais frágil do que vocês imaginam.
Ele ficou ao lado dela, olhando a cidade.
— E como você me vê?
A pergunta era vulnerável.
Helena respondeu sem hesitar:
— Como algo que pode quebrar… e ainda assim escolheu ficar.
O coração dele acelerou com a frase.
— Adrian voltará?
— Sim. Ele voltará
A resposta foi direta.
— Ele quer me m***r?
Ela levou alguns segundos antes de responder.
— Ele quer eliminar riscos.
— Então, eu sou um? Não sou?
— No mundo dele, sim.
Gabriel passou a mão pelo cabelo, sentindo o peso da realidade.
— Então não é apenas uma questão de amor impossível. É uma questão de sobrevivência.
— Sempre foi.
O silêncio pairou.
Ele virou-se para encará-la completamente.
— Se eu me tornar como você… eles não poderão me tocar?
Helena fechou os olhos por um instante.
— Poderão. Mas você deixará de ser vulnerável como agora.
— E o preço?
— Sua vida humana. Sua família. Seu trabalho. Sua identidade. Uma parte de você deixará de existir
Ele engoliu em seco.
A imagem do hospital veio à mente. Os pacientes. A rotina. O pai. As memórias de infância.
Tudo teria que morrer antes que o corpo morresse.
— Você sentiu isso? — ele perguntou.
— A perda?
— Sim.
Ela assentiu lentamente.
— Todos os dias nos primeiros cem anos.
A frase o atingiu com força inesperada.
Cem anos.
A escala do tempo era absurda demais.
Gabriel caminhou até o sofá e sentou-se. Helena permaneceu de pé por alguns segundos antes de se sentar à frente dele.
— Diga a verdade — ele pediu. — Você quer que eu escolha a eternidade.
Ela o olhou profundamente.
— Eu quero que você viva.
— Como humano?
— Se possível.
Ele franziu levemente o cenho.
— Você não quer que eu seja como você?
Ela aproximou-se um pouco mais.
— Eu não quero condenar você ao que eu sou.
A sinceridade dela não tinha dramatização.
Era crua.
Gabriel respirou fundo.
— Mas você considerou.
— Porque a ideia de perder você é… insuportável Gabriel.
A palavra ficou suspensa.
Ele sentiu algo mudar dentro de si.
Não era apenas medo da morte agora.
Era medo da separação.
— Se eu envelhecer — ele disse lentamente — você continuará igual.
Ela não respondeu.
Não precisava.
— Você me veria morrer._Constata
— Sim.
A verdade foi dita sem suavização.
Gabriel fechou os olhos.
O ponto sem retorno não era a transformação.
Era a consciência da inevitabilidade.
Se permanecesse humano, o tempo os destruiria.
Se se tornasse vampiro, destruiria tudo o que foi.
Ambas as escolhas exigiam morte.
Ele abriu os olhos novamente.
— Adrian tem razão sobre uma coisa.
Helena ficou alerta.
— Qual?
— Eu já estou mudando.
Ela o observou atentamente.
— Como?
— Ontem eu teria corrido. Teria chamado a polícia. Teria dito que era delírio coletivo.
Ele inclinou-se ligeiramente para frente.
— Hoje estou avaliando prós e contras da imortalidade.
Um leve silêncio se instalou.
Helena tocou o rosto dele com cuidado.
— Você ainda é humano.
— Por enquanto.
O ar entre eles parecia carregado de algo inevitável.
De repente, Helena ficou imóvel.
Os olhos focaram algo distante.
Gabriel percebeu a mudança imediata.
— O que foi?
Ela levantou-se num movimento rápido.
— Ele está próximo.
O coração de Gabriel disparou.
— Adrian?
— Não.
A tensão na voz dela era diferente.
— Outro.
_O quê???? _ Questiona assustado
A janela vibrou levemente com uma pressão quase imperceptível.
Helena posicionou-se instintivamente à frente dele.
O vidro quebrou.
Não por impacto físico.
Mas por força.
Uma figura atravessou a janela como uma sombra sólida.
O corpo aterrissou no chão da sala com elegância predatória.
Era mais jovem que Adrian.
Mas os olhos…
Os olhos não eram jovens.
Gabriel levantou-se, instintivamente colocando-se ao lado de Helena.
— Você deveria ter mantido o humano longe de registros digitais — disse o recém-chegado, a voz fria.
Gabriel sentiu o estômago revirar.
— Ele está sendo monitorado — Helena murmurou.
— Claro que está — respondeu o vampiro. — Você sabe como funciona.
Gabriel percebeu algo importante naquele momento.
Não era apenas Adrian.
Havia uma organização.
Uma estrutura invisível.
E ele havia sido marcado.
— Eu não contei nada a ninguém — disse Gabriel, firme.
O vampiro o analisou.
— Ainda.
Helena deu um passo à frente.
— Ele está sob minha p******o.
O outro vampiro sorriu levemente.
— Você acha que isso é suficiente?
A tensão no ambiente tornou-se quase sufocante.
Gabriel percebeu algo inquietante.
Ele não estava mais apenas reagindo com medo.
Estava sentindo raiva.
Raiva por ser tratado como objeto descartável.
Raiva por sua vida estar sendo debatida como variável matemática.
— Eu estou aqui — ele disse, a voz mais firme do que imaginava. — E eu posso decidir por mim.
Os olhos do vampiro voltaram-se para ele com interesse renovado.
— Pode?
Helena lançou um olhar rápido para Gabriel.
Era um alerta silencioso.
Mas algo dentro dele já atravessara uma linha invisível.
O medo estava cedendo espaço à escolha.
E escolha exige ação.
— Se eu me tornar um de vocês — disse Gabriel, encarando diretamente o invasor — deixo de ser problema?
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Helena virou-se abruptamente para ele.
— Gabriel... Ele a interrompe
— Helena, eu preciso saber.
O vampiro inclinou levemente a cabeça.
— Isso dependeria de quem o transformasse… e de como você se adaptasse.
Helena sentiu o peso daquela conversa fugir do controle.
Gabriel estava se aproximando rápido demais do abismo.
E talvez não fosse apenas amor.
Talvez fosse instinto de sobrevivência.
O invasor deu um passo atrás.
— Decidam rápido. A paciência não é infinita.
E, assim como viera, desapareceu pela janela quebrada.
O apartamento ficou em silêncio novamente.
Mas agora não era apenas revelação.
Era urgência.
Helena voltou-se para Gabriel, os olhos intensos.
— Você não pode decidir sob pressão.
Ele a encarou.
E, pela primeira vez, não havia hesitação no olhar dele.
— Não é mais apenas amor, Helena.
Ela sentiu.
— É sobrevivência — ele completou.
O ponto sem retorno estava próximo.
E ambos sabiam.
Sua decisão , mudaria sua vida e não teria mais como recuar.