Capítulo 3 — Ecos de Eternidade

1216 Words
O nevoeiro de Noctávia naquela noite parecia mais vivo do que nunca. As ruas estavam silenciosas, exceto pelo som distante de passos sobre os paralelepípedos molhados, um toque de água que o vento trazia do mar, e o ocasional som de um sino de igreja ao longe, que parecia marcar não a hora, mas o destino. Gabriel caminhava pela cidade, com os ombros ainda pesados pela rotina do hospital, mas agora carregava outro peso: a lembrança de Helena. Ele não conseguia retirá-la da mente. Cada detalhe dela permanecia vivo: a forma como seus olhos escuros pareciam conter séculos de histórias; o toque frio de suas mãos, que ao mesmo tempo aqueciam de maneira estranha; o perfume que se misturava à névoa e que parecia impossível de identificar, mas impossível de esquecer. O mundo ao seu redor parecia existir em duas camadas: a visível e aquela camada que ela trazia, misteriosa, eterna e levemente perigosa. Enquanto caminhava, lembrava do banco junto ao mar, do toque de mãos, do beijo quase casto, mas carregado de intensidade. Sentiu o coração apertar, a respiração acelerar, como se ele tivesse vislumbrado algo maior do que simples atração humana. Era fascínio. Era medo. Era desejo. E, acima de tudo, era a sensação de que sua vida, a partir daquele momento, jamais seria a mesma. Helena, do alto da Torre Velha, observava o mesmo nevoeiro, mas de uma perspectiva diferente. Para ela, a cidade era sua casa, seu território, sua prisão e seu refúgio ao mesmo tempo. Três séculos haviam-lhe ensinado a controlar tudo: cada emoção, cada impulso, cada movimento. Mas Gabriel despertara nela algo que nenhum treinamento, nenhuma paciência e nenhum instinto poderiam conter completamente. Havia uma vulnerabilidade, uma curiosidade humana que ela não sentia há séculos. Ela desceu da torre com passos silenciosos, percorrendo as ruas com a leveza de quem não quer ser vista, mas com a confiança de quem sabe que poderia ser temida se quisesse. Cada luz refletida na água das ruas, cada música distante das janelas abertas de cafés, cada cheiro de comida, pão recém-assado ou café fresco, parecia desenhar o caminho até ele. E não apenas o caminho físico. Helena sentia a pulsação de Gabriel, quase como se pudesse ouvi-lo mesmo à distância, e cada batida do coração dele a chamava, quase exigia sua presença. Quando finalmente o encontrou novamente, Gabriel estava parado diante de uma das pontes antigas, olhando para o reflexo da lua na água. Ele parecia pensativo, contemplativo, perdido em pensamentos profundos, como se tentasse entender algo que não podia ser explicado. Helena permaneceu atrás de uma coluna de pedra, observando. O coração dele, a respiração, a postura — tudo indicava que ele ainda não a conhecia por completo, mas também que já a reconhecia de uma forma instintiva e irracional. Ela aproximou-se, silenciosa, e apenas disse: — Gabriel. Ele girou, quase surpreendido, e os olhos dele se encontraram com os dela. Mais uma vez, aquele déjà vu. Mais uma vez, a sensação de que algo antigo e profundo estava se desenrolando entre eles. — Helena — disse ele, deixando o nome sair com cuidado, quase reverência. — Eu… estava pensando em você. Ela sorriu, mas não era um sorriso leve. Era medido, profundo, carregado de história. — Eu sei. Ele franziu a testa, curioso e um pouco confuso. — Sabe? — Sei — respondeu, aproximando-se mais. — Sei muitas coisas que você ainda não percebeu. O silêncio que se seguiu não era desconfortável. Era denso, carregado de possibilidades, de mistério, de promessas veladas. Gabriel sentiu novamente a eletricidade no ar, aquela sensação de que qualquer movimento poderia ser decisivo, que cada gesto carregava um significado além do físico. — Eu quero te conhecer — disse ele, finalmente, com um tom de sinceridade que raramente mostrava a qualquer pessoa. — De verdade. Não apenas… no acaso de encontros ou coincidências. Helena estudou o rosto dele, observou o coração acelerado, os músculos tensos, o modo como os olhos brilhavam com curiosidade e algo mais. Ela poderia ter virado e desaparecido naquela mesma névoa. Poderia ter lembrado a si mesma de que ele era humano, efêmero, vulnerável. Mas não fez. Porque algo dentro dela, algo antigo e profundo, dizia que aquele encontro era inevitável. — Então vamos nos conhecer — murmurou ela, permitindo-se uma pequena aproximação. — Mas à minha maneira. Gabriel arqueou as sobrancelhas, intrigado. — À sua maneira? — Sim. Eu tenho meus horários, meus limites — disse ela, caminhando lado a lado com ele agora, a névoa envolvendo os dois como um manto protetor. — E você precisará respeitá-los. Ele sorriu, sentindo-se desafiado, e ao mesmo tempo encantado. — Estou pronto para aprender. O caminho até a ponte antiga parecia se alongar, cada passo marcado pela tensão entre o conhecido e o desconhecido. Gabriel falava sobre a cidade, sobre seus sentimentos, sobre como a medicina o mantinha conectado à vida, enquanto Helena ouvia em silêncio absoluto, absorvendo cada nuance da humanidade dele. A eternidade havia ensinado-lhe a esperar, mas nunca ensinara a arte de admirar alguém de forma tão intensa sem que fosse consumida por completo. Eles sentaram-se na beira da ponte, os pés quase tocando a água fria. O vento soprava, misturando o cheiro do mar com o perfume leve de Helena, uma mistura de flores e algo impossível de identificar, que deixou Gabriel inquieto e completamente consciente da proximidade dela. — Você entende — disse ele, quebrando o silêncio, — que eu não consigo parar de pensar em você desde o primeiro encontro? Helena fechou os olhos por um instante, sentindo o calor do momento, o perigo e o desejo misturados. — Sim, eu entendo — respondeu, com uma sinceridade que surpreendeu até a si mesma. — E você deveria saber que estar comigo não é fácil… e talvez não seja seguro. — Eu sei — disse ele, a voz baixa, firme. — Mas não posso fugir disso. Não quero. E naquele instante, quando as mãos se tocaram novamente, um contato breve, mas elétrico, ambos sentiram o que estava se formando entre eles. Não era apenas atração, nem curiosidade. Era algo antigo, profundo, um reconhecimento que transcendia a lógica, a ciência e o tempo. Helena olhou para ele, para o rosto humano que pulsava de vida, e por um instante, esqueceu o que era ser imortal. Por um instante, permitiu-se sentir o que há séculos não sentia: esperança, desejo e uma vulnerabilidade genuína. Gabriel, por sua vez, sentiu-se transportado para um mundo onde ciência, razão e lógica não explicavam nada. Havia apenas ela, e a promessa silenciosa de algo maior do que ambos poderiam compreender. O beijo, quando finalmente aconteceu, foi lento, carregado de tensão, cuidado, e uma eletricidade quase palpável. O mundo pareceu suspender-se ao redor deles. Para Gabriel, foi a confirmação de que sua vida mudaria para sempre. Para Helena, foi o perigo absoluto, mas também a sensação deliciosa de estar viva como nunca estivera. Quando se afastaram, o silêncio não era desconfortável. Era cheio de promessa, de expectativa e de algo que nenhum dos dois poderia negar. Helena, de volta à Torre Velha, permaneceu diante do espelho antigo, tocando os próprios lábios e observando o reflexo de alguém que começava a se esquecer da imortalidade, permitindo que Gabriel moldasse seu mundo de maneira lenta, perigosa e irresistível.
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