Capitulo 31_Quando a Luz Foi Levada

1444 Words
A morte de dois membros do Conselho não trouxe silêncio. Trouxe cálculo. Trouxe estratégia. Trouxe medo — mas um medo antigo, refinado pela experiência de séculos. O Conselho não reagiria com impulsividade novamente. Eles entenderam algo fundamental sobre Gabriel Monteiro: Ele não lutava por poder. Ele lutava por ela. Helena era o centro gravitacional do caos. E Caelum, o mais antigo entre eles, sabia que nenhuma criatura — por mais poderosa que fosse — é invencível quando o coração é a âncora. Naquela manhã, Helena insistiu em sair. A cidade precisava continuar existindo para ela, ou tudo perderia sentido. — Eu não sou um objeto frágil, Gabriel — disse com firmeza, enquanto ajustava o casaco leve sobre os ombros. — Se você me trancar, eu vou quebrar. Ele a observava com aquele silêncio intenso que dizia mais do que palavras. — Eles estão esperando uma a******a. — Então não dê a eles o que querem. Ela se aproximou e segurou o rosto dele com as duas mãos. Havia ternura ali. Ainda havia amor. — Eu não posso ser apenas a sua vulnerabilidade. Ele fechou os olhos por um segundo. Depois assentiu. — Eu fico perto. Helena sorriu levemente. — Eu sei que fica. A galeria estava tranquila. Luz natural entrando pelos grandes painéis de vidro. Obras minimalistas penduradas com elegância. O cheiro sutil de verniz e café recém-passado. Por algumas horas, Helena quase conseguiu fingir normalidade. Conversou com uma cliente habitual. Revisou contratos. Organizou uma futura exposição. Mas por baixo da rotina, havia tensão. Um arrepio constante na pele. Como se estivesse sendo observada por algo que não precisava de olhos. Quando o último visitante saiu, a campainha da porta tilintou suavemente. Ela caminhou até o balcão para fechar o caixa. E então sentiu. O ar ficou pesado. Não mais frio. Denso. A porta da galeria se fechou sozinha. O clique ecoou alto demais no silêncio. Helena virou-se lentamente. Caelum estava ali. Impecável. Sereno. Ao lado dele, Adrian. E uma mulher que ela nunca havia visto — cabelos negros presos em um coque severo, expressão vazia, olhos sem emoção. — Não recomendo correr — disse Caelum, a voz suave como um professor paciente. Helena ergueu o queixo. — Eu não corro. Adrian desviou o olhar. A mulher desconhecida retirou do bolso um artefato metálico — pequeno, circular, gravado com símbolos antigos que pulsavam em azul profundo. Helena reconheceu a energia. — Covardes — murmurou. A mulher ativou o dispositivo. O mundo mudou instantaneamente. O ar tornou-se espesso como se Helena estivesse submersa em água invisível. Seus músculos responderam com atraso. O coração acelerou. Ela tentou dar um passo. O chão pareceu segurá-la. Adrian foi até ela antes que caísse. Segurou-a pelos ombros. O toque dele não era violento. Era triste. — Eu não queria isso — disse ele em voz baixa. Helena olhou direto nos olhos dele. — Mas escolheu. Caelum aproximou-se. — Ele está fora de equilíbrio. E você é o eixo. — Então parem de empurrá-lo — respondeu ela. Caelum não demonstrou irritação. Apenas observação. — Às vezes é preciso quebrar algo para impedir que destrua tudo ao redor. A contenção intensificou. Helena tentou resistir, mas o artefato drenava energia física e mental. A última coisa que viu foi Adrian fechando os olhos brevemente. Depois, escuridão. Gabriel sentiu. Não como pensamento. Não como suspeita. Como ruptura. Ele estava atravessando uma avenida quando parou abruptamente. O mundo ao redor continuou em movimento, mas para ele tudo ficou distante. O vínculo ainda existia. Mas estava… abafado. Como uma estrela vista através de neblina espessa. Ele fechou os olhos. Buscou. Helena estava viva. Mas bloqueada. Contida. — Não — murmurou. O poste de luz ao lado dele entortou levemente sem que ninguém tocasse. As pessoas ao redor começaram a se afastar instintivamente. O ar vibrava. Ele expandiu a percepção. Encontrou rastros. Energia ancestral. Runas. Conselho. A contenção que haviam usado antes. Mas dessa vez, ajustada. Aperfeiçoada. Ele desapareceu do local. Não correu. Dobrou o espaço. A galeria surgiu diante dele em menos de um segundo. A porta estava fechada. Intacta. Mas o interior… Vazio. Ele entrou. As obras ainda pendiam nas paredes. O balcão organizado. Nada destruído. Mas o cheiro… Ele ajoelhou no centro do salão. Tocou o chão. Ali. Resíduo energético. Artefato antigo. E algo mais. Adrian. Os olhos de Gabriel se tornaram dourado incandescente. A pressão no ar aumentou. Os quadros começaram a tremer nas paredes. — Eu avisei — ele sussurrou. E então a cidade sentiu. No subterrâneo do Conselho, Helena despertou lentamente. A cela era diferente das anteriores. Não havia grades visíveis. Era um espaço circular feito de pedra antiga, coberto por inscrições luminosas que pulsavam ritmicamente. Ela tentou se mover. A energia reagiu imediatamente, pressionando seus músculos como mãos invisíveis. Não era dor física intensa. Era limitação absoluta. Adrian estava do lado de fora da câmara. Sozinho. — Onde estou? — ela perguntou, mantendo a voz firme. — Em segurança. Ela riu sem humor. — Segurança para quem? Ele não respondeu. Ela o encarou. — Você acha que isso vai funcionar? — Ele precisa ser contido. — Contido ou destruído? O silêncio dele respondeu. Helena aproximou-se da barreira invisível. — Ele vai vir. Adrian finalmente a olhou. — Eu sei. Havia algo quebrado no olhar dele. Algo que ele tentava esconder desde o início. — Eu não queria que fosse assim. Helena suavizou a expressão por um instante. — Então por que continua escolhendo o lado errado? Ele não tinha resposta. Porque a verdade era simples demais: Ele amava alguém que nunca o amaria. E estava disposto a destruir o mundo dela para provar que estava certo. Gabriel encontrou o Conselho em menos de uma hora. Não porque foi guiado. Mas porque não se importou mais em se esconder. Ele atravessou o portal subterrâneo como uma tempestade viva. Guardas tentaram bloquear o caminho. Foram lançados contra as paredes sem que ele sequer diminuísse o passo. A câmara principal estava iluminada. Caelum aguardava. Outros membros restantes posicionados estrategicamente. — Onde ela está? — Gabriel perguntou. A voz não era alta. Mas o chão vibrou sob seus pés. Caelum manteve a postura serena. — Viva. A resposta foi calculada. Gabriel fechou os olhos por um segundo. Sentiu. Sim. Ela estava ali. Profunda. Contida. Mas viva. Ele deu um passo à frente. A energia ao redor dele começou a se expandir em ondas visíveis. As inscrições nas paredes reagiram. Tentando estabilizar. — Se avançar, a contenção se intensifica — disse Caelum. Gabriel não parou. — Vocês não entendem. Outro passo. O teto começou a rachar. — Eu não estou negociando. Caelum fez um gesto. E o chão sob Gabriel se abriu em um círculo perfeito. Ele caiu. Mas não atingiu fundo algum. Parou no ar. Flutuando. A contenção ativou-se ao redor dele — múltiplas camadas de runas, antigas e recém-gravadas, comprimindo energia contra o corpo dele. Ele tentou expandir. Sentiu resistência. Mais forte do que antes. Helena sentiu também. A contenção dela pulsou violentamente. Ela caiu de joelhos. — Gabriel — sussurrou. Adrian percebeu. — Eles estão conectados — murmurou. Caelum observava com atenção quase científica. Gabriel abriu os olhos. Dessa vez, não eram apenas dourados. Havia traços de algo mais profundo. Quase n***o no centro da íris. Ele parou de tentar expandir. Mudou estratégia. Em vez de empurrar para fora… Ele puxou para dentro. A energia das runas começou a oscilar. Ele absorvia. Aprendia. Adaptava-se. Caelum percebeu tarde demais. — Interrompam! Mas as inscrições começaram a apagar-se uma a uma. Como estrelas morrendo. A contenção estilhaçou. Não com explosão. Mas com implosão silenciosa. Gabriel pousou no chão. Livre. O silêncio que se seguiu foi absoluto. — Última chance — ele disse. A voz agora era baixa demais. Fria demais. — Tragam Helena. Caelum não recuou. — Você já ultrapassou o limite. Gabriel inclinou levemente a cabeça. — Não. A energia ao redor dele distorceu o ar. — Eu ainda estou segurando. E todos ali perceberam. Se aquela contenção falhara… Nada que possuíam seria suficiente. Caelum finalmente fez um gesto. As portas laterais se abriram. Helena foi conduzida para o centro do salão, ainda envolta pela energia limitadora. Os olhos dela encontraram os dele. E o mundo inteiro pareceu reduzir-se àquele ponto. Ele deu um passo. As runas ao redor dela começaram a falhar apenas pela proximidade. — Gabriel — ela sussurrou. E naquele instante, todos souberam. O Conselho havia cometido o maior erro de sua história. Porque o que estavam tentando quebrar… Era exatamente o que o tornava imparável. E agora que ele a via contida… A guerra deixava de ser defesa. Tornava-se vingança. E dessa vez… Não haveria contenção que sobrevivesse.
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