A cidade não dormia.
Mas naquela noite, ela também não respirava.
Algo invisível pairava sobre os prédios, escorria pelas ruas, infiltrava-se nos becos como névoa silenciosa. As pessoas comuns sentiam apenas um desconforto inexplicável. Um arrepio na nuca. Um medo sem motivo aparente.
Mas para os que pertenciam à noite… aquilo era um chamado.
O clã havia declarado guerra.
No apartamento de Helena, o silêncio era espesso.
Gabriel estava imóvel perto da janela, mas não parecia contemplar a paisagem. Seus sentidos estavam expandidos, atravessando concreto, ferro e carne. Ele sentia presenças. Movimentos coordenados. Estratégia.
Não era mais perseguição.
Era cerco.
Helena caminhava de um lado para o outro, os braços cruzados sobre o peito, tentando organizar pensamentos que se embaralhavam com o medo. Lívia estava sentada à mesa, o computador aberto diante dela, mas a tela já havia escurecido havia minutos. Ela não conseguia escrever uma única palavra.
— Quantos? — Helena perguntou, finalmente.
Gabriel não respondeu de imediato.
Ele estava contando.
— Vinte e três — disse, por fim. — Espalhados. Alguns nos telhados. Outros nos prédios vizinhos. Dois na escada de incêndio.
Lívia engoliu seco.
— Eles não estão tentando invadir?
— Ainda não.
Helena parou diante dele.
— Então o que estão fazendo?
Os olhos dourados dele voltaram-se para ela.
— Esperando reforço.
Um silêncio pesado caiu sobre os três.
Gabriel afastou-se da janela e caminhou até o centro da sala. A energia ao redor dele estava mais estável do que nas ruínas do clã, mas ainda vibrava sob a superfície, como um vulcão controlado à força.
Helena aproximou-se.
— Você consegue enfrentar todos?
Ele a olhou como se a pergunta fosse simples demais.
— Consigo destruir o prédio inteiro.
Ela fechou os olhos por um segundo.
— Não foi isso que eu perguntei.
Ele tocou o rosto dela com a ponta dos dedos.
— Eu sei.
Antes que pudesse dizer mais, o ar mudou.
Uma pressão diferente.
Antiga.
Mais densa.
Gabriel ficou imóvel.
Helena percebeu imediatamente.
— O que é?
A resposta veio como um sussurro grave que parecia ecoar diretamente dentro da mente deles.
— Ele despertou.
A voz não estava na sala.
Mas estava em todos os lugares.
As luzes piscaram.
Lívia levantou-se abruptamente.
— Quem disse isso?
Gabriel já sabia.
— Um ancião.
A presença aproximava-se sem pressa.
Diferente dos outros vampiros, que vibravam como chamas agitadas, essa era como pedra milenar. Fria. Estável. Inabalável.
O vidro da janela não quebrou.
Ele simplesmente se desintegrou em ** fino, como se o tempo tivesse avançado sobre ele em segundos.
E então ele entrou.
Alto. Postura ereta. Cabelos brancos longos presos atrás da nuca. O rosto não carregava idade, mas os olhos… os olhos eram profundos demais.
— Gabriel Monteiro — disse ele, a voz calma como se estivesse cumprimentando um conhecido.
Helena sentiu o instinto de atacar.
Gabriel ergueu a mão levemente, impedindo-a.
— Quem é você? — ele perguntou.
— Sou aquele que ensinou o Conselho a governar antes que a sua linhagem fosse sequer concebida.
Lívia deu um passo para trás.
— Isso é impossível…
O ancião inclinou a cabeça na direção dela.
— A impossibilidade é um conceito humano.
O nome dele ecoou na mente de Gabriel antes mesmo de ser pronunciado.
Caelum.
Um dos fundadores.
Um dos primeiros transformados.
Helena sentiu o peso da história esmagando o ar.
— Vieram negociar? — Gabriel perguntou.
Caelum sorriu levemente.
— Não. Vim observar.
Num piscar de olhos, ele estava diante de Gabriel.
Não houve deslocamento perceptível.
Apenas presença.
E então o impacto.
Os dois foram lançados contra a parede oposta, atravessando concreto como se fosse papel.
Helena gritou o nome dele.
Lívia caiu no chão, protegendo a cabeça.
O prédio inteiro tremeu.
No meio da poeira, Gabriel levantou-se primeiro.
Um corte profundo atravessava seu peito, mas fechava-se à vista.
Caelum saiu da parede destruída como se estivesse atravessando uma cortina.
— Interessante — murmurou o ancião. — Regeneração acelerada. Manipulação gravitacional. Dobra espacial rudimentar.
Gabriel avançou.
O ar ao redor deles explodiu em ondas de choque invisíveis.
Helena tentou se aproximar, mas foi repelida por uma barreira de pressão criada involuntariamente por Gabriel.
Eles não estavam apenas lutando.
Estavam distorcendo o espaço.
Caelum segurou o pulso de Gabriel no meio do ataque.
— Você não entende o que é — disse ele.
Gabriel respondeu com um golpe que fez o teto rachar.
— Eu sei o suficiente.
O ancião foi lançado para fora do prédio, atravessando a fachada e caindo na rua dezenas de metros abaixo.
Gabriel apareceu sobre ele no mesmo instante.
Punho erguido.
Impacto.
O asfalto se partiu como vidro.
Vampiros posicionados nos telhados hesitaram.
Nunca haviam visto um ancião ser pressionado daquela forma.
Caelum segurou o rosto de Gabriel com uma única mão.
E algo diferente aconteceu.
Não foi força.
Foi invasão.
Memórias.
Gabriel viu flashes de séculos passados. Guerras. Pactos. Massacres. A criação do Conselho. A extinção de híbridos anteriores.
— Você não é o primeiro — Caelum sussurrou dentro da mente dele.
A fúria de Gabriel vacilou por meio segundo.
Erro.
O ancião o lançou contra um prédio próximo.
Vidro e concreto explodiram.
Helena chegou à rua nesse momento, ignorando o perigo.
— Pare! — ela gritou.
Caelum olhou para ela.
E foi nesse olhar que tudo mudou.
Ele não viu apenas uma humana.
Viu o vínculo.
Viu a âncora.
E sorriu.
Gabriel sentiu.
Sentiu a intenção antes que o movimento acontecesse.
Caelum avançou em direção a Helena.
Mas não a tocou.
Porque o chão sob seus pés deixou de existir.
Gabriel ergueu ambas as mãos, e um campo de força invisível comprimiu o ancião entre duas pressões opostas.
O som foi como metal sendo esmagado.
Caelum tentou expandir sua própria energia.
O choque de forças fez os postes de luz explodirem em sequência pela rua inteira.
Lívia observava da entrada do prédio, tremendo, mas incapaz de desviar os olhos.
— Gabriel! — Helena gritou, percebendo o que estava acontecendo.
Ele estava ultrapassando novamente.
O ar começou a vibrar em frequência insuportável.
Janelas de prédios vizinhos estilhaçaram.
Carros foram empurrados metros para trás.
Caelum ainda resistia.
Mas pela primeira vez, seu semblante demonstrou esforço real.
— Você vai destruir a cidade — Helena gritou.
E essa frase atingiu mais fundo do que qualquer golpe.
Gabriel hesitou.
A pressão diminuiu.
Caelum aproveitou a fração de segundo.
Escapou.
Recuando dezenas de metros em um salto impossível.
Ele não parecia derrotado.
Mas também não parecia invencível.
— Agora eu entendo — disse ele, encarando Gabriel à distância. — Você cresce por emoção. Por vínculo. Por ameaça.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Então nós sabemos onde cortar.
Helena sentiu o frio atravessar a espinha.
Gabriel avançou novamente.
Mas Caelum já havia desaparecido.
Os outros vampiros recuaram com ele.
A rua ficou em silêncio.
Destruída.
Carros amassados. Asfalto rachado. Fumaça subindo das luminárias destruídas.
Gabriel permaneceu imóvel no centro da cratera.
Helena aproximou-se devagar.
Tocou o braço dele.
— Acabou.
Ele virou o rosto para ela.
Os olhos ainda dourados.
Mas agora havia algo mais.
Culpa.
Lívia aproximou-se também, com passos inseguros.
— Isso foi visto — ela murmurou. — Câmeras. Pessoas. Celulares.
Gabriel respirou fundo.
Pela primeira vez, parecia exausto.
— Não importa mais.
Helena segurou o rosto dele.
— Importa sim.
Ele encostou a testa na dela.
Mesmo no meio dos destroços.
Mesmo com sirenes começando a ecoar à distância.
— Eu não vou deixar que toquem em você de novo.
Ela fechou os olhos.
— Eu sei.
Mas agora o medo dela não era apenas do Conselho.
Era do que ele poderia se tornar.
No alto de um prédio distante, Caelum observava.
O líder do Conselho estava ao lado dele.
— Ele é instável — disse o líder.
— Ele é inevitável — corrigiu o ancião.
Seus olhos antigos estreitaram-se levemente.
— E inevitabilidades precisam ser eliminadas cedo.
A guerra havia escalado.
Não era mais contenção.
Era erradicação.
E da próxima vez…
Não seria apenas confronto.
Seria emboscada.
E talvez, pela primeira vez…
Gabriel não estaria preparado.