Capítulo 1 — A garota que não sabia ficar calada
Valentina Duarte sempre acreditou que algumas portas só se abriam quando alguém tinha coragem de empurrá-las. Naquela manhã, diante dos portões imponentes da Universidade Saint Claire, ela repetiu essa ideia como um mantra.
Ela ajeitou a alça da mochila no ombro e respirou fundo. Não tinha carro, roupas de grife nem sobrenome importante. Tinha conseguido uma bolsa integral depois de anos estudando à noite, trabalhando aos fins de semana e ouvindo que sonhar alto era uma forma bonita de se decepcionar. Mesmo assim, estava ali. E ninguém faria com que se sentisse pequena.
— Primeiro dia e você já está com cara de quem pretende declarar guerra ao mundo — comentou uma voz ao seu lado.
Valentina virou-se. Um rapaz de cabelos castanhos, sorriso fácil e olhos curiosos segurava dois cafés.
— Só estou tentando descobrir se esse lugar é uma universidade ou um clube para herdeiros — respondeu ela.
Ele riu e estendeu um dos copos.
— Enzo Almeida. E esse café é uma oferta de paz.
— Valentina Duarte. Aceito o café, mas não prometo paz.
— Ótimo. Gente pacífica demais costuma ser entediante.
Os dois caminharam pelo pátio, enquanto Enzo explicava onde ficavam as salas, a biblioteca e o refeitório.
Até que um carro preto parou perto da entrada.
O veículo era elegante, discreto e caro o bastante para chamar atenção sem precisar de nenhum esforço. O motorista desceu primeiro e abriu a porta traseira. Um rapaz saiu ajeitando os punhos da camisa escura. Alto, cabelo n***o, expressão séria e um olhar que parecia avaliar cada pessoa antes de decidir se merecia ser notada.
As conversas ao redor diminuíram. Algumas garotas sorriram. Outras cochicharam.
— Aquele é Dante Montenegro — explicou Enzo, baixando a voz. — Filho de uma das famílias mais ricas da cidade. Bonito, arrogante e convencido de que o mundo existe para obedecer a ele.
— Parece uma combinação insuportável.
— Você ainda não falou com ele.
— Não preciso provar que o fogo queima para saber que não devo abraçá-lo.
Como se tivesse ouvido, Dante ergueu os olhos na direção deles. Seu olhar parou em Valentina por um instante, desceu até o copo de café em sua mão e voltou ao rosto dela. Não sorriu. Apenas se aproximou com a tranquilidade de quem nunca precisara pedir licença.
— Enzo — cumprimentou ele. — Não sabia que você estava fazendo trabalho voluntário.
Enzo suspirou.
— Bom dia para você também, Dante.
— E quem é sua nova amiga?
Valentina respondeu antes que Enzo pudesse abrir a boca.
— Alguém que consegue se apresentar sem precisar de um assessor.
Uma sobrancelha de Dante se ergueu. Por um segundo, pareceu surpreso. Depois, um sorriso lento apareceu no canto de sua boca.
— Corajosa.
— Não. Só tenho alergia a arrogância.
— Então deve estar sofrendo bastante aqui.
— Principalmente perto de você.
Enzo soltou uma risada que tentou disfarçar com uma tosse. Dante não pareceu ofendido. Ao contrário, olhou para Valentina com interesse renovado, como se ela tivesse acabado de oferecer um desafio que ele não sabia que procurava.
— Qual é o seu nome? — perguntou.
— Você estava aqui quando eu disse.
— Gosto de ouvir as coisas diretamente da pessoa.
— Valentina Duarte.
O efeito foi discreto, mas real. O sorriso de Dante desapareceu. Seu rosto ficou imóvel, e os dedos que seguravam o celular se fecharam com força. Valentina percebeu a mudança, embora não entendesse o motivo.
— Duarte? — repetiu ele.
— Sim. Algum problema com o meu sobrenome?
Dante demorou um instante para responder.
— Nenhum que você precise conhecer.
— Que alívio. Eu estava preocupada com a sua autorização.
Ela passou por ele e seguiu em direção ao prédio principal. Enzo apressou o passo para acompanhá-la, deixando Dante para trás. Valentina fingiu não notar que o olhar dele continuava preso nela.
— Você realmente não tem instinto de sobrevivência — murmurou Enzo quando chegaram ao corredor.
— Por responder a um garoto mimado?
— Por responder àquele garoto mimado. Dante não costuma gostar de ser contrariado.
— Então ele pode começar a praticar.
Enzo olhou para ela como se estivesse tentando decidir se a admirava ou se precisava chamar alguém para protegê-la.
— O que aconteceu com Dante? — perguntou ela.
Enzo perdeu o sorriso.
— Por que quer saber?
— Porque ele agiu como se meu sobrenome fosse uma ameaça.
Enzo olhou para os estudantes espalhados pelo gramado antes de responder.
— Há dois anos, alguma coisa aconteceu entre as famílias Montenegro e Duarte. Ninguém fala claramente sobre isso. O pai de Dante ficou ainda mais reservado, e Dante mudou também. Antes, ele era convencido, mas não parecia carregar o mundo nas costas.
— E ninguém sabe o que aconteceu?
— Muita gente diz saber. Cada pessoa conta uma versão diferente. A melhor escolha é não se envolver.
Valentina soltou uma risada curta, sem humor.
— É curioso como todo mundo diz isso quando existe um segredo.
Mesmo assim, a lembrança daquela reação não a abandonou. Durante a aula seguinte, tentou acompanhar as explicações, mas a pergunta voltava sem parar: por que um sobrenome provocava tanto medo? Valentina conhecia a história da família, ou acreditava conhecer. Nunca ouvira falar de dívida.
— Estou falando sério. Se Dante descobrir que você está tentando investigar, pode tornar sua vida aqui muito difícil.
— Minha vida já foi difícil, Enzo. Não atravessei metade da cidade e passei anos estudando para desistir porque um rico tem cara de poucos amigos.
A campainha anunciou o fim do intervalo. Valentina guardou o lanche e voltou para o prédio, decidida a não permitir que os mistérios de pessoas desconhecidas controlassem seu primeiro dia. Mas, ao dobrar o corredor do segundo andar, encontrou Dante encostado perto de uma janela. Ele parecia estar esperando por alguém.
— Precisamos conversar — disse ele.
— Que pena. Eu não preciso.
Valentina tentou passar, mas Dante se afastou da parede e bloqueou o caminho sem tocá-la.
— Escute. Fique longe de mim.
Ela cruzou os braços.
— Você costuma dar ordens a todas as pessoas que conhece ou estou recebendo um tratamento especial?
— Estou tentando evitar um problema.
— Então comece explicando qual é o problema.
Por um instante, Dante pareceu lutar contra a vontade de dizer alguma coisa. Seu olhar ficou menos arrogante, quase cansado. Aquela expressão desapareceu depressa.
— Seu sobrenome traz coisas que você não entende.
— E você acha que me assustar vai me fazer entender?
— Acho que pode impedir você de se machucar.
Valentina sentiu um arrepio, mas não deixou que ele percebesse.
— Não use preocupação como desculpa para ser grosseiro. Se sabe alguma coisa sobre minha família, diga. Se não sabe, saia da minha frente.
Dante recuou. Ela passou por ele, dessa vez sem olhar para trás. Mesmo assim, ouviu a voz dele antes de alcançar a escada.
— Você não faz ideia do que está procurando, Valentina.
Ela continuou andando, embora aquelas palavras a acompanhassem até a sala.
Naquela noite, muito longe da universidade, Dante entrou no escritório da mansão Montenegro. A casa estava silenciosa, iluminada apenas pelos abajures e pelo brilho da cidade além das janelas. Sobre a mesa, havia uma caixa antiga que ele evitava abrir havia meses. Dentro dela, guardava documentos, cartas e uma fotografia desbotada de duas famílias reunidas diante de uma casa de campo.
Dante pegou a fotografia. Seu pai estava ao lado de um homem que reconheceu como o pai de Valentina. Ambos sorriam, como se nunca tivessem imaginado que um dia se tornariam inimigos.
No verso, uma frase escrita à mão permanecia legível: “O que foi prometido precisa ser pago.”
Dante apertou a foto entre os dedos. Durante dois anos, acreditara que manter distância de tudo aquilo protegeria sua família. Agora, Valentina Duarte havia aparecido na Saint Claire, sem saber que carregava o sobrenome ligado à dívida que destruíra a paz entre eles.
Ele não sabia se ela era parte do problema ou a única pessoa capaz de revelar a verdade. Só sabia que deveria mantê-la longe.
Mas Valentina nunca pareceu gostar de obedecer.