—Pensei que nunca mais ia ver você por aqui —foi a primeira coisa que Edna falou ao me ver chegar com sua filha —Faz mais de mês que não aparece, menina.
—Não faz tudo isso, dona Edna —falei envergonhada e a deixei me puxar para um abraço apertado —A última vez que vim foi no aniversário de Rosa e isso só faz...
—Mais de mês —disse ela com um sorriso convencido. Tive que abaixar a cabeça.
Não acreditava que já fazia um mês que estava namorando. Não tinha me ligado em datas e acredito que nem Cristiano, mas o tempo passou bastante rápido. Era inacreditável. Tinha dias que me questionava se eu não estava realmente dormindo. Se isso estava acontecendo mesmo comigo.
—Desculpa —falei por fim, escutando as risadinhas de Rosa —Vou vim mais vezes. Prometo.
—Venha mesmo —falou séria e me soltou, dando um sorriso genuíno —Mas me conte o que a tem deixado tão ocupada. É um namorado?
Meus olhos arregalaram e não sabia o que dizer. Olhei para Rosa, que sorriu inocentemente. Ela não iria me ajudar a sair dessa, isso que seu sorriso dizia.
—É um namorado? —insistiu ela com a voz empolgada. Se virou para filha —Por que não me contou?
—Eu contaria se soubesse de alguma coisa —disse ela dando de ombros —Enfim, você não estar atrasada para o trabalho?
—Eita, estou mesmo —ela deu uma olhada em seu relógio e se voltou para mim —Depois quero saber desse babado com detalhes, viu? E não desapareça mais —Só fiz assenti com a cabeça e ela se virou para Rosa —Ajude seu irmão a preparar o almoço e não briguem, ok? —deu um beijo na cabeça dela —Chego perto das 22:00 horas. Sejam responsáveis.
Rosa fez uma careta, mas assentiu e se despediu de sua mãe. Era sempre o mesmo discurso ao sair de casa, mas é um melhor um discurso repetido, do que nenhum, certo? Edna era sempre carinhosa com seus filhos. Queria me dar tão bem assim com minha mãe. Não lembro a última vez que eu a abracei e nem sei se ela aceitaria um abraço meu se eu tentasse.
—Realmente faz um tempo que não tiramos um tempo para nós, não é? —comentou Rosa pensativa depois que sua mãe saiu.
—Acho que tem muitas coisas acontecendo —dei de ombros e a seguir para seu quarto, onde deixei minha mochila —Só vamos aproveitar essa tarde juntas.
Ela sorriu, concordando.
—Mas só depois que eu tomar um banho —apontou para suas axilas —Você não vai querer chegar perto de mim com esse cheiro —apenas revirei os olhos para seu exagero —Você poderia ajudar o Cris enquanto isso? Ou é muito arriscado ter facas entre vocês dois?
Sentir meu rosto esquentar. Esse era o motivo que tinha evitado tanto vim para cá nos últimos dias. Como agiria com Cristiano perto de sua família? Como se o odiasse? Ou de forma amigável? Ou deveria contar? Como Rosa reagiria a eu e o irmão dela juntos? O que Edna diria se soubesse? Ela ficaria feliz? Por mais que as conhecesse, não tinha certeza das respostas, o que sempre me fazia recuar em contar a verdade.
—Vou tentar o meu melhor —falei por fim com um sorriso —Mas se seu irmão acabar em uma panela também, eu sou inocente.
—Você sempre é —ela riu e foi em direção ao banheiro.
Eu segui para a cozinha. Estava nervosa. Mesmo agora, ainda ficava com receio de como Cristiano iria reagir as coisas. Não tinha falado a ele que viria, então não sabia se isso iria o irritar. Eu deveria ter contado de manhã quando nos falamos, mas o assunto só não surgiu.
Quando cheguei a cozinha ele estava ocupado demais picando alguma coisa em cima da pia e não me notou, então me encostei na porta, o observando. Sabia que ele era um cozinheiro de primeira, mas não sabia que era tão sexy o ver cozinhando. Estava tão concentrado no que fazia, sua expressão tão séria. Fazia tudo com tanto cuidado e com agilidade. Não me importaria de ficar apenas o observando.
—Você vai vim aqui me ajudar ou vai ficar só olhando? —ele perguntou. Não levantou o olhar para mim, mas o sorriso em seu rosto demonstrava que tinha me notado desde o início.
—Pensei que não tinha me visto —comentei me aproximando dele e o abracei pelas costas. Amava o abraçar, sentir a firmeza dos seus músculos, o seu calor e cheiro. Estava virando uma pervertida pelo cheiro dele.
—Eu sempre vejo você, linda —disse ele terminando de picar as cebolas. Agora que estava perto, conseguia sentir o cheiro inconfundível —E ai? Vai ou não me ajudar?
—Prefiro olhar você fazer —beijei seu cangote, sorrindo ao ver sua pele arrepiar. Ali era um lugar sensível para ele e adorava provocar essa reação.
—Não —sua voz ficou mais rouca —Na minha cozinha, ninguém fica sem ajudar.
—Na sua cozinha, é? —o encarei.
—É, na minha cozinha —me roubou um beijo —Me ajude, por favor.
—Só porque pediu por favor —o provoquei sorrindo e lavei minhas mãos na pia —O que quer de mim, senhor?
—Descasque essas batatas.
Me entregou uma faca e três batatas grandes. Enquanto fazia o que me pediu, sentia seu olhar em mim e quando não aguentei mais, me virei para ele.
—Que foi?
—Você é linda, sabia disso? —disse ele com um sorriso bobo. O jeito que me olhava me fazia sentir desconfortável, como se não acreditasse que eu estava realmente ali.
—Obrigada, eu acho —era desconfortável quando alguém me elogiava. Não sabia como responder —Enfim, você não parece surpreso em me ver.
—Rosa me falou que você vinha —voltou a atenção para suas cebolas, pegando mais uma inteira para picar —Ela estava preocupada de eu chatear você, de novo. Disse que você não queria mais vim para cá por minha causa.
—Meio que é verdade —disse em tom de brincadeira, mas ele não respondeu.
—Quando vai contar para sua melhor amiga que tá comigo?
—Eu... —comecei sem saber o que dizer. Afinal por que estava tão relutante em contar?
—Eu juro que estou tentando ter paciência, Anna —disse ele em voz baixa —Entendo que sou seu primeiro namorado e todo o resto, mas estar comigo é tão vergonhoso assim que não consegue nem contar para Rosa, a quem conta todos seus segredos?
—Não tenho vergonha de você, Cristiano —falei séria.
—Então do que tem vergonha?
De mim. Eu tenho vergonha de mim. Sempre que penso em nos dois lado a lado sinto vontade de me esconder. Não é uma imagem bonita, não uma imagem que combine. Não somos um casal que combina, que ficaria bem em um porta retrato. E o que faço se todos pensarem assim também? E se Cristiano não pensar assim, mas alguém lhe falar algo e ele começar a perceber isso? Qual o problema de querer o guardar para mim só mais um pouco?
Não conseguiria dizer isso a ele. Não o quanto estava sendo egoísta em querer guardar nossa relação, em querer proteger isso pelo tempo que eu puder.
—Eu vou falar com ela —em algum momento.
—Mas não hoje, não agora, né?
Não respondi. Não precisava.
Depois disso, até tentei puxar conversa, tentei conversar sobre qualquer coisa, mas ele se fechou. Tudo que respondia era “Hm” e “Aham”, então desisti. Fizemos o resto do almoço em silêncio, ele dando algumas instruções às vezes, mas não falando nada mais.
Quando estava tudo pronto, Rosa apareceu. A menina era tão esperta que só apareceu quando o almoço já estava na mesa para não precisar nem colocar os pratos. Cristiano também percebeu isso, mas não comentou nada, apenas comeu sua comida em silêncio, ignorando nossas existências. Ou melhor, ignorando a minha existência. Odiava quando ele fazia isso. Odiava saber que estava chateado comigo e que não podia fazer nada. Não agora. Não na frente de Rosa.
—A gente deveria chamar o André, não é? —a pergunta de Rosa me pegou de surpresa e mesmo com Cristiano não demonstrando nenhuma reação, sabia que estava prestando atenção.
—Eu chamei —não o olhei, desconfortável —Já que faz tempo que nós três não saímos juntos. Só que ele tinha planos.
—Sério? Que pena —disse ela pensativa, então sorriu —Acho que ele prefere se encontrar só com você, em? Nas sextas feiras, ele nunca tem compromisso.
Eu e André estávamos muito viciados em uma série, mas prometemos só terminar ela juntos, então toda sexta ele ia lá para casa para assistirmos, mesmo depois de eu começar a namorar. Não é nada demais, sempre fizemos isso. E não tem nenhum interesse à mais, entretanto do jeito que Cristiano estava bravo, parecia que tinha feito algo muito errado.
—Isso não é verdade, Rosa —estava começando a ficar nervosa. Por que Rosa estava sendo tão faladeira na frente de Cristiano? Bem, na verdade, ela nunca teve esse cuidado antes e, sinceramente, não me importava com a opinião dele. Só que isso era antes, agora eu me importava muito —Você que nunca quis se juntar a nós. Está sempre ocupada.
—É claro, bobinha —continuou Rosa sorrindo e eu sabia que lá vinha a cereja do bolo —Como vocês vão começar a namorar se eu ficar no meio, empatando?