CAPÍTULO 10

581 Words
O jantar terminou, mas a noite estava longe de acabar. Ana permanecia sentada na cobertura de Victor como se o chão tivesse se deslocado sob seus pés. Nada ali exigia sua permanência, nenhuma porta trancada, nenhuma ameaça explícita. Ainda assim, ela não se levantava. Victor observava em silêncio, apoiado na bancada de mármore, o olhar atento demais para ser casual. Ele não precisava pressionar. O poder dele estava na certeza. — Você percebeu, não percebeu? — ele disse, finalmente, quebrando o silêncio. Ana ergueu os olhos devagar. — O quê? Victor caminhou até a janela, fitando a cidade lá embaixo como um rei observa seu território. — Que sua vida não é mais a mesma desde que entrou no meu clube. Ela respirou fundo. Aquilo não era uma pergunta. Era um veredito. — Eu ainda tenho escolhas. Victor sorriu de leve. Não houve escárnio. Apenas paciência. — Tem. — Ele virou-se para ela. — Mas nenhuma delas te leva para longe de mim. Ana sentiu um aperto no peito. Tentou se levantar, mas a presença dele a manteve imóvel, como se o ar estivesse mais pesado ao redor. — Isso é controle. — Ela disse, a voz firme, apesar do turbilhão interno. Victor se aproximou lentamente, parando a poucos passos. — Não. — respondeu. — Isso é reconhecimento. Você já percebeu quem eu sou. E mesmo assim… ficou. Ele estendeu a mão. Não tocou nela. Esperou. — Não existe contrato assinado, Ana. Nenhuma cláusula. Nenhuma obrigação formal. — a voz dele baixou. — Mas existe algo mais forte. Um acordo silencioso. — E o que eu perco nesse acordo? Victor inclinou a cabeça, os olhos escurecendo. — A ilusão de que está no controle. Ana fechou os olhos por um instante. Quando os abriu, Victor estava mais perto. Próximo o suficiente para que ela sentisse o calor dele. — E o que eu ganho? — ela sussurrou. — Proteção. Verdade. Presença. — Ele ergueu o queixo dela com dois dedos firmes. — Enquanto estiver comigo, ninguém toca em você. Ninguém te ameaça. Ninguém decide nada sem passar por mim. O coração de Ana disparou. Aquilo deveria assustá-la mais do que qualquer coisa. Mas parte dela se sentiu… segura. — Isso não é amor. — Nunca disse que era. — Victor respondeu, sem hesitar. — É posse consciente. Você sabe exatamente com quem está lidando. Ela se afastou um passo, respirando fundo. — E se eu tentar ir embora? Victor não avançou. Apenas sorriu, tranquilo demais. — Você pode sair pela porta agora. — Ele apontou calmamente. — Mas levará tudo isso com você. O que viu. O que sentiu. O que despertou. Ana olhou em direção à saída. Depois voltou o olhar para ele. — Você tem certeza demais. — Porque eu observo padrões. — Ele respondeu. — E você já quebrou todos os seus. O silêncio se instalou novamente, espesso e definitivo. Ana percebeu, com um misto de lucidez e medo, que não havia algemas visíveis mas já existia um vínculo. Invisível. Irreversível. — Eu não assinei nada. — Ela murmurou. Victor se aproximou uma última vez, parando diante dela. — Não precisa. — disse suavemente. — Você já aceitou quando ficou. E naquele instante, Ana compreendeu a verdade mais dura de todas. Sua vida não havia sido tomada à força. Ela havia sido deslocada, lentamente, para a órbita de Victor Moretti. Um contrato silencioso fora firmado. Sem tinta. Sem papel. Apenas vontade, medo… e desejo suficiente para mudar tudo.
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