CAPÍTULO 1
Agora
A cidade nunca dormia, e naquela noite, sob o brilho prateado da lua, Ana sentia o peso de sua escolha.
O vento frio roçava sua pele exposta enquanto ela observava, à distância, a fachada imponente do "O Dono da Noite", o clube mais exclusivo e temido da cidade.
O lugar era envolto em segredos, boatos e histórias perigosas sobre seu dono – Victor Moretti.
Como jornalista investigativa, Ana já tinha mergulhado em cenários de crime, escândalos políticos e corrupção policial, mas nada se comparava àquela missão.
O nome Moretti carregava poder e medo.
Alguns diziam que ele era um empresário brilhante, outros, um criminoso sem piedade.
O que ela sabia com certeza era que ele controlava tudo que acontecia no submundo da cidade.
Seu editor havia sido claro:
— Se conseguir informações sobre Victor Moretti, será o furo de reportagem da década.
Ana se vestiu para se misturar no ambiente , um vestido preto justo, que abraçava suas curvas sem ser vulgar, e saltos que realçavam sua postura confiante.
O cabelo solto caía como uma cortina sedosa ao redor do rosto.
Uma máscara de ousadia cobria seu medo, mas seu coração martelava no peito.
Ela caminhou até a entrada do clube, onde dois seguranças brutamontes a analisaram com desconfiança.
— Nome na lista? — Um deles perguntou, a voz rouca e impessoal.
Ana sorriu, fingindo segurança.
— Fui convidada por um amigo.
O segurança a olhou de cima a baixo, hesitando.
Mas antes que ele pudesse negar sua entrada, uma mulher de curvas exuberantes e vestido vermelho carmesim se aproximou.
— Deixe-a entrar. — A mulher disse, seus lábios pintados com um sorriso enigmático.
Ana não sabia se aquilo era sorte ou um jogo que ela não entendia. Mas agradeceu com um aceno e passou pelas portas duplas do clube.
Assim que entrou, foi engolida pelo ambiente.
Luzes vermelhas e douradas dançavam pelo teto, refletindo nos copos de cristal espalhados pelas mesas reservadas a clientes seletos.
O cheiro de whisky caro e desejo pairava no ar, misturado ao som grave da música sensual que vibrava nas paredes.
No palco, uma mulher girava em um pole dance, o corpo se movendo como uma promessa perigosa.
Ana sentiu olhares sobre ela. Não era bem-vinda ali.
Ela andou lentamente, tentando parecer natural. Seus olhos buscavam Victor Moretti, mas ele ainda não estava à vista.
Então, sentiu.
O arrepio na nuca. A sensação de ser observada.
Seu corpo inteiro reagiu antes mesmo que ela o visse.
Quando ergueu os olhos para um dos camarotes escuros acima, seu olhar se encontrou com o dele.
Victor Moretti.
A tensão entre eles foi instantânea, densa como um nevoeiro que sufoca. Ele estava sentado em um sofá de couro preto, uma taça de conhaque entre os dedos, observando-a como se já soubesse exatamente quem ela era.
Seus olhos eram de um tom castanho-escuro, profundos e intransponíveis. O terno preto caía perfeitamente em seu corpo forte e imponente, mas nada nele era convencional. Ele exalava poder de uma forma quase perigosa.
Ana sentiu o sangue correr mais rápido.
Ela deveria desviar o olhar. Deveria recuar.
Mas não conseguiu.
Victor Moretti não apenas a olhava. Ele a possuía com o olhar.
E naquele momento, Ana soube que acabara de cruzar uma linha da qual talvez nunca mais conseguisse voltar.
O olhar de Victor Moretti pesava sobre Ana como uma corrente invisível.
Ela sentiu um arrepio percorrer sua espinha, mas forçou-se a manter a postura.
O jogo havia começado, e ela não poderia demonstrar fraqueza.
Respirando fundo, desviou o olhar e se dirigiu ao bar.
A música sensual continuava a vibrar pelo ambiente, enquanto clientes sussurravam entre taças de cristal e promessas veladas.
— Vodka com gelo. — Ela pediu ao bartender, sua voz firme, mas baixa o suficiente para se misturar ao som do clube.
— Não imaginava que você gostasse de bebidas fortes.
A voz grave fez seu corpo inteiro reagir. Victor.
Ana sentiu seu coração bater forte, mas não se virou de imediato.
Sabia que ele estava ali, próximo o suficiente para que o calor de seu corpo a envolvesse.
Ele tinha um magnetismo perigoso, algo que fazia o ar ao redor dele parecer rarefeito.
— Gosto do que me mantém alerta. — Ela respondeu, finalmente se virando para encará-lo.
Victor Moretti estava a poucos centímetros dela, seu olhar predador fixo no dela.
De perto, ele era ainda mais intimidador. Alto, imponente, com um terno perfeitamente ajustado, mas os olhos traíam uma intensidade selvagem.
— Interessante. — Ele inclinou a cabeça levemente, observando-a como se pudesse enxergar além da máscara que ela tentava manter.
Ana não podia vacilar. Precisava seguir com seu plano.
— O que um homem como você faz preso em um clube toda noite? — Ela provocou, jogando a isca.
Ele sorriu de canto, mas não foi um sorriso amigável. Foi um aviso.
— Acho que a pergunta certa é o que uma mulher como você está fazendo no meu clube.
O coração de Ana falhou uma batida. Ele sabia. De alguma forma, ele sabia.
— Acredito que seja um lugar público. — Ela ergueu a taça e tomou um gole da vodka, deixando o líquido queimar em sua garganta.
Victor riu baixo, o som rouco e perigoso.
Ele se inclinou um pouco mais, e Ana sentiu o perfume amadeirado misturado ao cheiro de conhaque.
— Nada aqui é público, dolcezza. Tudo que acontece nesse clube está sob meu controle. Inclusive você.
Ana manteve a expressão neutra, mas suas mãos estavam frias. Ele estava testando-a. Tentando fazê-la desmoronar antes mesmo de começar.
— Então talvez você devesse cuidar melhor dos seus segredos. Nunca se sabe quem pode estar ouvindo.
Victor estreitou os olhos. Por um instante, o mundo pareceu parar.
Ele sabia que ela estava escondendo algo.
— Eu gosto de jogos, Ana. Mas odeio ser surpreendido.
Seu nome.
Ele sabia quem ela era.
Ana congelou. Tinha sido descuidada ou ele já a conhecia antes mesmo de entrar ali? Seu estômago se revirou, mas ela manteve a compostura.
— Então acho que não deveria me subestimar. — Ela respondeu, sua voz soando mais ousada do que se sentia.
Victor inclinou a cabeça, seus olhos escuros cravados nos dela.
— Vamos ver até onde consegue ir nesse jogo. Mas cuidado às vezes, quem se infiltra acaba sendo consumido pelo próprio desejo.
Ele se afastou lentamente, deixando para trás um rastro de perigo e um desafio silencioso.
Ana fechou os olhos por um instante, tentando acalmar seu coração acelerado.
Estava oficialmente dentro do jogo. Mas agora, restava saber quem sairia vencedor.