A sensação de estar sendo observada nunca desaparecia.
Desde o instante em que Victor Moretti pronunciou seu nome, Ana sabia que não havia mais espaço para erros.
O jogo já não era apenas profissional, agora, tornou-se pessoal.
Ela precisou de um momento para recuperar o fôlego após o encontro no bar.
Caminhou pelo clube, sentindo os olhos de estranhos a seguindo, como se ela fosse um cordeiro perdido em um antro de lobos.
Mas o olhar que queimava sua pele era o de Victor.
Ele a observava do camarote, onde sombras e poder se misturavam ao seu redor.
Ana decidiu continuar com seu plano. Encontrar alguma pista, qualquer coisa que ligasse Moretti às atividades criminosas que ela suspeitava que ocorriam ali.
Mas era difícil ignorar o fato de que ele já a tinha notado , e parecia se divertir com isso.
Ela se misturou entre os clientes, deixando os dedos deslizarem suavemente pelas mesas de vidro, observando discretamente os homens e mulheres que sussurravam negócios que jamais poderiam ser registrados em contratos formais.
Estava ali para conseguir algo concreto. Algo que expusesse Victor Moretti.
Mas, no fundo, havia um problema que ela se recusava a admitir.
Desde que seus olhos encontraram os dele pela primeira vez, uma corrente elétrica pulsava entre eles.
Era um perigo. Mas também era um desejo visceral.
Ana tentou afastar esse pensamento. Profissionalismo, foco. Não podia se distrair.
Mas então, sentiu.
O calor. A presença.
Victor estava atrás dela.
Ela se virou lentamente, como se estivesse sendo puxada por uma força invisível.
Ele estava ali, alto, imponente, tão perto que o calor do corpo dele envolvia o dela como um abraço não autorizado.
— Perdida, Ana? — A voz grave era como um sussurro carregado de autoridade.
Ela ergueu o queixo. Se ele achava que podia intimidá-la, estava enganado.
— Explorando. Gosto de conhecer o território antes de me acomodar.
Victor sorriu de canto, um sorriso que não prometia nada além de enigma e perigo.
— Isso pode ser um erro. Às vezes, o território devora os visitantes incautos.
Ana sentiu a respiração falhar por um instante.
Ele estava tão perto que o cheiro amadeirado de sua colônia se misturava ao perfume dela.
Cada detalhe dele era uma ameaça silenciosa , o olhar intenso, a postura de quem controlava tudo ao seu redor, o toque de seus dedos roçando levemente seu braço, como se estivesse testando a pele dela, sua reação.
— E você, Moretti? Gosta de observar aqueles que entram no seu território? — Ela sussurrou, o tom desafiador.
Victor não respondeu de imediato. Ele apenas a observou, como se estivesse lendo sua alma.
Então, finalmente, inclinou-se um pouco mais.
— Eu gosto de possuir.
A palavra reverberou no peito de Ana como uma ameaça. Mas também como uma promessa.
Seu corpo reagiu antes que sua mente pudesse impedi-lo. O coração acelerado, o calor subindo em ondas.
Victor Moretti não era um homem que apenas olhava. Ele devorava com o olhar.
Ana percebeu, então, que não era apenas ela que estava jogando.
Ele também queria ver até onde ela iria.
E, pela primeira vez, ela se perguntou se conseguiria resistir.
O efeito de Victor Moretti ainda queimava na pele de Ana quando ela se afastou dele.
Sua respiração estava instável, seu corpo ainda reagindo ao calor do toque sutil que ele deixou em seu braço. Precisava de espaço, de ar. Ele era perigoso.
Mas, ao mesmo tempo, havia algo nele que a puxava como um ímã.
Ela se dirigiu a um dos sofás no andar térreo do clube, observando a movimentação ao redor.
As risadas femininas misturavam-se ao som sensual da música, garçons deslizavam entre as mesas com bebidas refinadas, e os clientes se envolviam em conversas carregadas de segredos.
O "Dono da Noite" não era apenas um clube. Era um império de tentação e perigo.
E Victor era seu rei.
Ana tentava reorganizar seus pensamentos quando uma mulher loira de cabelos ondulados e um vestido de seda vinho se aproximou, segurando uma taça de champanhe.
— Moretti quer você no camarote dele. Agora.
A surpresa foi imediata, mas Ana não demonstrou.
Ela olhou para a mulher com calma, escondendo o nervosismo sob uma máscara de indiferença.
— E se eu recusar?
A loira sorriu, inclinando-se levemente.
— Ninguém recusa Victor Moretti.
A tensão no peito de Ana aumentou, mas ela manteve a compostura.
Levantou-se lentamente, deslizando as mãos pelo vestido para ajeitá-lo antes de encarar a mulher.
— Então me leve até ele.
A mulher a guiou pelo salão principal, e Ana sentiu novamente os olhares a acompanhando.
Quem diabos recebia um convite pessoal de Victor Moretti?
Ao subir a escadaria que levava aos camarotes privados, Ana percebeu como aquele andar era ainda mais reservado.
As paredes escuras, as portas luxuosas e os seguranças reforçavam a ideia de que ali dentro se fechavam negócios que nunca poderiam ver a luz do dia.
Quando chegaram à entrada do camarote de Victor, a loira abriu a porta sem cerimônia.
— Entre.
Ana respirou fundo e cruzou o limiar.
O ambiente era sofisticado, mas sombrio. O cheiro de conhaque misturado ao couro dos sofás preenchia o ar.
Havia pouca luz, exceto pelo brilho suave de uma luminária moderna no canto.
E ali, sentado com uma perna cruzada sobre a outra, o paletó desabotoado e uma taça em mãos, estava Victor Moretti.
Seu olhar pousou sobre Ana assim que ela entrou. Intenso. Afiado. Perigoso.
Ele gesticulou para que ela se aproximasse.
— Sente-se, Ana.
Ela obedeceu, mas manteve a expressão impassível. Não demonstraria fraqueza.
Victor tomou um gole do conhaque antes de pousar a taça sobre a mesa de vidro.
— Você é corajosa. Poucas mulheres entram aqui sem saber exatamente no que estão se metendo.
Ana ergueu uma sobrancelha.
— E você acha que eu não sei?
Victor sorriu de canto, o olhar brilhando com algo que ela não conseguiu decifrar.
Ele se inclinou ligeiramente para frente, aproximando-se dela.
— Acho que está jogando um jogo perigoso. E eu gosto disso.
Ana sentiu o coração acelerar, mas manteve sua postura firme.
— E por que eu deveria estar aqui? — Ela cruzou as pernas, demonstrando uma falsa tranquilidade.
Victor observou o movimento, os olhos escurecendo um pouco.
Então, ele deslizou um envelope sobre a mesa em sua direção.
— Porque agora você trabalha para mim.
Ana piscou, surpresa.
— O quê?
Victor se recostou no sofá, satisfeito com a reação dela.
— Considere isso um convite... ou um aviso. Você quer informações sobre mim, e eu quero ver até onde está disposta a ir.
Ana engoliu em seco. Ele sabia. Ele sempre soube.
Mas o pior não era isso.
O pior era que, naquele instante, com o olhar de Victor cravado no dela, ela não sabia se queria aceitar ou fugir.